Ela limitou-se a sorrir.
– Lembra daquela gruta? Devíamos ter ficado naquela gruta. Eu disse.
– Vamos voltar à gruta – disse ele. – Não vai morrer, Ygritte. Não vai.
– Oh. – Ygritte envolveu o rosto dele com a mão. – Você não sabe nada, Jon Snow – suspirou, e morreu.
Bran
É só mais um castelo vazio – disse Meera Reed ao olhar a desolação de entulho, ruínas e ervas daninhas.
Não, pensou Bran, é Fortenoite, e isto é o fim do mundo. Nas montanhas, só conseguia pensar em chegar à Muralha e encontrar o corvo de três olhos, mas agora que estavam ali sentia-se cheio de temores. O sonho que tivera... o sonho que Verão tivera... Não, não devo pensar no sonho. Nem sequer o tinha contado aos Reed, embora pelo menos Meera parecesse sentir que havia algo errado. Se nunca falasse dele, talvez pudesse esquecer que o sonhara, e então não teria acontecido, e Robb e Vento Cinzento ainda estariam...
– Hodor. – Hodor deslocou o peso de uma perna para a outra, levando Bran atrás. Estava cansado. Tinham caminhado durante horas. Pelo menos não está assustado. Bran tinha medo daquele lugar, quase tanto quanto tinha de admitir isso aos Reed. Sou um príncipe do Norte, um Stark de Winterfell, quase um homem-feito, tenho de ser tão bravo quanto Robb.
Jojen fitou-o com seus olhos verde-escuros.
– Não há nada aqui que nos faça mal, Vossa Graça.
Bran não tinha tanta certeza. Fortenoite surgia em algumas das histórias mais assustadoras da Velha Ama. Tinha sido ali que o Rei da Noite reinou, antes de seu nome ter sido varrido da memória dos homens. Foi ali que o Cozinheiro Ratazana serviu ao rei ândalo seu empadão de príncipe e bacon, que as setenta e nove sentinelas mantiveram-se de vigia, que o bravo jovem Danny Flint foi violado e assassinado. Era esse o castelo onde o Rei Sherrit rogou a sua praga sobre os ândalos de antigamente, onde os jovens aprendizes tinham enfrentado a coisa saída da noite, onde o cego Symeon Olhos-de-Estrela viu os mastins do inferno lutando. Machado Louco caminhou um dia por aqueles pátios e subiu àquelas torres, assassinando seus irmãos na calada da escuridão.
Tudo aquilo tinha acontecido havia centenas de milhares de anos, com certeza, e algumas daquelas coisas talvez nem tivessem acontecido de verdade. Meistre Luwin dizia sempre que as histórias da Velha Ama não deviam ser engolidas inteiras. Mas, uma vez, o tio viera visitar o pai, e Bran interrogou-o a respeito de Fortenoite. Benjen Stark não chegou a dizer que as histórias eram verdadeiras, mas também não disse que não eram; limitou-se a encolher os ombros e declarar que haviam abandonado Fortenoite há duzentos anos. Como se isso fosse resposta.
Bran forçou-se a olhar em volta. A manhã estava fria mas luminosa, com o sol a brilhar num céu de um azul duro, mas os ruídos não lhe agradavam. O vento causava um assobio nervoso ao estremecer por entre as torres quebradas, os baluartes gemiam e aquietavam-se e ouviam-se ratazanas arrastando-se sob o chão do grande salão. Os filhos do Cozinheiro Ratazana fugindo do pai. Os pátios eram pequenas florestas onde árvores esguias esfregavam seus ramos nus uns nos outros e folhas mortas corriam como baratas por cima de manchas de neve antiga. Havia árvores crescendo onde os estábulos tinham estado, e um represeiro branco e retorcido assomava por um buraco escancarado no telhado em cúpula da cozinha. Até Verão se sentia desconfortável naquele local. Bran enfiou-se em sua pele, só por um instante, para sentir o cheiro do lugar. Também não gostou dele.
E não havia maneira de atravessar.
Bran tinha lhes dito que não haveria. Tinha dito e redito, mas Jojen Reed insistiu em ver com os próprios olhos. Dizia que tivera um sonho verde, e que seus sonhos verdes não mentiam. Também não abrem portões, pensou Bran.
O portão que Fortenoite defendia estava selado desde o dia em que os irmãos negros tinham carregado as mulas e os garranos e partido para Lago Profundo; a sua porta levadiça de ferro encontrava-se descida, as correntes que a içavam tinham sido levadas e o túnel fora preenchido com pedras e entulho, tudo congelado até se tornar tão impenetrável como a própria Muralha.
– Devíamos ter seguido Jon – disse Bran quando o viu. Pensava frequentemente no irmão bastardo, desde a noite em que Verão o vira se afastando na tempestade. – Devíamos ter procurado a estrada do rei e seguido para Castelo Negro.
– Não nos atrevemos, meu príncipe – disse Jojen. – Já lhe disse por quê.
– Mas há selvagens. Eles mataram um homem qualquer e também queriam matar o Jon. Jojen, eram uma centena.
– Foi o que você disse. Nós somos quatro. Ajudou seu irmão, se é que era realmente ele, mas isso quase lhe custou o Verão.
– Eu sei – disse Bran com um ar infeliz.
O lobo gigante tinha matado três deles, talvez mais, mas eram muitos. Depois de formarem um anel apertado em volta do homem alto sem orelhas, tinha tentado se esgueirar através da chuva, mas uma das flechas veio num relâmpago atrás dele e a súbita punhalada de dor expulsou Bran da pele do lobo e fez com que voltasse à sua. Depois que a tempestade finalmente passou, tinham se aninhado no escuro, sem uma fogueira, falando em sussurros quando falavam, escutando a respiração pesada de Hodor e perguntando a si mesmos se os selvagens iriam tentar atravessar o lago de manhã. Bran tentara várias vezes alcançar Verão, mas a dor que encontrou afastou-o, da mesma forma que uma chaleira em brasa nos faz afastar a mão quando tentamos pegá-la. Só Hodor dormiu naquela noite, murmurando “Hodor, hodor”, enquanto se debatia e virava. Bran estava aterrorizado pela possibilidade de Verão estar morrendo na escuridão. Por favor, oh deuses antigos, rezou, levaram Winterfell, meu pai e minhas pernas, não levem também o Verão. E protejam também Jon Snow e façam com que os selvagens vão embora.
Não cresciam represeiros naquela ilha pedregosa no lago, mas de algum modo os deuses antigos devem tê-lo ouvido. Os selvagens levaram tempo até partirem na manhã seguinte, despindo os corpos de seus mortos e do velho que tinham matado, e até pescando alguns peixes do lago, e houve um momento assustador quando três deles encontraram o caminho elevado e começaram a avançar pela água... mas o caminho virou e eles não, e dois quase se afogaram antes de os outros os puxarem para terra. O homem alto e careca berrou para eles, com palavras que ecoaram sobre as águas numa língua qualquer que nem mesmo Jojen conhecia, e pouco depois pegaram escudos e lanças e marcharam para nordeste, a mesma direção que Jon seguira. Bran queria partir também, para ir à procura de Verão, mas os Reed disseram que não.
– Vamos ficar mais uma noite – Jojen disse –, colocar algumas léguas entre nós e os selvagens. Não quer voltar a encontrá-los, não é?
Mais tarde nessa noite, Verão voltou de onde quer que estivera escondido, arrastando a pata traseira. Tinha comido partes dos cadáveres na estalagem, afastando os corvos, e depois nadado até a ilha. Meera arrancou a flecha quebrada da pata dele e esfregou a ferida com a seiva de umas plantas que encontrara crescendo em volta da base da torre. O lobo gigante ainda mancava, mas parecia a Bran que o fazia um pouco menos a cada dia. Os deuses tinham escutado.
– Talvez devêssemos tentar outro castelo – disse Meera ao irmão. – Talvez consigamos atravessar o portão em algum outro lugar. Podia ir bater terreno, se você quisesse, seria mais rápida sozinha.
Bran sacudiu a cabeça.
– Se for para leste, tem primeiro o Lago Profundo e depois o Portão da Rainha. Para oeste fica Marcagelo. Mas serão a mesma coisa, só que menores. Todos os portões estão selados, exceto os de Castelo Negro, Atalaialeste e Torre Sombria.