– Ele é um irmão negro – disse Bran. – Meera, ele é da Patrulha da Noite.
– Hodor? – Hodor acocorou-se para examinar o homem na rede. – Hodor – repetiu, gritando.
– A Patrulha da Noite, sim. – O gordo continuava a respirar como um fole. – Sou um irmão da Patrulha. – Tinha uma corda sob os queixos, forçando sua cabeça para trás, e outras profundamente enterradas no rosto. – Sou um corvo, por favor. Tire-me disto aqui.
De repente, Bran ficou em dúvida.
– É o corvo de três olhos? – Ele não pode ser o corvo de três olhos.
– Acho que não. – O gordo rolou os olhos, mas só havia dois. – Sou só o Sam. Samwell Tarly. Deixe-me sair, a rede está me machucando. – Recomeçou a lutar.
Meera fez um ruído de repugnância.
– Pare de se debater. Se rasgar a minha rede, atiro-o de volta ao poço. Fique quieto que eu o desenredo.
– Quem é você? – perguntou Jojen à garota com o bebê.
– Goiva – disse ela. – Como a flor de goivo. Ele é o Sam. Não queríamos assustá-los. – Embalou o bebê e murmurou para ele, e por fim a criança parou de chorar.
Meera estava desemaranhando o irmão gordo. Jojen dirigiu-se ao poço e espiou lá dentro.
– De onde vieram?
– Da Fortaleza de Craster – disse a garota. – É você o certo?
Jojen virou-se para olhá-la.
– O certo?
– Ele disse que Sam não era o certo – explicou ela. – Que havia mais alguém, disse ele. Aquele que ele havia sido enviado para encontrar.
– Quem foi que disse isso? – quis saber Bran.
– O Mãos-Frias – respondeu Goiva em voz baixa.
Meera puxou uma ponta da rede e o gordo conseguiu se sentar. Bran viu que estava tremendo e ainda lutava para recuperar o fôlego.
– Ele disse que haveria gente – arquejou. – Gente no castelo. Mas eu não sabia que ia encontrá-los bem no topo dos degraus. Não sabia que iriam atirar uma rede em mim e me furar no estômago. – Tocou a barriga com uma mão enluvada de negro. – Estou sangrando? Não consigo ver.
– Foi só uma cutucada para derrubá-lo – disse Meera. – Vem cá, deixe-me ver. – Ajoelhou e tateou em volta do umbigo do gordo. – Está usando cota de malha. Nem cheguei perto da sua pele.
– Bem, doeu do mesmo jeito – lamentou-se Sam.
– É mesmo um irmão da Patrulha da Noite? – perguntou Bran.
Os queixos do gordo balançaram quando confirmou com a cabeça. Sua pele parecia pálida e solta.
– Só um intendente. Cuidava dos corvos de Lorde Mormont. – Por um momento pareceu prestes a chorar. – Mas perdi todos no Punho. A culpa foi minha. E também fiz que nós nos perdêssemos. Nem sequer consegui encontrar a Muralha. Tem cem léguas de comprimento e duzentos metros de altura, e não consegui encontrá-la!
– Bem, agora encontrou – disse Meera. – Levante o traseiro do chão, quero a minha rede de volta.
– Como foi que atravessou a Muralha? – quis saber Jojen enquanto Sam lutava para se levantar. – O poço leva a um rio subterrâneo, foi daí que veio? Nem sequer está úmido...
– Há um portão – disse o gordo Sam. – Um portão escondido, tão velho quanto a própria Muralha. Ele chamou-o de Portão Negro.
Os Reed trocaram um olhar.
– Encontramos esse portão no fundo do poço? – perguntou Jojen.
Sam sacudiu a cabeça.
– Vocês não. Eu vou ter de levá-los.
– Por quê? – quis saber Meera. – Se há um portão...
– Não o encontrarão. Se o encontrassem, ele não se abriria. Para vocês não. É o Portão Negro. – Sam puxou a desbotada lã negra de sua manga. – Só pode ser aberto por um homem da Patrulha da Noite, disse ele. Um Irmão Juramentado que tenha proferido suas palavras.
– Disse ele. – Jojen franziu a testa. – Este... Mãos-Frias?
– Esse não é seu verdadeiro nome – disse Goiva, embalando o bebê. – É só um nome que nós demos para ele, o Sam e eu. As mãos dele eram frias como gelo, mas salvou-nos dos mortos, ele e seus corvos, e trouxe-nos para cá no seu alce.
– O seu alce? – disse Bran, pasmo.
– O seu alce? – disse Meera, sobressaltada.
– Os seus corvos? – disse Jojen.
– Hodor? – disse Hodor.
– Ele era verde? – Bran quis saber. – Tinha chifres?
O gordo mostrou-se confuso.
– O alce?
– O Mãos-Frias – disse Bran com impaciência. – Os homens verdes montam alces, costumava dizer a Velha Ama. Às vezes também têm chifres.
– Ele não era um homem verde. Usava panos negros, como um irmão da Patrulha, mas era pálido como uma criatura, com mãos tão frias que a princípio tive medo. Mas as criaturas têm olhos azuis, e não têm línguas, ou então esqueceram-se de como usá-las. – O gordo virou-se para Jojen. – Ele deve estar à espera. Devíamos ir. Têm alguma coisa mais quente para vestir? O Portão Negro é frio, e o outro lado da Muralha é ainda mais frio. Vocês...
– Por que foi que ele não veio com você? – Meera fez um gesto na direção de Goiva e do bebê. – Eles vieram com você, por que é que ele não veio? Por que foi que não o trouxe também por esse Portão Negro?
– Ele... ele não pode.
– Por quê?
– A Muralha. Disse-nos que a Muralha é mais do que apenas gelo e pedra. Tem feitiços nela urdidos... feitiços antigos, e fortes. Não pode passar para o outro lado da Muralha.
Então caiu um silêncio muito grande sobre a cozinha do castelo. Bran ouvia o suave crepitar das chamas, o vento agitando as folhas na noite, os rangidos do esquálido represeiro que se estendia para a lua. “Do outro lado dos portões vivem os monstros, e também os gigantes e os vampiros”, lembrou-se de ouvir a Velha Ama dizer, “mas não podem passar enquanto a Muralha se mantiver forte. Portanto vá dormir, meu pequeno Brandon, meu garotinho”. Não tenho nada a temer. Aqui não há monstros.
– Não sou eu quem lhe disseram para trazer – disse Jojen Reed ao gordo Sam em seus trajes negros, manchados e largos. – É ele.
– Oh. – Sam olhou-o com incerteza. Talvez só então tivesse percebido que Bran era aleijado. – Eu não... não sou suficientemente forte para levá-lo, eu...
– O Hodor pode me levar. – Bran apontou para o cesto. – Eu ando naquilo, nas costas dele.
Sam estava a encará-lo.
– É o irmão de Jon Snow. Aquele que caiu...
– Não – disse Jojen. – Aquele garoto está morto.
– Não conte – avisou Bran. – Por favor.
Sam pareceu confuso por um momento, mas por fim disse:
– Eu... eu sei guardar um segredo. A Goiva também. – Quando olhou para ela, a garota confirmou com a cabeça. – O Jon... o Jon também era meu irmão. Foi o melhor amigo que já tive, mas partiu com Qhorin Meia-Mão para bater as Presas de Gelo e não voltou. Estávamos à espera dele no Punho quando... quando...
– Jon está aqui – disse Bran. – Verão o viu. Estava com um grupo de selvagens, mas eles mataram um homem e Jon pegou o cavalo dele e fugiu. Aposto que foi para Castelo Negro.
Sam virou seus olhos grandes para Meera.
– Tem certeza de que era Jon? Viu-o?
– Sou a Meera – disse Meera com um sorriso. – Verão é...
Uma sombra desprendeu-se da cúpula quebrada lá em cima e saltou através do luar. Apesar da pata ferida, o lobo aterrissou leve e silencioso como um floco de neve. A garota chamada Goiva soltou um ruído assustado e apertou o bebê com tanta força contra si que ele começou a chorar de novo.