Da vez seguinte, o herói rosa e branco de Meereen tentou agir por antecipação, e virou a lança para o lado no último segundo para apanhar Belwas, o Forte, quando ele se esquivasse. Mas o eunuco também tinha antecipado essa tática, e dessa vez abaixou-se em vez de girar para o lado. A lança passou inofensivamente por cima de sua cabeça. E de repente Belwas estava rolando e brandindo o arakh afiado como uma navalha num arco de prata. Ouviram o corcel gritar quando a lâmina mordeu suas patas, e então o cavalo caiu, e o herói tombou da sela.
Um súbito silêncio varreu os parapeitos de tijolo de Meereen. Agora era o povo de Dany que gritava e o aclamava.
Oznak saltou para longe do cavalo e conseguiu puxar a espada antes que Belwas, o Forte, caísse sobre ele. Aço cantou contra aço, rápida e furiosamente demais para Dany seguir os golpes. Não podiam ter se passado uma dúzia de segundos antes de o peito de Belwas ficar lavado em sangue, de um corte sofrido abaixo do peitoral, e de Oznak zo Pahl ter um arakh enfiado bem entre seus chifres de carneiro. O eunuco soltou a lâmina e separou a cabeça do herói de seu corpo com três violentos golpes no pescoço. Segurou-a bem alto para que os meereeneses vissem, e em seguida a atirou na direção dos portões da cidade, fazendo-a quicar e rolar pela areia.
– E lá se foi o herói de Meereen – disse Daario, rindo.
– Uma vitória sem significado – preveniu Sor Jorah. – Não conquistaremos Meereen matando seus defensores um de cada vez.
– Pois não – concordou Dany –, mas estou feliz por termos matado este.
Os defensores nas muralhas começaram a disparar suas bestas contra Belwas, mas os dardos não alcançavam o eunuco ou deslizavam inofensivamente pelo chão. Belwas virou as costas à chuva com pontas de aço, baixou as calças, acocorou-se e cagou na direção da cidade. Limpou-se com o manto listrado de Oznak e teve tempo para saquear o cadáver do herói e abater o cavalo moribundo antes de caminhar pesadamente de volta ao bosque de oliveiras.
Os sitiantes deram-lhe sonoras boas-vindas assim que chegou ao acampamento. Os dothraki riram e gritaram, e os Imaculados produziram um grande clangor batendo com as lanças nos escudos.
– Muito bem – disse-lhe Sor Jorah.
Ben Mulato atirou ao eunuco uma ameixa madura e disse:
– Um fruto doce por uma doce luta.
Até as aias dothraki de Dany tiveram palavras de elogio:
– Queríamos trançar seus cabelos e pendurar uma sineta neles, Belwas, o Forte – disse Jhiqui –, mas não tem cabelos para trançarmos.
– Belwas, o Forte, não precisa de sinetas tilintantes. – O eunuco comeu a ameixa de Ben Mulato com quatro grandes mordidas e jogou fora o caroço. – Belwas, o Forte, precisa de fígado e cebolas.
– Vai tê-los – disse Dany. – Belwas, o Forte, está ferido. – O eunuco tinha a barriga vermelha do sangue que brotava do golpe sob o peito carnudo.
– Não é nada. Deixo sempre que me cortem uma vez, antes de matá-los. – Deu uma palmada na barriga ensanguentada. – Conte os cortes e saberá quantos homens Belwas, o Forte, matou.
Mas Dany tinha perdido Khal Drogo devido a um ferimento semelhante, e não estava disposta a deixar aquele sem tratar. Ordenou a Missandei que fosse buscar um certo liberto yunkaita, famoso por seus conhecimentos nas artes curativas. Belwas urrou e protestou, mas Dany repreendeu-o e chamou-o de grande bebê careca até que ele permitiu que o curandeiro estancasse a ferida com vinagre, desse pontos e enfaixasse o peito com faixas de linho ensopadas em vinho ardente. Só depois levou seus capitães e comandantes para dentro do pavilhão para um conselho.
– Tenho de conquistar esta cidade – disse-lhes, sentando-se de pernas cruzadas numa pilha de almofadas, rodeada pelos dragões. Irri e Jhiqui serviram vinho. – Seus celeiros estão transbordando de cheios. Há figos, tâmaras e azeitonas crescendo nos terraços de suas pirâmides, e barris de peixe salgado e carne defumada enterrados em seus porões.
– E também gordas arcas de ouro, prata e pedras preciosas – lembrou-lhes Daario. – Não nos esqueçamos das pedras preciosas.
– Eu examinei as muralhas viradas para terra firme e não vi nenhum ponto fraco – disse Sor Jorah Mormont. – Com tempo, poderíamos conseguir minar por baixo de uma torre e abrir uma brecha, mas o que comeremos enquanto escavamos? Nossas reservas estão praticamente exauridas.
– Não há pontos fracos nas muralhas virados para terra firme? – disse Dany. Meereen erguia-se numa saliência de areia e pedra onde o lento e marrom Skahazadhan desembocava na Baía dos Escravos. A muralha norte da cidade corria ao longo da margem do rio, a muralha oeste ao longo da costa da baía. – Isso significa que poderíamos atacar a partir do rio ou do mar?
– Com três navios? Vamos querer que o Capitão Groleo examine bem a muralha ao longo do rio, mas a menos que esteja em ruínas, isso é apenas uma maneira mais molhada de morrer.
– E se construíssemos torres de cerco? Meu irmão Viserys contava histórias de coisas assim, sei que podem ser construídas.
– De madeira, Vossa Graça – disse Sor Jorah. – Os senhores de escravos queimaram todas as árvores num raio de vinte léguas. Sem madeira, não temos trabucos para esmagar as muralhas, não temos escadas para passarmos por cima delas, não temos torres de cerco, não temos tartarugas e não temos aríetes. Podemos atacar os portões com machados, certamente, mas...
– Viu aquelas cabeças de bronze por cima dos portões? – perguntou Ben Mulato Plumm. – Fileiras de cabeças de harpia de boca aberta? Os meereeneses podem esguichar azeite fervente por esses bocas e cozinhar os seus homens ali mesmo.
Daario Naharis dirigiu a Verme Cinzento um sorriso.
– Talvez os Imaculados devessem manejar os machados. Azeite fervente para vocês não é mais do que um banho quente, segundo ouvi dizer.
– Isso é falso. – Verme Cinzento não devolveu o sorriso. – Estes não sentem as queimaduras como os homens sentem, mas esse azeite cega e mata. Contudo, os Imaculados não temem morrer. Dê a estes aríetes, e derrubamos aqueles portões ou morremos tentando.
– Morreriam – disse Ben Mulato. Em Yunkai, quando tinha recebido o comando dos Segundos Filhos, afirmou ser um veterano de uma centena de batalhas. “Embora não possa dizer que tenha lutado bravamente em todas elas. Existem mercenários velhos e mercenários ousados, mas não há mercenários velhos e ousados.” Ela via que isso era verdade.
Dany suspirou.
– Não desperdiçarei a vida de Imaculados, Verme Cinzento. Talvez possamos derrotar a cidade pela fome.
Sor Jorah fez uma expressão infeliz.
– Nós passaremos fome muito antes deles, Vossa Graça. Aqui não há alimentos, nem forragem para nossas mulas e cavalos. Também não gosto da água desse rio. Meereen evacua no Skahazadhan, mas retira a sua água de beber de poços profundos. Já temos relatos de doença nos acampamentos, febre, castanheira e três casos de diarreia sanguinolenta. Haverá mais se ficarmos aqui. Os escravos estão enfraquecidos pela marcha.
– Libertos – corrigiu Dany. – Eles já não são escravos.
– Escravos ou livres, têm fome e em breve estarão doentes. A cidade está mais bem aprovisionada do que nós e pode ser reabastecida por via aquática. Seus três navios não são suficientes para lhes negar acesso tanto ao rio quanto ao mar.
– Então o que aconselha, Sor Jorah?
– Não gostará de ouvir.
– Quero ouvir mesmo assim.
– Como quiser. Digo que deixemos esta cidade em paz. Não pode libertar todos os escravos do mundo, khaleesi. Sua guerra é em Westeros.
– Não me esqueci de Westeros. – Certas noites Dany sonhava com aquela terra legendária que nunca vira. – Mas se deixar que as velhas muralhas de tijolo de Meereen me derrotem tão facilmente, como poderei conquistar os grandes castelos de pedra de Westeros?