Выбрать главу

– Como Aegon conquistou – disse Sor Jorah. – Com fogo. Quando chegarmos aos Sete Reinos, seus dragões já terão crescido. E teremos também torres de cerco e trabucos, tudo aquilo de que não dispomos aqui... mas o caminho através das Terras do Longo Verão é longo e duro, e há perigos que não podemos conhecer. A senhora parou em Astapor para comprar um exército, não para começar uma guerra. Guarde as lanças e espadas para os Sete Reinos, minha rainha. Deixe Meereen para os meereeneses e marche para oeste em direção a Pentos.

– Derrotada? – disse Dany, irritando-se.

– Quando os covardes se escondem atrás de grandes muralhas, são eles os derrotados, khaleesi – disse Ko Jhogo.

Os outros companheiros de sangue concordaram.

– Sangue do meu sangue – disse Rakharo –, quando os covardes se escondem e queimam a comida e a forragem, os grandes khals têm de procurar inimigos mais corajosos. É sabido.

– É sabido – concordou Jhiqui, enquanto servia o vinho.

– Não por mim. – Dany prezava grandemente os conselhos de Sor Jorah, mas deixar Meereen intacta era mais do que conseguia suportar. Não era capaz de se esquecer das crianças em seus postes, com as aves devorando suas entranhas, seus braços magros apontando para a estrada costeira. – Sor Jorah, diz que não nos resta comida. Se eu marchar para oeste, como conseguirei alimentar os meus libertos?

– Não conseguirá. Lamento, khaleesi. Eles terão de arranjar alimentos para si próprios, ou passarão fome. Muitos e muitos mais ainda morrerão ao longo da marcha, é verdade. Será duro, mas não há maneira de salvá-los. Precisamos pôr esta terra calcinada bem para trás de nós.

Dany deixou um rastro de cadáveres atrás de si quando atravessou o deserto vermelho. Era algo que não queria voltar a ver.

– Não – disse. – Não levarei meu povo para a morte. – Os meus filhos. – Tem de haver alguma maneira de entrar nesta cidade.

– Eu conheço uma maneira. – Ben Mulato Plumm afagou sua barba salpicada de cinza e branco. – Esgotos.

– Esgotos? O que quer dizer?

– Grandes esgotos de tijolo desembocam no Skahazadhan, despejando os dejetos da cidade. Podem ser uma maneira de entrar, para alguns homens. Foi assim que fugi de Meereen, depois de Scarb ficar sem cabeça. – Ben Mulato fez uma careta. – O cheiro nunca me abandonou. Às vezes sonho com ele.

Sor Jorah fez uma expressão de dúvida.

– É mais fácil sair do que entrar, tendo a acreditar. Esses esgotos desembocam no rio, você diz? Isso quer dizer que as desembocaduras estão logo abaixo das muralhas.

– E fechadas com grades de ferro – admitiu Ben Mulato –, se bem que algumas foram comidas pela ferrugem, caso contrário eu teria me afogado em merda. Uma vez lá dentro, é uma longa e malcheirosa subida numa escuridão de breu através de um labirinto de tijolo onde um homem pode se perder para sempre. A sujeira nunca fica abaixo da cintura, e pode subir acima da cabeça, julgando pelas manchas que vi nas paredes. E também há coisas lá embaixo. As maiores ratazanas que você já viu, e coisas piores. Nojentas.

Daario Naharis soltou uma gargalhada.

– Tão nojentas como você, quando saiu de lá? Se algum homem fosse suficientemente tolo para tentar uma coisa dessas, todos os feitores de Meereen conseguiriam cheirá-lo no momento em que emergisse.

Ben Mulato encolheu os ombros.

– Sua Graça perguntou se havia uma maneira de entrar, então eu disse... mas Ben Plumm não volta àqueles esgotos, nem por todo o ouro dos Sete Reinos. No entanto, se houver outros que queiram tentar, força.

Aggo, Jhogo e Verme Cinzento tentaram falar ao mesmo tempo, mas Dany levantou uma mão para pedir silêncio.

– Esses esgotos não parecem promissores. – Sabia que Verme Cinzento levaria seus Imaculados pelos esgotos se ela ordenasse; os companheiros de sangue não fariam menos. Mas nenhum deles era adequado para a tarefa. Os dothraki eram cavaleiros, e a força dos Imaculados residia em sua disciplina no campo de batalha. Posso enviar homens para morrer no meio das trevas com base numa esperança tão frágil? – Tenho de pensar um pouco mais sobre isso. Voltem aos seus deveres.

Seus capitães fizeram reverências e deixaram-na sozinha com as aias e os dragões. Mas no momento em que Ben Mulato saía, Viserion abriu suas asas brancas e esvoaçou indolentemente na direção de sua cabeça. Uma das asas esbofeteou o mercenário no rosto. O dragão branco aterrissou desajeitadamente com uma pata na cabeça do homem e a outra no seu ombro, guinchou e voltou a levantar voo.

– Ele gosta de você, Ben – disse Dany.

– E tem razões para isso. – Ben Mulato soltou uma gargalhada. – Eu tenho cá uma gotinha de sangue de dragão, sabia?

– Você? – Dany estava surpresa. Plumm era uma criatura das companhias livres, um amigável mestiço. Tinha um largo rosto pardo, um nariz quebrado e uma cabeça cheia de cabelos grisalhos crespos, e sua mãe dothraki legara-lhe olhos grandes, escuros e amendoados. Dizia ser em parte bravosi, em parte ilhéu-do-verão, em parte ibenês, em parte qohorik, em parte dothraki, em parte dornês e em parte westerosi, mas aquela era a primeira vez que Dany ouvia falar de sangue Targaryen. Dirigiu-lhe um olhar perscrutador e perguntou: – Como isso seria possível?

– Bem – disse Ben Mulato –, houve um velho Plumm nos Reinos do Poente que casou com uma princesa do dragão. Minha avó contou-me a história. Viveu nos tempos do Rei Aegon.

– Qual dos Reis Aegon? – perguntou Dany. – Houve cinco Aegons governando Westeros. – O filho do irmão teria sido o sexto, mas os homens do Usurpador tinham esmagado a cabeça dele contra uma parede.

– Ah, houve cinco? Bem, isso é uma confusão. Não saberia lhe dar um número, minha rainha. Mas esse velho Plumm era um senhor, deve ter sido um cara famoso nos seus tempos, falado por todos os lados. O caso é, com a sua real licença, que ele tinha um pinto de dezoito decímetros.

As três sinetas na trança de Dany tilintaram quando ela riu.

– Quer dizer centímetros, creio eu.

– Decímetros – disse firmemente Ben Mulato. – Se fossem centímetros, quem se preocuparia em falar dele, Vossa Graça?

Dany riu como uma garotinha.

– Sua avó alegou ter visto esse prodígio?

– Isso foi coisa que a velha bruxa não fez. Era meio ibenesa e meio qohorik, nunca esteve em Westeros, meu avô deve ter lhe contado a história. Um dothraki qualquer matou-o antes de eu nascer.

– E de onde veio o conhecimento de seu avô?

– Uma daquelas histórias contadas em família, suponho. – Ben Mulato encolheu os ombros. – Receio que seja tudo que sei de Aegon, o Sem-Número, ou do poderoso membro do velho Lorde Plumm. É melhor ir tratar de meus Filhos.

– Trate disso – disse-lhe Dany.

Quando Ben Mulato saiu, recostou-se nas almofadas.

– Se você fosse grande – disse a Drogon, coçando-o entre os cornos – eu voaria com você por sobre as muralhas e transformaria aquela harpia em cinzas. – Mas ainda faltavam anos até que seus dragões fossem suficientemente grandes para serem montados. E quando forem, quem os montará? O dragão tem três cabeças, mas eu só tenho uma. Pensou em Daario. Se alguma vez existiu um homem capaz de violar uma mulher com os olhos...

Na verdade, ela era igualmente culpada. Dany dava por si lançando olhares ao tyroshi quando seus capitães vinham aos conselhos, e às vezes, de noite, recordava o modo como o dente de ouro cintilava quando ele sorria. Isso, e seus olhos. Seus brilhantes olhos azuis. Na estrada de Yunkai, Daario trouxe-lhe todas as noites, quando vinha fazer o relatório, uma flor, um broto ou uma planta qualquer... para ajudá-la a conhecer aquela terra, dizia. Vespalgueiro, rosa-penumbrosa, hortelã silvestre, renda-de-senhora, folha-de-adaga, giesteira, comichosa, ouro-de-harpia... E tentou me poupar da visão das crianças mortas. Não devia ter feito isso, mas a intenção era bondosa. E Daario Naharis fazia-a rir, o que Sor Jorah nunca fazia.