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Dany afastou o olhar, nauseada. Sentia-se mais assustada agora do que enquanto os acontecimentos decorriam. Ele podia ter me matado.

– Vossa Graça – Arstan ajoelhou. – Sou um velho, e estou envergonhado. Ele nunca devia ter se aproximado o suficiente para agarrá-la. Fui negligente. Não o reconheci sem a barba e os cabelos.

– Assim como eu. – Dany respirou fundo para parar de tremer. Inimigos por todo lado. – Leve-me de volta à minha tenda. Por favor.

Quando Mormont chegou, estava enrolada em sua pele de leão, bebendo uma taça de vinho com especiarias.

– Examinei a muralha do rio – Sor Jorah começou a dizer. – É alguns centímetros mais alta do que as outras, e igualmente forte. E os meereeneses têm uma dúzia de barcos de fogo amarrados sob os baluartes...

Ela interrompeu-o.

– Podia ter me avisado de que o Bastardo do Titã tinha escapado.

Ele franziu a testa.

– Não vi necessidade de alarmá-la, Vossa Graça. Ofereci uma recompensa pela cabeça dele...

– Pague-a ao Barba-Branca. Mero tem nos acompanhado o tempo todo desde Yunkai. Raspou a barba e perdeu-se entre os libertos, aguardando uma oportunidade de vingança. Arstan matou-o.

Sor Jorah dirigiu ao velho um longo olhar.

– Um escudeiro com um bastão matou Mero de Bravos, foi isso que aconteceu?

– Um bastão – confirmou Dany –, mas não mais um escudeiro. Sor Jorah, é meu desejo que Arstan seja armado cavaleiro.

Não.

A sonora recusa já era bastante surpreendente. Mais estranho ainda foi vir de ambos os homens ao mesmo tempo.

Sor Jorah puxou a espada.

– O Bastardo do Titã era um homem perigoso. E bom em matar. Quem é você, velho?

– Um cavaleiro melhor do que você, sor – disse friamente Arstan.

Cavaleiro? Dany sentia-se confusa.

– Disse que era um escudeiro.

– E fui, Vossa Graça. – O velho ajoelhou-se. – Fui escudeiro de Lorde Swann na minha juventude, e a pedido do Magíster Illyrio servi também Belwas, o Forte. Mas durante os anos que se passaram entre uma coisa e outra, fui um cavaleiro em Westeros. Não lhe disse mentiras, minha rainha. No entanto, há verdades que calei, e por isso e por todos os meus outros pecados só posso lhe pedir perdão.

– Que verdades calou? – Dany não estava gostando daquilo. – Vai me dizer. Já.

Ele inclinou a cabeça.

– Em Qarth, quando perguntou meu nome, disse-lhe que me chamavam Arstan. Isso é verdade. Muitos homens me chamaram por esse nome enquanto Belwas e eu nos dirigíamos para leste ao seu encontro. Mas não é o meu verdadeiro nome.

Dany estava mais confusa do que zangada. Ele enganou-me, tal como Jorah me avisou, e no entanto acabou de salvar minha vida.

Sor Jorah enrubesceu.

– Mero raspou a barba, mas você deixou crescer uma, não é verdade? Não é à toa que parece tão familiar para mim...

– Conhece-o? – perguntou Dany ao cavaleiro exilado, perdida.

– Vi-o talvez uma dúzia de vezes... de longe, geralmente, quando estava na companhia dos irmãos ou participando de algum torneio. Mas todos os homens dos Sete Reinos conheceram Barristan, o Ousado. – Encostou a ponta da espada no pescoço do velho. – Khaleesi, perante a senhora ajoelha-se Sor Barristan Selmy, Senhor Comandante da Guarda Real, que traiu a sua Casa para servir o Usurpador Robert Baratheon.

O velho cavaleiro sequer pestanejou.

– O corvo chama de preto o melro, e você fala de traição.

– Por que está aqui? – perguntou-lhe Dany. – Se Robert o enviou para me matar, por que salvou minha vida? – Ele serviu ao Usurpador. Ele traiu a memória de Rhaegar e abandonou Viserys para viver e morrer no exílio. Mas se quisesse me ver morta, teria precisado apenas ficar de lado... – Agora quero a verdade completa, por sua honra de cavaleiro. É um homem do Usurpador, ou meu?

– Seu, se me aceitar. – Sor Barristan tinha lágrimas nos olhos. – Aceitei o perdão de Robert, é verdade. Servi-o na Guarda Real e no Conselho. Servi com o Regicida e outros quase tão maus, que mancharam o manto branco que eu usava. Nada poderá perdoar isso. Eu poderia continuar servindo em Porto Real se o vil rapaz sentado no Trono de Ferro não tivesse me posto de lado, envergonha-me admitir. Mas quando ele tirou o manto que o Touro Branco prendeu em volta de meus ombros e mandou homens para me matar nesse mesmo dia, foi como se tivesse tirado uma membrana da frente de meus olhos. Foi então que soube que tinha de procurar meu verdadeiro rei, e morrer a serviço dele...

– Posso conceder esse desejo – disse sombriamente Sor Jorah.

– Silêncio – disse Dany. – Quero ouvir o que ele tem a dizer.

– Talvez tenha de morrer uma morte de traidor – disse Sor Barristan. – Se assim for, não deverei morrer só. Antes de receber o perdão de Robert, lutei contra ele no Tridente. Você estava do outro lado da batalha, Mormont, não é verdade? – Não esperou por uma resposta. – Vossa Graça, lamento tê-la induzido ao erro. Foi a única forma de evitar que os Lannister soubessem que tinha me juntado à senhora. É vigiada, tal como seu irmão era. Lorde Varys relatou durante anos cada movimento de Viserys. Enquanto fiz parte do pequeno conselho, ouvi uma centena de tais relatórios. E desde o dia em que desposou Khal Drogo tem um informante ao seu lado, vendendo seus segredos, trocando sussurros com a Aranha por ouro e promessas.

Ele não pode querer dizer...

– Está enganado. – Dany olhou para Jorah Mormont. – Diga-lhe que está enganado. Não há nenhum informante. Sor Jorah, diga-lhe. Atravessamos juntos o mar dothraki e o deserto vermelho... – Sentia o coração rodopiar como um pássaro apanhado numa armadilha. – Diga-lhe, Jorah. Diga-lhe como entendeu tudo errado.

– Que os Outros o carreguem, Selmy. – Sor Jorah atirou a espada no tapete. – Khaleesi, foi apenas no início, antes de começar a conhecê-la... antes de começar a amá...

Não diga essa palavra! – afastou-se dele. – Como pôde fazer isso? O que o Usurpador lhe prometeu? Ouro, foi ouro? – os Imorredouros tinham dito que ela seria traída mais duas vezes, uma por ouro e outra por amor. – Diga-me o que lhe foi prometido!

– Varys disse... que eu poderia ir para casa. – Baixou a cabeça.

Eu ia levá-lo para casa! Os dragões pressentiram a sua fúria. Viserion rugiu e uma fumaça cinza subiu de seu focinho. Drogon bateu o ar com asas negras e Rhaegal torceu a cabeça para trás e arrotou uma chama. Devia dizer a palavra e queimar os dois. Não haveria ninguém em que pudesse confiar? Ninguém que a mantivesse em segurança?

– Serão todos os cavaleiros de Westeros tão falsos como vocês dois? Saiam, antes que os meus dragões assem ambos. Qual é o cheiro de mentiroso assado? Cheirará tão mal quanto os esgotos de Ben Mulato? Vão!

Sor Barristan levantou-se, hirto e lento. Pela primeira vez, pareceu ter a idade que tinha.

– Para onde devemos ir, Vossa Graça?

– Para o inferno, servir o Rei Robert. – Dany sentiu lágrimas quentes nas bochechas. Dragon gritou, brandindo a cauda de um lado para o outro. – Que os Outros os carreguem. – Vão, vão embora para sempre, vocês dois, da próxima vez que vir suas caras cortarei essas suas cabeças de traidores. Mas não conseguiu dizer tais palavras. Eles me traíram. Mas me salvaram. Mas mentiram. – Vão... – Meu urso, meu feroz e forte urso, o que farei sem ele? E o velho, amigo de meu irmão. – Vão... vão... – Para onde?

E então soube.