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– Perdoe-me se não choro por você.

– Perdoarei, mas você deve me perdoar se não choro por Shae. Confesso que não compreendo o que há nela para fazer com que um homem inteligente como você aja tão tolamente.

– Poderia entender se não fosse um eunuco.

– Então é isso? Um homem pode ter miolos ou um pedaço de carne entre as pernas, mas as duas coisas não? – Varys abafou um risinho. – Então talvez deva me sentir grato por ter sido cortado.

A Aranha tinha razão. Tyrion tateou na escuridão assombrada por dragões à procura das roupas de baixo, sentindo-se infeliz. O risco que estava correndo deixava-o tenso como um tambor, e havia também culpa. Que os Outros levem a minha culpa, pensou enquanto enfiava a túnica pela cabeça. Por que devo me sentir culpado? Minha esposa não quer nada de mim e rejeita muito em especial a parte que parece desejá-la. Talvez devesse contar a ela sobre Shae. Não era o caso de ser o primeiro homem a ter uma concubina. O próprio oh-tão-honroso pai de Sansa lhe dera um irmão bastardo. Até onde sabia, sua esposa poderia ficar encantada por saber que ele andava fodendo Shae, desde que isso a poupasse de atenções que não desejava.

Não, não me atrevo. Com votos ou sem eles, sua esposa não era digna de confiança. Podia ser donzela entre as pernas, mas dificilmente inocente de traição; uma vez tinha despejado os planos do próprio pai nos ouvidos de Cersei. E as garotas de sua idade não eram conhecidas por manterem segredos.

O único caminho seguro era ver-se livre de Shae. Podia mandá-la a Chataya, refletiu Tyrion, relutantemente. No bordel de Chataya, Shae teria todas as sedas e pedras preciosas que poderia desejar e os mais gentis fregueses de elevado nascimento. Seria de longe uma vida melhor do que a que vivia quando a tinha encontrado.

Ou então, se estivesse cansada de ganhar o pão deitada, podia arranjar-lhe um casamento. Bronn, talvez? O mercenário nunca se recusara a comer do prato de seu senhor, e agora era um cavaleiro, podia almejar um partido melhor do que ela. Ou Sor Tallad? Tyrion vira-o mais do que uma vez fitando Shae com desejo. Por que não? É alto, forte, não é difícil olhá-lo, da cabeça aos pés um jovem cavaleiro talentoso. Claro, Tallad conhecia Shae apenas como a bonita aia de uma jovem senhora em serviço no castelo. Se se casasse com ela e depois ficasse sabendo que ela era uma prostituta...

– Senhor, onde está? Os dragões comeram-no?

– Não. Estou aqui. – Apalpou um crânio de dragão. – Encontrei um sapato, mas acho que é seu.

– O senhor parece muito solene. Desagradei-o?

– Não – disse, com demasiada brusquidão. – Você me agrada sempre. – E aí mora o perigo. Podia sonhar em mandá-la embora em horas como aquela, mas isso nunca durava muito tempo. Tyrion via-a tenuemente no meio das trevas, puxando uma meia de lã por uma perna esguia. Consigo ver. Uma vaga luminosidade vazava pela fileira de longas janelas estreitas abertas bem alto na parede do porão. Os crânios dos dragões Targaryen emergiam da escuridão que os rodeava, negros em fundo cinza. – O dia chega cedo demais. – Um novo dia. Um novo ano. Um novo século. Sobrevivi ao Ramo Verde e à Água Negra, posso perfeitamente sobreviver ao casamento do Rei Joffrey.

Shae despendurou o vestido do dente do dragão e enfiou-o pela cabeça.

– Eu subo primeiro. Brella vai querer ajuda com a água do banho. – Debruçou-se para lhe dar um último beijo, na testa. – Meu gigante Lannister. Amo tanto você.

E eu também a amo, querida. Podia ser uma prostituta, mas merecia mais do que o que ele tinha para dar. Vou casá-la com Sor Tallad. Ele parece ser um homem decente. E alto...

Sansa

Foi um sonho tão bom, pensou Sansa, sonolenta. Estava de volta a Winterfell, correndo pelo bosque sagrado com sua Lady. O pai estava lá, e os irmãos também, todos quentes e em segurança. Se os sonhos pudessem se tornar realidade...

Afastou os cobertores. Tenho de ser brava. Seus tormentos terminariam em breve, de um modo ou de outro. Se Lady estivesse aqui, não teria medo. Mas Lady estava morta; Robb, Bran, Rickon, Arya, o pai, a mãe, até a Septã Mordane. Todos mortos, menos eu. Agora estava sozinha no mundo.

O senhor seu esposo não estava ao seu lado, mas estava habituada a isso. Tyrion dormia mal, e frequentemente acordava antes do nascer do dia. Normalmente ia encontrá-lo no aposento privado, inclinado ao lado de uma vela, perdido num velho pergaminho qualquer ou num livro encadernado em couro. Às vezes o cheiro do pão da manhã que vinha dos fornos levava-o às cozinhas, e às vezes subia ao jardim do telhado, ou ia passear, sozinho, pelo Corredor do Traidor.

Abriu as venezianas e estremeceu quando o arrepio subiu por seus braços. Havia nuvens se acumulando no céu oriental, perfuradas por raios de sol. Parecem dois enormes castelos flutuando no céu da manhã. Sansa conseguia ver as muralhas de pedra arruinadas, suas poderosas fortalezas e barbacãs. Estandartes vaporosos rodopiavam no topo de suas torres e estendiam-se para as estrelas que se desvaneciam rapidamente. O sol erguia-se atrás deles, e viu-os passar de negro a cinza e a mil de tons de rosa, ouro e carmesim. Pouco depois o vento mesclou-os, e passou a haver apenas um castelo onde tinha havido dois.

Ouviu a porta se abrindo quando as aias trouxeram a água quente para o banho. Eram ambas novas ao seu serviço; Tyrion dizia que as mulheres que tomavam conta dela antes eram todas espiãs de Cersei, tal como Sansa sempre suspeitara.

– Venham ver – disse-lhes. – Há um castelo no céu.

Elas foram dar uma olhada.

– É feito de ouro. – Shae tinha cabelos escuros e curtos e olhos ousados. Fazia tudo o que lhe era pedido, mas às vezes dirigia a Sansa os mais insolentes dos olhares. – Um castelo todo feito de ouro, aí está uma coisa que eu gostaria de ver.

– Um castelo, é? – Brella tinha de semicerrar os olhos. – Aquela torre tá caindo, parece. É tudo ruínas, aquilo.

Sansa não queria ouvir falar de torres caindo e castelos arruinados. Fechou as venezianas e disse:

– Somos esperados no café da manhã da rainha. O senhor meu esposo está no aposento privado?

– Não, senhora – disse Brella. – Não o vi.

– Pode ser que tenha ido ver o pai – declarou Shae. – Talvez a Mão do Rei precise de seus conselhos.

Brella deu uma fungada.

– Senhora Sansa, talvez queira entrar na banheira antes que a água esfrie demais.

Sansa deixou que Shae puxasse sua camisa de dormir pela cabeça e entrou na grande banheira de madeira. Sentiu-se tentada a pedir uma taça de vinho, para lhe acalmar os nervos. O casamento estava marcado para o meio-dia no Grande Septo de Baelor, do outro lado da cidade. E, ao cair da noite, o banquete seria dado na sala do trono; mil convidados e setenta e sete pratos, com cantores, malabaristas e saltimbancos. Mas primeiro havia o café da manhã no Salão de Baile da Rainha, para os Lannister e os homens Tyrell – as mulheres Tyrell quebrariam o jejum com Margaery – e cento e tantos cavaleiros e fidalgos. Fizeram de mim uma Lannister, pensou Sansa com amargura.

Brella mandou Shae ir buscar mais água quente enquanto lavava as costas de Sansa.

– Está tremendo, senhora.

– A água não está quente o suficiente – mentiu Sansa.

As aias a vestiam quando Tyrion apareceu, com Podrick Payne a reboque.