– Está adorável, Sansa. – Virou-se para o escudeiro. – Pod, faça a gentileza de me servir uma taça de vinho.
– Vai haver vinho no café da manhã, senhor – disse Sansa.
– Há vinho aqui. Não espera certamente que enfrente a minha irmã sóbrio? É um novo século, senhora. O tricentésimo ano desde a Conquista de Aegon. – O anão pegou a taça de tinto que Podrick tinha lhe entregado e ergueu-a bem alto. – A Aegon. Que cara afortunado. Duas irmãs, duas esposas e três grandes dragões, o que mais pode um homem pedir? – limpou a boca com as costas da mão.
Sansa reparou que as roupas do Duende estavam sujas e em desalinho; parecia que tinha dormido vestido.
– Vai vestir roupa lavada, senhor? Seu gibão novo é muito bonito.
– O gibão é bonito, sim. – Tyrion pôs a taça de lado. – Ande, Pod, vamos ver se encontramos algum vestuário que me faça parecer menos anão. Não vou querer envergonhar a senhora minha esposa.
Quando o Duende retornou pouco depois, estava bastante apresentável, e até um pouco mais alto. Podrick Payne também tinha trocado de roupa, e por uma vez quase parecia um escudeiro como deve ser, embora uma espinha vermelha bastante grande que tinha no canto do nariz estragasse o efeito de seu magnífico traje púrpura, branco e dourado. É um rapaz tão tímido. A princípio, Sansa desconfiava do escudeiro de Tyrion; ele era um Payne, primo de Sor Ilyn Payne, que tinha cortado a cabeça do pai. No entanto, depressa percebeu que Pod tinha tanto medo dela como ela tinha do primo. Sempre que falava com ele, o rapaz ficava do mais alarmante tom de vermelho.
– Púrpura, dourado e branco são as cores da Casa Payne, Podrick? – perguntou-lhe polidamente.
– Não. Isto é, sim. – Corou. – As cores. Nossas armas são axadrezado de púrpura e branco, senhora. Com moedas de ouro. Nos quadrados. Púrpura e branco. Em ambos. – E estudou os pés dela.
– Há uma história por trás dessas moedas – disse Tyrion. – Sem dúvida Pod a confidenciará um dia aos seus dedos dos pés. Agora, porém, somos esperados no Salão de Baile da Rainha. Vamos?
Sansa sentiu-se tentada a pedir para não ir. Podia lhe dizer que tenho um incômodo na barriga, ou que o sangue da lua chegou. Nada desejava mais do que voltar a se enfiar na cama e puxar as cortinas. Tenho de ser corajosa, como Robb, disse a si mesma, ao dar rigidamente o braço ao senhor seu esposo.
No Salão de Baile da Rainha quebraram o jejum com bolinhos de mel assados com amoras silvestres e nozes, fatias de presunto defumado, iscas de peixe empanadas, bacon, peras de outono e um prato dornês de cebolas, queijo e fatias de ovo cozido com malaguetas.
– Nada como um café da manhã robusto para despertar o apetite para o banquete de setenta e sete pratos que se seguirá – comentou Tyrion enquanto os criados enchiam seus pratos. Havia jarros de leite, de hidromel e de um vinho dourado, leve e doce para empurrar a refeição para baixo. Músicos vagueavam por entre as mesas, com gaitas, flautas e rabecas, enquanto Sor Dontos galopava pela sala em seu cavalo de pau de vassoura e o Rapaz Lua fazia ruídos de peido com as bochechas e cantava canções rudes sobre os convidados.
Sansa reparou que Tyrion quase não tocou na comida, embora tivesse bebido várias taças de vinho. Quanto a si, experimentou um pouco dos ovos dorneses, mas as malaguetas queimaram sua boca. Além deles, limitou-se a beliscar a fruta, o peixe e os bolinhos de mel. Cada vez que Joffrey olhava para ela, sentia a barriga tão agitada que era como se tivesse engolido um morcego.
Depois de tirarem a mesa, a rainha presenteou solenemente Joffrey com o manto de esposa com que envolveria os ombros de Margaery.
– É o manto que eu usei quando Robert me tomou como sua rainha, o mesmo manto que a minha mãe, a Senhora Joanna, usou quando se casou com o senhor meu pai. – Sansa pensou que parecia puído, a bem da verdade, mas talvez fosse por ter sido tão usado.
Então chegou a hora dos presentes. Era tradição da Campina dar presentes à noiva e ao noivo na manhã de seu casamento; no dia seguinte receberiam mais presentes como casal, mas as prendas naquele dia eram para cada um individualmente.
De Jalabhar Xho, Joffrey recebeu um grande arco de madeira dourada e uma aljava cheia de longas flechas com penas verdes e escarlates; da Senhora Tanda, um par de botas flexíveis de montar; de Sor Kevan, uma magnífica sela para justas feita de couro vermelho; um broche de ouro vermelho, trabalhado em forma de escorpião, foi dado pelo dornês, o Príncipe Oberyn; recebeu esporas de prata de Sor Addam Marbrand; um pavilhão de torneio em seda vermelha foi o presente de Lorde Mathis Rowan. Lorde Paxter Redwyne apresentou uma bela maquete em madeira da galé de guerra de duzentos remos que estava sendo construída naquele momento na Árvore.
– Se agradar a Vossa Graça, vai se chamar Valor do Rei Joffrey – disse ele, e Joff concedeu que estava muito agradado de fato.
– Farei dele meu navio almirante quando zarpar para Pedra do Dragão a fim de matar meu tio traidor, Stannis – disse.
Ele hoje se faz de rei atencioso. Sansa sabia que Joffrey podia ser galante quando lhe convinha, mas parecia convir-lhe cada vez menos. E de fato, toda a sua cortesia desapareceu de imediato quando Tyrion lhe entregou o seu presente: um enorme livro antigo intitulado Vidas de quatro reis, encadernado em couro e magnificamente recheado de iluminuras. O rei folheou-o sem qualquer interesse.
– E o que é isto, tio?
Um livro. Sansa perguntou a si mesma se Joffrey movia aqueles seus gordos lábios vermiformes quando lia.
– A história dos reinados de Daeron, o Jovem Dragão, Baelor, o Abençoado, Aegon, o Indigno, e Daeron, o Bom, escrita pelo Grande Meistre Kaeth – respondeu o seu pequeno esposo.
– Um livro que todo rei deveria ler, Vossa Graça – disse Sor Kevan.
– Meu pai não tinha tempo para livros. – Joffrey empurrou o presente para longe. – Se lesse menos, tio Duende, talvez a Senhora Sansa tivesse um bebê dentro dela a essa altura. – Riu... e quando o rei ri, a corte ri com ele. – Não fique triste, Sansa, depois de deixar a Rainha Margaery esperando um bebê, visitarei o seu quarto e mostrarei ao meu pequeno tio como se faz.
Sansa enrubesceu. Deu um relance nervoso a Tyrion, com medo do que ele poderia dizer. Aquilo podia se tornar tão feio como a ida para a cama no banquete deles. Mas, por uma vez, o anão encheu a boca com vinho em vez de palavras.
Lorde Mance Tyrell avançou para apresentar o seu presente: um cálice dourado de noventa centímetros de altura, com duas ornamentadas alças curvas e sete lados cintilando de pedras preciosas.
– Sete lados para os sete reinos de Vossa Graça – explicou o pai da noiva. Mostrou-lhes como cada lado ostentava o símbolo de uma das grandes casas: leão de rubi, rosa de esmeralda, veado de ônix, truta de prata, falcão de jade azul, sol de opala e lobo gigante de pérola.
– Uma taça magnífica – disse Joffrey –, mas parece-me que vamos ter de arrancar o lobo e pôr uma lula no seu lugar.
Sansa fingiu não ouvi-lo.
– Margaery e eu beberemos bastante no banquete, sogro. – Joffrey ergueu o cálice acima da cabeça, para que todos o admirassem.
– A maldita coisa é tão alta quanto eu – resmungou Tyrion em voz baixa. – Metade do cálice e Joff estará caindo de bêbado.
Ótimo, pensou ela. Talvez quebre o pescoço.
Lorde Tywin esperou até o fim para entregar ao rei o seu presente: uma espada longa. A bainha era feita de cerejeira, ouro e couro vermelho oleado, incrustado de cabeças de leão em ouro. Sansa viu que os leões tinham olhos de rubi. O salão de baile ficou em silêncio quando Joffrey desembainhou a espada e a ergueu acima da cabeça. Ondulações vermelhas e negras no aço cintilaram à luz da manhã.