– Rendo-me, rendo-me – gritou o anão de baixo. – Bom sor, guarde a espada!
– Guardaria, guardaria, se parasse de mexer a bainha! – respondeu o anão de cima, para divertimento geral.
Vinho jorrava de ambas as narinas de Joffrey. Arfando, pôs-se em pé com dificuldade, quase derrubando seu grande cálice de duas mãos.
– Um campeão – gritou. – Temos um campeão! – O salão começou a ficar em silêncio quando os convidados perceberam que o rei estava falando. Os anões separaram-se, sem dúvida à espera dos agradecimentos reais. – Mas não é um verdadeiro campeão – disse Joff. – Um verdadeiro campeão derrota todos aqueles que o desafiam. – O rei subiu para cima da mesa. – Quem mais desafiará o nosso minúsculo campeão? – com um sorriso cheio de satisfação, virou-se para Tyrion. – Tio! Você irá defender a honra do meu reino, não é verdade? Pode montar o porco!
As gargalhadas estouraram sobre ele como uma onda. Tyrion Lannister não lembrava de ter se levantado, nem de ter subido na cadeira, mas deu por si empoleirado na mesa. O salão era uma mancha de rostos maliciosos, iluminada pelos archotes. Torceu o rosto na mais hedionda caricatura de um sorriso que os Sete Reinos já tinham visto.
– Vossa Graça – gritou –, eu montarei o porco... mas só se o senhor montar o cão!
Joff franziu a testa, confuso.
– Eu? Eu não sou nenhum anão. Por que eu?
Meteu o pé direitinho na argola, Joff.
– Ora, é o único homem presente no salão que eu tenho a certeza de derrotar!
Não poderia dizer o que era mais agradável; o instante de silêncio chocado, o vendaval de gargalhadas que se seguiu, ou a expressão de fúria cega no rosto do sobrinho. O anão voltou ao chão com um salto, bastante satisfeito, e, quando olhou novamente, Sor Osmund e Sor Meryn estavam ajudando Joff a descer também. Quando viu que Cersei o fulminava com o olhar, Tyrion soprou-lhe um beijo.
Foi um alívio quando os músicos começaram a tocar. Os minúsculos cavaleiros levaram o cão e a porca para fora do salão, os convidados retornaram aos seus tabuleiros de bolo de carne de porco e Tyrion pediu outra taça de vinho. Mas de repente sentiu a mão de Sor Garlan em sua manga.
– Senhor, atenção – avisou o cavaleiro. – O rei.
Tyrion virou-se na cadeira. Joffrey estava quase em cima dele, rubro e cambaleante, fazendo saltar vinho sobre a borda do grande cálice nupcial dourado que carregava com ambas as mãos.
– Vossa Graça – foi tudo que teve tempo de dizer antes de o rei virar o cálice sobre a sua cabeça. O vinho caiu sobre seu rosto numa torrente vermelha. Empapou seu cabelo, fez seus olhos arderem, queimou seu ferimento, escorreu por suas bochechas e ensopou o veludo de seu gibão novo.
– O que acha disso, Duende? – escarneceu Joffrey.
Os olhos de Tyrion estavam em fogo. Esfregou várias vezes o rosto com a parte de trás da manga e, piscando, tentou devolver clareza ao mundo.
– Isso não foi correto, Vossa Graça – ouviu Sor Garlan dizer em voz baixa.
– De modo algum, Sor Garlan. – Tyrion não se atrevia a deixar que aquilo ficasse ainda mais feio do que já estava, não ali, com metade do reino como testemunha. – Não é um rei qualquer que pensaria em honrar um humilde súdito servindo-o do seu próprio cálice real. Uma pena que o vinho tenha se derramado.
– Não se derramou – disse Joffrey, dotado de demasiada deselegância para aceitar a retratação que Tyrion tinha lhe oferecido. – E também não o estava servindo.
A Rainha Margaery surgiu de repente junto do cotovelo de Joffrey.
– Meu querido rei – rogou a moça Tyrell –, venha, volte ao seu lugar, há outro cantor à espera.
– Alaric de Eysen – disse a Senhora Olenna Tyrell, apoiando-se na bengala e sem prestar mais atenção no anão encharcado de vinho do que a neta havia prestado. – Tenho tanta esperança de que ele toque “As chuvas de Castamere” para nós. Já se passou uma hora, esqueci-me da melodia.
– Além disso, Sor Addam quer fazer um brinde – disse Margaery. – Vossa Graça, por favor.
– Não tenho vinho – declarou Joffrey. – Como é que posso fazer um brinde se não tenho vinho? Tio Duende, pode me servir. Uma vez que não quer justar, será o meu copeiro.
– Será uma honra.
– Não é para ser uma honra! – gritou Joffrey. – Dobre-se e pegue o meu cálice. – Tyrion fez o que lhe foi pedido, mas ao estender a mão para a alça, Joff chutou o cálice por entre suas pernas. – Pegue-o! Será que é tão desastrado quanto feio? – teve de se enfiar debaixo da mesa para achar aquela coisa. – Ótimo, agora encha-o com vinho. – Pegou um jarro que uma criada transportava e encheu a taça até três quartos. – Não, de joelhos, anão. – Ajoelhando, Tyrion ergueu a pesada taça, perguntando a si mesmo se estaria prestes a tomar um segundo banho. Mas Joffrey pegou o cálice nupcial com uma só mão, bebeu longamente e apoiou-o na mesa. – Agora pode se levantar, tio.
Sentiu cãibras nas pernas ao tentar se erguer, e quase voltou a cair. Tyrion teve de se agarrar a uma cadeira para se firmar. Sor Garlan estendeu-lhe uma mão. Joffrey riu, e Cersei também. Depois foram outros. Não viu quem, mas ouviu-os.
– Vossa Graça – a voz de Lorde Tywin estava impecavelmente correta. – A torta está chegando. Sua espada é necessária.
– A torta? – Joffrey pegou na mão de sua rainha. – Venha, senhora, é a torta.
Os convidados ficaram em pé, gritando, aplaudindo e batendo as taças de vinho umas nas outras enquanto a grande torta avançava lentamente ao longo da extensão do salão, empurrada por meia dúzia de radiantes cozinheiros. Tinha dois metros de largura, uma crosta e um tom dourado de marrom, e ouviam-se guinchos e batidas vindos lá de dentro.
Tyrion voltou a subir na cadeira. Tudo que lhe faltava agora era que uma pomba cagasse em cima dele para que o dia ficasse completo. O vinho tinha atravessado o gibão e as roupas de baixo, e sentia a umidade contra a pele. Devia trocar de roupa, mas não era permitido a ninguém abandonar o banquete até chegar a hora de levar os noivos para a cama. Calculou que isso ainda estivesse a uns vinte ou trinta pratos de distância.
O Rei Joffrey e sua rainha dirigiram-se à torta, colocada diante do estrado. Quando Joff puxou a espada, Margaery apoiou uma mão em seu braço para detê-lo.
– A Lamento da Viúva não se destina a cortar tortas.
– É verdade. – Joffrey ergueu a voz. – Sor Ilyn, a sua espada!
Das sombras do fundo do salão surgiu Sor Ilyn Payne. O espectro no festim, pensou Tyrion enquanto observava o Magistrado do Rei avançar, descarnado e sombrio. Era novo demais para ter conhecido Sor Ilyn antes de perder a língua. Teria sido um homem diferente nesse tempo, mas agora o silêncio faz tanto parte dele como aqueles olhos vazios, aquela malha enferrujada e a espada longa que traz às costas.
Sor Ilyn fez uma reverência perante o rei e a rainha, estendeu a mão por sobre o ombro e apresentou um metro e oitenta de ornamentada prata, cintilante de runas. Ajoelhou para oferecer a enorme lâmina a Joffrey, com o cabo para a frente; pontos de fogo vermelho piscaram dos olhos de rubi no botão, um pedaço de vidro de dragão esculpido em forma de uma caveira sorridente.
Sansa agitou-se na cadeira.
– Que espada é aquela?
Os olhos de Tyrion ainda ardiam por causa do vinho. Piscou e voltou a olhar. A espada de Sor Ilyn era tão longa e larga quanto Gelo, mas era brilhante e prateada demais; o aço valiriano possuía certa escuridão, uma espécie de fumaça em sua alma. Sansa agarrou seu braço.
– O que Sor Ilyn fez com a espada de meu pai?
Eu devia ter mandado Gelo de volta a Robb Stark, pensou Tyrion. Olhou de relance para o pai, mas Lorde Tywin observava o rei.