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Mais uma escada levou-os a uma porta de carvalho reforçada com ferro.

– Seja forte agora, minha Jonquil, está quase lá. – Quando Dontos levantou a tranca e abriu a porta, Sansa sentiu uma brisa fria no rosto. Passou através de três metros e meio de muralha e então viu-se fora do castelo, no topo da falésia. Embaixo ficava o rio, em cima, o céu, e um era tão negro quanto o outro.

– Temos de descer – disse Sor Dontos. – Lá embaixo há um homem esperando para nos levar num bote até o navio.

– Eu vou cair. – Bran tinha caído, e ele adorava escalar.

– Não, não cairá. Há uma espécie de escada, uma escada secreta, entalhada na pedra. Veja, pode tateá-la, senhora. – Ajoelhou-se com ela e fez Sansa debruçar-se sobre a borda da falésia, apalpando com os dedos até encontrar o apoio de mão cortado na face do penhasco. – É quase tão bom quanto degraus de uma escada de mão.

Mesmo assim, a descida era muito longa.

– Não consigo.

– Precisa.

– Não há outro caminho?

– O caminho é este. Não será muito difícil para uma mulher jovem e forte como você. Agarre-se bem e nunca olhe para baixo, e chegará lá embaixo num instante. – Os olhos dele brilhavam. – Seu pobre Florian é gordo, velho e bêbado, eu é que devia estar assustado. Eu costumava cair do cavalo, esqueceu? Foi assim que começamos. Estava bêbado e caí do cavalo e Joffrey quis a minha cabeça boba, mas você me salvou. Você me salvou, querida.

Ele está chorando, reparou Sansa.

– E agora foi você que me salvou.

– Só se descer. Se não, matei-nos ambos.

Foi ele, pensou ela. Ele matou Joffrey. Tinha de ir, tanto por ele como por si mesma.

– Vá na frente, sor. – Se ele caísse, não o queria caindo sobre a sua cabeça e arrastando ambos falésia abaixo.

– Como quiser, senhora. – Deu-lhe um beijo úmido e passou desajeitadamente as pernas pela borda do precipício, esperneando até encontrar um apoio para os pés. – Deixe-me descer um pouco, e siga-me depois. Vai vir? Precisa jurar.

– Vou – prometeu.

Sor Dontos desapareceu. Sansa ouvia-o bufando e arquejando enquanto começava a descida. Ficou escutando o repique dos sinos, contando cada batida. Ao chegar a dez, baixou-se cautelosamente sobre a borda do penhasco, tateando com os dedos dos pés até encontrar um lugar para eles descansarem. As muralhas do castelo elevavam-se, grandes, por cima de si, e por um momento nada desejou mais do que puxar-se para cima e correr de volta para seus quentes aposentos na Fortaleza das Cozinhas. Seja brava, disse a si mesma. Seja brava, como uma senhora numa canção.

Sansa não se atreveu a olhar para baixo. Manteve os olhos postos na face da falésia, assegurando-se de cada passo antes de estender os pés para o seguinte. A pedra era áspera e fria. Às vezes sentia os dedos deslizando, e os apoios para as mãos não eram espaçados de uma forma tão regular como teria preferido. Os sinos não queriam parar de tocar. Antes de chegar na metade do caminho seus braços já estavam tremendo, e soube que ia cair. Mais um passo, disse a si mesma, mais um passo. Tinha de continuar em movimento. Se parasse, nunca mais se moveria, e a alvorada iria encontrá-la ainda agarrada à falésia, congelada de medo. Mais um passo, e mais um passo.

O chão apanhou-a de surpresa. Tropeçou e caiu, com o coração aos saltos. Quando rolou sobre as costas e fitou o local de onde tinha vindo, sentiu a cabeça a nadar, entontecida, e os dedos agarraram-se à terra. Consegui. Consegui. Não caí, consegui descer e agora vou para casa.

Sor Dontos ajudou-a a ficar em pé.

– Por aqui. Agora silêncio, silêncio, silêncio. – Permaneceu perto das sombras que se estendiam, negras e espessas, sob os penhascos. Felizmente não tiveram de ir longe. Cinquenta metros a jusante, um homem estava sentado num pequeno esquife, meio escondido pelos restos de uma grande galé que tinha dado à costa ali e queimado. Dontos manqueou até ele, bufando. – Oswell?

– Nada de nomes – disse o homem. – Para o barco. – Estava sentado, curvado sobre os remos, um homem velho, alto e de membros esguios, com longos cabelos brancos, um grande nariz adunco e os olhos escondidos por um capuz. – Entrem, e depressa – resmungou. – Temos de nos pôr a caminho.

Depois de ambos estarem a salvo a bordo, o encapuzado deslizou as pás para dentro de água e entregou as costas aos remos, fazendo o barco avançar para o canal. Por trás deles, os sinos continuavam a repicar a morte do rei rapaz. Tinham o rio escuro todo para si.

Com remadas lentas, constantes e ritmadas, abriram caminho para jusante, deslizando por cima das galés afundadas, passando por mastros partidos, cascos queimados e velas rasgadas. Os toletes tinham sido revestidos, de modo que o barco se movia quase sem um som. Uma névoa pairava sobre a água. Sansa viu o baluarte com ameias de uma das torres do guincho do Duende erguendo-se na margem, mas a grande corrente tinha sido descida e passaram sem impedimentos pelo local onde mil homens tinham ardido. A costa afastou-se, o nevoeiro tornou-se mais denso, o som dos sinos começou a se atenuar. Por fim, mesmo as luzes desapareceram, perdidas em algum lugar atrás deles. Estavam na Baía da Água Negra, e o mundo reduziu-se a água escura, névoa soprada pelo vento e o companheiro silencioso encurvado sobre os remos.

– Temos de ir até muito longe? – ela perguntou.

– Nada de falar. – O remador era velho, mas mais forte do que parecia, e sua voz era feroz. Havia algo estranhamente familiar no rosto dele, embora Sansa não conseguisse identificar o que seria.

– Não é longe. – Sor Dontos tomou sua mão na dele e esfregou-a com gentileza. – Seu amigo está perto, à sua espera.

Nada de falar! – rosnou de novo o remador. – O som chega longe sobre a água, Sor Bobo.

Desconcertada, Sansa mordeu o lábio e encolheu-se em silêncio. O resto foi remar, remar, remar.

O céu do oriente já mostrava o primeiro vago indício da alvorada quando Sansa viu por fim uma silhueta fantasmagórica na escuridão que se estendia adiante; uma galé mercante, com as velas enroladas, deslocando-se lentamente, movida por uma única fileira de remos. Quando se aproximaram, viu a figura de proa do navio, um tritão com uma coroa dourada soprando um grande búzio. Ouviu uma voz gritar, e a galé deu a volta lentamente.

Quando se posicionaram ao lado da galé, uma escada de corda foi atirada por sobre a amurada. O remador puxou os remos para o barco e ajudou Sansa a ficar em pé.

– Agora para cima. Vá lá, menina, eu seguro você. – Sansa agradeceu-lhe pela gentileza, mas só recebeu um grunhido em resposta.

Foi muito mais fácil subir a escada de corda do que tinha sido descer a falésia. O remador Oswell seguiu logo atrás dela, ao passo que Sor Dontos permaneceu no barco.

Dois marinheiros esperavam junto à amurada, para ajudá-la a subir até o convés. Sansa tremia.

– Ela está com frio – ouviu alguém dizer. O homem tirou o manto e aconchegou-o em volta de seus ombros. – Pronto, está melhor, senhora? Descanse, o pior já passou.

Conhecia a voz. Mas ele está no Vale, pensou. Sor Lothor Brune estava ao lado dele, com um archote.

– Lorde Petyr – chamou Dontos do barco. – Tenho de remar de volta, antes que pensem em procurar por mim.

Petyr Baelish pôs uma mão na amurada.

– Mas primeiro vai querer o pagamento. Dez mil dragões, não é?

– Dez mil. – Dontos esfregou a boca com as costas da mão. – Conforme prometeu, senhor.

– Sor Lothor, a recompensa.

Lothor Brune baixou o archote. Três homens aproximaram-se da amurada, ergueram bestas, e dispararam. Um dardo atingiu Dontos no peito quando ele olhou para cima, penetrando através da coroa esquerda de seu sobretudo. Os outros rasgaram a garganta e a barriga. Aconteceu tão depressa que nem Dontos nem Sansa tiveram tempo de gritar. Quando terminou, Lothor Brune atirou o archote para cima do cadáver. O pequeno barco ardia violentamente enquanto a galé se afastava.