Após todas as outras, Margaery trouxe-a junto de uma mulher encarquilhada, de cabelos brancos, que mais parecia uma boneca, sentada à cabeceira da mesa.
– Tenho a honra de lhe apresentar a minha avó, a Senhora Olenna, viúva do falecido Luthor Tyrell, Senhor de Jardim de Cima, cuja memória é um conforto para todos nós.
A idosa cheirava a água de rosas. Oh, ela é uma coisinha minúscula. Nada havia na mulher que fosse minimamente espinhoso.
– Beije-me, filha – disse a Senhora Olenna, puxando o pulso de Sansa com uma mão suave e manchada. – É tanta gentileza sua vir jantar comigo e com meu tolo bando de galinhas.
Obedientemente, Sansa beijou a velha no rosto.
– A gentileza foi sua, por me convidar, senhora.
– Conheci seu avô, Lorde Rickard, embora mal.
– Ele morreu antes de eu nascer.
– Sei disso, filha. Dizem que seu avô Tully também está morrendo. Lorde Hoster, certamente lhe disseram, não? Um velho, embora não tão velho como eu. Seja como for, no fim a noite cai para todos nós, e cedo demais para alguns. Deve saber disso melhor do que a maioria das pessoas, pobre criança. Teve a sua cota de luto, eu sei. Lamentamos as suas perdas.
Sansa olhou de relance para Margaery.
– Entristeceu-me saber da morte de Lorde Renly, Vossa Graça. Ele era muito galante.
– É bondade sua dizer isso – respondeu Margaery.
A avó bufou.
– Galante, sim, e encantador, e muito limpo. Sabia como se vestir, sabia como sorrir e sabia como tomar banho, e, não se sabe bem como, arranjou a ideia de que isso o tornava apto a ser rei. Os Baratheon sempre tiveram ideias estranhas, certamente. Vem do sangue Targaryen, creio eu. – Fungou. – Um dia tentaram me casar com um Targaryen, mas rapidamente dei um basta nisso.
– Renly era bravo e gentil, avó – disse Margaery. – O pai também gostava dele, assim como Loras.
– Loras é jovem – disse com vivacidade a Senhora Olenna – e muito bom em derrubar homens dos cavalos com um pau. Isso não faz dele sensato. Quanto ao seu pai, gostaria de ter nascido camponesa com uma grande colher de pau, porque talvez tivesse sido capaz de enfiar na marra algum juízo naquela cabeça gorda.
– Mãe – repreendeu a Senhora Alerie.
– Chiu, Alerie, não fale comigo nesse tom. E não me chame de mãe. Se tivesse dado você à luz, certamente me lembraria. Só podem me culpar por seu marido, o lorde idiota de Jardim de Cima.
– Avó – disse Margaery –, tome tento nas palavras, senão o que Sansa pensará de nós?
– Pode pensar que possuímos alguma inteligência. Uma de nós, pelo menos. – A mulher idosa virou-se para Sansa. – É traição, eu os preveni, Robert tem dois filhos e Renly, um irmão mais velho, como seria possível que ele tivesse alguma pretensão àquela feia cadeira de ferro? Vá lá, diz o meu filho, não quer que a sua querida seja rainha? Vocês, os Stark, um dia foram reis, os Arryn e os Lannister também, e até os Baratheon, pela linha feminina, mas os Tyrell não passavam de intendentes até chegar Aegon, o Dragão, e cozinhar o rei legítimo da Campina no Campo de Fogo. A bem da verdade, até nossa pretensão a Jardim de Cima é um pouco malandra, como aqueles terríveis Florent andam sempre choramingando. “O que importa”, você pode perguntar, e certamente não importa, exceto para idiotas como o meu filho. A ideia de um dia ver o neto com a bunda no Trono de Ferro faz Mace inchar como... como é que se chama? Margaery, você que é esperta, seja boazinha e diga à sua avó meio pateta o nome daquele peixe esquisito das Ilhas do Verão que, quando é tocado, incha como um balão até ficar dez vezes maior.
– Ele é chamado de peixe-balão, avó.
– Claro que sim. O povo das Ilhas do Verão não tem imaginação nenhuma. O meu filho devia adotar o peixe-balão como símbolo, para falar a verdade. Podia pôr uma coroa nele, como os Baratheon fazem com o veado, isso talvez o deixasse feliz. Devíamos ter permanecido bem longe de toda esta sangrenta babaquice, a meu ver, mas depois de ordenhar a vaca não há como enfiar o leite de volta nas tetas. Depois de o Lorde Peixe-Balão colocar aquela coroa na cabeça de Renly, enfiamo-nos na lama até os joelhos, portanto aqui estamos para levar as coisas até o fim. E o que você diz sobre isso, Sansa?
A boca de Sansa abriu e fechou. Também se sentia como um peixe-balão.
– Os Tyrell conseguem traçar a sua genealogia até Garth da Mão Verde – foi o melhor que conseguiu arranjar assim de repente.
A Rainha dos Espinhos fungou e disse:
– Assim como os Florent, os Rowan, os Oakheart e metade das outras casas nobres do sul. Garth gostava de plantar a sua semente em terreno fértil, segundo dizem. Não me surpreenderia que não fosse só a mão que ele tinha verde.
– Sansa – interrompeu a Senhora Alerie –, deve estar com muita fome. Vamos comer um pouco de javali e alguns bolos de limão?
– Bolos de limão são os meus preferidos – admitiu Sansa.
– Foi o que nos disseram – declarou a Senhora Olenna, que claramente não tinha qualquer intenção de ser silenciada. – Aquela criatura chamada Varys pareceu pensar que devíamos nos sentir gratas por essa informação. Nunca entendi lá muito bem qual é o objetivo de um eunuco, a bem da verdade. Parece-me que são só homens com as partes úteis cortadas. Alerie, mande que nos sirvam a comida, ou pretende me matar de fome? Venha cá, Sansa, sente aqui ao meu lado, sou muito menos chata do que essas outras. Espero que goste de bobos.
Sansa alisou a saia e sentou-se.
– Penso que… bobos, senhora? Fala de… do tipo que se veste de quadriculado?
– Nesse caso são penas. De que achava que eu falava? Do meu filho? Ou destas adoráveis senhoras? Não, não fique vermelha, com esses cabelos, você fica parecendo uma romã. Todos os homens são bobos, na verdade, mas aqueles que se vestem de quadriculado são mais divertidos do que os que usam coroa. Margaery, filha, mande chamar o Abetouro, vamos ver se ele consegue fazer a Senhora Sansa sorrir. O resto de vocês sentem-se, terei de lhes dizer tudo o que for para fazer? Sansa deve pensar que a minha neta é servida por um rebanho de ovelhas.
O Abetouro chegou antes da comida, vestido com um traje de bobo de penas verdes e amarelas, com um barrete pendente. Um homem imensamente gordo e redondo, do tamanho de três Rapazes-Lua, entrou rebolando no salão, saltou para cima da mesa e depositou um gigantesco ovo bem na frente de Sansa.
– Quebre-o, senhora – ordenou. Quando ela o fez, uma dúzia de pintinhos amarelos fugiram e desataram a correr em todas as direções. – Apanhem-nos! – exclamou o Abetouro. A pequena Senhora Bulwer capturou um e entregou a ele, de modo que o homem o enfiou em sua enorme boca elástica, e pareceu engoli-lo inteiro. Quando arrotou, minúsculas penas amarelas voaram por seu nariz. A Senhora Bulwer desatou a chorar, aflita, mas suas lágrimas transformaram-se num súbito guincho de deleite quando o pintinho saiu, contorcendo-se, da manga de seu vestido e correu pelo seu braço abaixo.
Quando os criados trouxeram um caldo de alho-poró e cogumelos, o Abetouro começou a fazer malabarismos e a Senhora Olenna inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos na mesa.