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– Que fedor horrível é esse? – protestou o nortenho.

A morte, pensou Jaime, mas disse:

– Fumaça, suor e merda. Porto Real, em suma. Se tiver um bom nariz, poderá também cheirar a traição. Nunca tinha cheirado uma cidade?

– Cheirei Porto Branco. Nunca fedeu assim.

– Porto Branco está para Porto Real como o meu irmão Tyrion está para Sor Gregor Clegane.

Nage subiu uma pequena colina à frente deles, com a bandeira de paz de sete pontas erguendo-se e virando ao vento, e a estrela polida de sete pontas cintilando brilhante no topo do mastro. Veria Cersei em breve, e também Tyrion, e o pai. Meu irmão poderia realmente ter matado o rapaz? Jaime achava difícil acreditar naquilo.

Sentia-se curiosamente calmo. Sabia que esperava-se que os homens enlouquecessem de desgosto quando os filhos morriam. Esperava-se que arrancassem os cabelos, que amaldiçoassem os deuses e jurassem rubra vingança. Então por que será que sentia tão pouco? O rapaz viveu e morreu acreditando que Robert Baratheon era o pai dele.

Jaime vira-o nascer, isso era certo, embora mais por Cersei do que pela criança. Mas nunca o pegara no colo.

– O que iriam achar? – avisou-o a irmã quando as mulheres finalmente os deixaram. – Já é suficientemente ruim que Joff se pareça com você sem que fique babando por cima dele. – Jaime cedeu quase sem luta. O rapaz fora uma coisinha cor-de-rosa e estridente que exigia demasiado do tempo de Cersei, do amor de Cersei e dos seios de Cersei. Que Robert ficasse com ele.

E agora está morto. Imaginou Joff jazendo imóvel e frio, com um rosto negro de veneno, e continuou a não sentir nada. Talvez fosse o monstro que o acusavam de ser. Se o Pai no Céu descesse para lhe oferecer de volta o filho ou a mão, Jaime sabia qual das coisas escolheria. Afinal, tinha um segundo filho, e sêmen bastante para muitos mais. Se Cersei quiser outro filho, eu dou... e dessa vez vou pegá-lo no colo, e que os Outros carreguem quem não gostar. Robert apodrecia em sua sepultura, e Jaime estava farto de mentiras.

Virou-se abruptamente e galopou para trás, ao encontro de Brienne. Só os deuses sabem por que me incomodo. Ela é a criatura menos sociável que tive o infortúnio de conhecer. A garota seguia bem atrás e cerca de um metro desviada para o lado, como que para proclamar que não fazia parte do grupo. Ao longo do caminho tinham encontrado roupas de homem para ela; uma túnica aqui, uma capa ali, um par de calções e um manto com capuz, até uma velha placa de peito de ferro. Parecia mais confortável vestida de homem, mas nada nunca faria com que parecesse bonita. Nem feliz. Uma vez fora de Harrenhal, sua habitual teimosia casmurra rapidamente voltou a se instalar.

– Quero minhas armas e armadura de volta – tinha insistido.

– Oh, com certeza, que a tenhamos de novo coberta de aço – respondeu Jaime. – Especialmente um elmo. Ficaremos todos mais felizes se mantiver a boca fechada e a viseira abaixada.

Pelo menos isso Brienne podia fazer, mas seus silêncios carrancudos depressa começaram a desgastar tanto o bom humor dele como as constantes tentativas de Qyburn para ser agradável. Nunca pensei que daria por mim com saudades da companhia de Cleos Frey, que os deuses me ajudem. Começava a desejar tê-la deixado para o urso.

– Porto Real – anunciou Jaime quando a encontrou. – Nossa viagem terminou, senhora. Cumpriu o seu voto e entregou-me em Porto Real. Inteiro, exceto por uns dedos e uma mão.

Os olhos de Brienne mostraram-se indiferentes.

– Isso foi apenas metade de meu voto. Disse à Senhora Catelyn que lhe levaria de volta as filhas. Ou Sansa, pelo menos. E agora...

Ela nunca conheceu Robb Stark, e no entanto o pesar que sente por ele é mais profundo do que o meu por Joff. Ou talvez fosse pela Senhora Catelyn que fazia luto. Essa notícia chegara até eles em Bosque Malhado, pela boca de um cavaleiro corado que mais parecia uma barrica chamado Sor Bertram Beesbury, cujas armas eram três colmeias em fundo listrado de negro e amarelo. Uma companhia de homens de Lorde Piper tinha passado por Bosque Malhado no dia anterior, disse-lhes Beesbury, correndo para Porto Real sob a sua bandeira de paz.

– Com o Jovem Lobo morto, Piper não viu objetivo em continuar a lutar. Seu filho é cativo nas Gêmeas. – Brienne tinha escancarado a boca como uma vaca prestes a engasgar com o bolo de grama, e assim coube a Jaime extrair a história do Casamento Vermelho.

– Todos os grandes senhores têm vassalos insubmissos que invejam sua posição – disse-lhe depois. – Meu pai tinha os Reyne e os Tarbeck, os Tyrell têm os Florent, Hoster Tully tinha Walder Frey. Só a força mantém homens assim em seus lugares. No momento em que sentem cheiro de fraqueza... durante a Idade dos Heróis, os Bolton costumavam esfolar os Stark e usar suas peles como mantos. – Ela tinha feito uma expressão tão infeliz que Jaime quase deu por si desejando confortá-la.

Desde esse dia Brienne agia como alguém que estivesse meio morto. Nem chamá-la de “garota” conseguia provocar uma resposta. A força dela desapareceu. A mulher fizera cair um rochedo sobre Robin Ryger, batalhara contra um urso com uma espada de torneio, arrancara a orelha de Vargo Hoat com uma dentada e lutara com Jaime até a exaustão... mas agora encontrava-se quebrada, acabada.

– Falarei com o meu pai para devolvê-la a Tarth, se isso lhe agradar – disse-lhe. – Ou, se preferir ficar, talvez possa arranjar alguma posição para você na corte.

– Como senhora acompanhante da rainha? – disse ela sem interesse.

Jaime recordou o aspecto dela naquele vestido de cetim cor-de-rosa e tentou não imaginar o que a irmã poderia dizer de uma tal acompanhante.

– Talvez um posto na Patrulha da Cidade...

– Não servirei com perjuros e assassinos.

Então por que quis prender uma espada na cintura?, podia ter dito, mas reprimiu as palavras.

– Como queira, Brienne. – Com uma só mão, deu meia-volta com o cavalo e deixou-a para trás.

O Portão dos Deuses estava aberto quando lá chegaram, mas havia duas dúzias de carros alinhados ao longo da beira da estrada, carregados com tonéis de sidra, barris de maçã, fardos de feno e algumas das maiores abóboras que Jaime já tinha visto. Quase todas as carroças tinham seus próprios guardas; homens de armas ostentando os símbolos de fidalgos menores, mercenários vestidos de cota de malha e couro fervido, às vezes apenas um filho de agricultor de cara rosada, agarrado a uma lança de fabricação caseira com a ponta endurecida pelo fogo. Jaime sorriu a todos eles enquanto passavam a trote. Ao portão, os homens de manto dourado recebiam moedas de cada um dos condutores antes de mandarem as carroças avançar.

– O que é isto? – quis saber Pernas-de-Aço.

– Eles têm de pagar pelo direito de vender dentro da cidade. Por ordem da Mão do Rei e do mestre da moeda.

Jaime olhou para a longa fila de carroças, carros de mão e cavalos carregados.

– E mesmo assim fazem fila para pagar?

– Dá para fazer um bom dinheiro aqui, agora que a luta terminou – disse-lhes alegremente o moleiro da carroça mais próxima. – São os Lannister que dominam a cidade agora, o velho Lorde Tywin do Rochedo. Dizem que ele caga prata.

– Ouro – corrigiu secamente Jaime. – E Mindinho cunha a coisa a partir de capim-dourado, garanto.

– Agora o mestre da moeda é o Duende – disse o capitão do portão. – Ou era, até o prenderem por assassinar o rei. – O homem examinou os nortenhos com suspeita. – Quem são vocês?

– Homens de Lorde Bolton, para falar com a Mão do Rei.

O capitão olhou de relance Nage com a sua bandeira de paz.

– Vêm dobrar o joelho, quer dizer. Não são os primeiros. Subam diretamente ao castelo e tratem de não causar confusão. – Mandou-os passar com um gesto e voltou a se virar para as carroças.