– Jaime – disse Lorde Tywin, como se tivessem se visto no café da manhã. – Lorde Bolton levou-me a esperá-lo mais cedo. Achava que estaria aqui a tempo do casamento.
– Fui atrasado. – Jaime fechou suavemente a porta. – Minha irmã superou-se, segundo ouvi dizer. Setenta e sete pratos e um regicídio, nunca houve um casamento assim. Há quanto tempo sabe que estou livre?
– O eunuco disse-me alguns dias depois de sua fuga. Mandei homens para as terras fluviais à sua procura. Gregor Clegane, Samwell Spicer, os irmãos Plumm. Varys também divulgou a informação, mas em segredo. Concordamos que quanto menos pessoas soubessem que estava livre, menos o perseguiriam.
– Varys mencionou isto? – aproximou-se do fogo, para permitir que o pai visse.
Lorde Tywin saltou da cadeira, silvando entre dentes.
– Quem fez isso? Se a Senhora Catelyn pensa...
– A Senhora Catelyn encostou uma espada na minha garganta e obrigou-me a jurar que lhe devolveria as filhas. Isto foi obra de seu bode. Vargo Hoat, o Senhor de Harrenhal!
Lorde Tywin afastou o olhar, repugnado.
– Não é mais. Sor Gregor capturou o castelo. Os mercenários abandonaram seu antigo capitão quase até o último homem, e parte do antigo pessoal da Senhora Whent abriu uma porta falsa. Clegane foi encontrar Hoat sentado, sozinho, no Salão das Cem Lareiras, meio louco de dor e febre devido a um ferimento que gangrenou. A orelha, dizem.
Jaime teve de rir. Que maravilha! A orelha! Mal podia esperar para contar a Brienne, se bem que a garota não veria na coisa metade da piada que ele via.
– Já está morto?
– Em breve. Cortaram-lhe as mãos e os pés, mas Clegane parece se divertir com o modo como o qohorik se baba.
O sorriso de Jaime coalhou.
– E os seus Bravos Companheiros?
– Os poucos que ficaram em Harrenhal estão mortos. Os outros espalharam-se. Vão se dirigir para os portos, aposto, ou tentar se perder nas florestas. – Os olhos voltaram a se dirigir ao coto de Jaime, e sua boca retesou-se de fúria. – Cortaremos a cabeça deles. De todos. Consegue usar uma espada com a mão esquerda?
Mal consigo me vestir de manhã. Jaime ergueu a mão em questão para que o pai a inspecionasse.
– Quatro dedos, um polegar, muito parecida com a outra. Por que não haveria de trabalhar tão bem?
– Ótimo. – O pai sentou-se. – Isso é ótimo. Tenho um presente para você. Pelo seu retorno. Depois de Varys me dizer...
– A menos que seja uma nova mão, que espere. – Jaime ocupou a cadeira à frente do pai. – Como foi que Joffrey morreu?
– Veneno. A ideia era que parecesse que ele tinha sufocado com um bocado de comida, mas eu mandei abrir a garganta dele e os meistres não encontraram qualquer obstrução.
– Cersei diz que foi Tyrion quem o matou.
– Seu irmão serviu ao rei o vinho envenenado, com mil pessoas olhando.
– Isso foi bastante idiota da parte dele.
– Prendi o escudeiro de Tyrion. As aias da esposa também. Veremos se têm alguma coisa a nos dizer. Os homens de manto dourado de Sor Addam andam à procura da garota Stark, e Varys ofereceu uma recompensa. A justiça do rei será feita.
A justiça do rei.
– Executaria seu próprio filho?
– Ele está sendo acusado de regicídio e assassinato de um familiar. Se for inocente, nada tem a temer. Primeiro temos de analisar as provas a favor e contra ele.
Provas. Naquela cidade de mentirosos, Jaime sabia que tipo de provas seriam encontradas.
– Renly também morreu de forma estranha, quando Stannis precisou que morresse.
– Lorde Renly foi assassinado por um de seus próprios guardas, uma mulher qualquer de Tarth.
– Essa mulher de Tarth é o motivo por que estou aqui. Atirei-a numa cela para apaziguar Sor Loras, mas antes acreditaria no fantasma de Renly do que ela lhe ter feito algum mal. Stannis, porém...
– Aquilo que matou Joffrey foi veneno, não feitiçaria. – Lorde Tywin voltou a relancear o coto de Jaime. – Não pode servir na Guarda Real sem uma mão da espada...
– Posso – interrompeu. – E é o que farei. Há precedente. Vou procurar no Livro Branco e encontrá-lo, se quiser. Mutilado ou inteiro, um cavaleiro da Guarda Real serve a vida toda.
– Cersei acabou com isso quando substituiu Sor Barristan devido à idade. Um presente adequado à Fé persuadirá o Alto Septão a libertá-lo de seus votos. Sua irmã foi tola em destituir Selmy, admito, mas agora que abriu os portões...
– ... alguém tem de fechá-los novamente. – Jaime levantou-se. – Estou farto de ter mulheres de nascimento elevado chutando baldes de merda na minha direção, pai. Nunca ninguém me perguntou se queria ser Senhor Comandante da Guarda Real, mas parece que sou. Tenho um dever...
– Tem. – Lorde Tywin também se levantou. – Um dever para com a Casa Lannister. É o herdeiro de Rochedo Casterly. É lá que devia estar. Tommen devia acompanhá-lo, como seu protegido e escudeiro. Será no Rochedo que ele aprenderá a ser um Lannister, e quero-o longe da mãe. Pretendo encontrar um novo marido para Cersei. Oberyn Martell, talvez, depois de convencer Lorde Tyrell de que a união não ameaça Jardim de Cima. E já é mais que hora de você se casar. Os Tyrell andam agora insistindo que Margaery se case com Tommen, mas se oferecer você em vez dele...
– NÃO! – Jaime ouvira tudo que conseguia aguentar. Não, mais do que conseguia aguentar. Estava farto daquilo, farto de lordes e mentiras, farto do pai, da irmã, farto de toda aquela maldita situação. – Não. Não. Não. Não. Não. Quantas vezes tenho de dizer não antes que me ouça? Oberyn Martell? O homem é infame, e não só por envenenar a espada. Tem mais bastardos do que Robert, e deita-se também com homens. E se acha por um disparatado momento que vou me casar com a viúva de Joffrey...
– Lorde Tyrell jura que a garota ainda é donzela.
– E por mim pode morrer donzela. Não a quero e não quero o seu Rochedo!
– É meu filho...
– Sou um cavaleiro da Guarda Real. O Senhor Comandante da Guarda Real! E isso é tudo o que pretendo ser!
A luz do fogo cintilava, dourada, nos pelos hirtos que enquadravam o rosto de Lorde Tywin. Uma veia latejava em seu pescoço, mas ele não falou. E não falou. E não falou.
O tenso silêncio prolongou-se até ser mais do que Jaime podia aguentar.
– Pai... – começou.
– Você não é meu filho. – Lorde Tywin afastou o olhar. – Diz que é o Senhor Comandante da Guarda Real, e apenas isso. Muito bem, sor. Vá cumprir o seu dever.
Davos
As vozes deles subiam como fagulhas, rodopiando na direção do céu púrpura do princípio da noite.
– Leve-nos para longe das trevas, oh senhor. Encha-nos de fogo o coração, para que possamos percorrer o seu caminho brilhante.
A fogueira noturna ardia contra a escuridão que se aprofundava, um grande animal brilhante cuja oscilante luz laranja atirava sombras com seis metros de altura pátio afora. Ao longo das muralhas de Pedra do Dragão, o exército de gárgulas e grotescos parecia se agitar e mudar de posição.
Davos olhava de uma janela arqueada na galeria, acima. Observou Melisandre erguer os braços, como que para abraçar as chamas tremulantes.
– R’hllor – entoou numa voz sonora e clara –, é a luz nos nossos olhos, o fogo nos nossos corações, o calor nos nossos quadris. É seu o sol que aquece os nossos dias, suas são as estrelas que nos protegem na escuridão da noite.
– Senhor da Luz, proteja-nos. A noite é escura e cheia de terrores.
A Rainha Selyse liderava as respostas, com o rosto atormentado e cheio de fervor. O Rei Stannis estava ao seu lado, com o maxilar bem cerrado e as pontas de sua coroa de ouro vermelho cintilando sempre que movia a cabeça. Ele está com eles, mas não é um deles, pensou Davos. A Princesa Shireen encontrava-se entre os pais, com as manchas cinzentas mosqueadas no rosto e no pescoço quase negras à luz da fogueira.