– Senhor da Luz, proteja-nos – cantou a rainha. O rei não respondeu com os outros. Estava fitando as chamas. Davos perguntou a si mesmo o que ele estaria vendo ali. Outra visão da guerra que aí vem? Ou algo mais perto de casa?
– R’hllor, que nos deu o sopro, agradecemos ao senhor – cantou Melisandre. – R’hllor, que nos deu o dia, agradecemos ao senhor.
– Agradecemos ao senhor pelo sol que nos aquece – respondeu a Rainha Selyse e os outros adoradores. – Agradecemos ao senhor pelas estrelas que nos vigiam. Agradecemos ao senhor pelas lareiras e archotes que mantêm a escuridão selvagem a distância. – Parecia a Davos que as respostas eram proferidas por menos vozes do que na noite anterior; menos rostos pintados de cor de laranja em volta da fogueira. Mas haveria ainda menos no dia seguinte... ou mais?
A voz de Sor Axell Florent ressoava, sonora como uma trombeta. Estava em pé, de peito estufado e pernas arqueadas, com a luz do fogo lambendo seu rosto como uma monstruosa língua laranja. Davos perguntou a si mesmo se Sor Axell lhe agradeceria depois. A obra que tinham realizado naquela noite poderia bem fazer do homem Mão do Rei, tal como sonhava.
Melisandre gritou:
– Agradecemos ao senhor por Stannis, por sua graça nosso rei. Agradecemos ao senhor pelo fogo de um branco puro de sua bondade, pela espada vermelha da justiça que empunha, pelo amor que sente por seu leal povo. Guie-o e proteja-o, R’hllor, e dê-lhe força para derrotar os inimigos.
– Dê-lhe força – responderam a Rainha Selyse, Sor Axell, Devan e os outros. – Dê-lhe coragem. Dê-lhe sabedoria.
Quando era garoto, os septões tinham ensinado Davos a rezar à Velha por sabedoria, ao Guerreiro por coragem, ao Ferreiro por força. Mas era à Mãe que rezava agora, para que mantivesse seu querido filho Devan a salvo do deus demoníaco da mulher vermelha.
– Lorde Davos? É melhor irmos. – Sor Andrew tocou suavemente em seu cotovelo. – Senhor?
O título ainda lhe soava estranho aos ouvidos, mas Davos afastou-se da janela.
– Sim. É hora.
Stannis, Melisandre e os homens da rainha permaneceriam nas suas preces durante uma hora ou mais. Os sacerdotes vermelhos acendiam as fogueiras todos os dias ao pôr do sol, para agradecer a R’hllor pelo dia que terminava e suplicar-lhe que voltasse a enviar o seu sol de manhã, para banir a escuridão. Um contrabandista deve conhecer as marés e a altura de apanhá-las. No fim das contas, não passava disso; Davos, o contrabandista. A mão mutilada subiu à garganta em busca de sua sorte, e nada encontrou. Baixou-a bruscamente e apressou-se um pouco mais.
Os companheiros apressaram-se com ele, ajustando os passos aos seus. O Bastardo de Nocticantiga tinha um rosto devastado pela varíola e um ar de cavalaria esfarrapada; Sor Gerald Gower era largo, brusco e louro; Sor Andrew Estermont era uma cabeça mais alto, com uma barba pontuda e hirsutas sobrancelhas castanhas. Davos os considerava todos bons homens, cada um à sua maneira. E todos serão homens mortos em breve, se a obra desta noite correr mal.
– O fogo é uma coisa viva – a mulher vermelha tinha dito, quando lhe pediu que o ensinasse a ver o futuro nas chamas. – Está sempre em movimento, sempre em mudança... como um livro cujas letras dançam e se movimentam mesmo enquanto se está tentando lê-las. São precisos anos de treino para ver as silhuetas por trás das chamas, e mais anos ainda para aprender a distinguir as silhuetas daquilo que irá acontecer das que mostram o que poderá acontecer ou o que já aconteceu. Mesmo então, é difícil, difícil. Vocês, os homens das terras do poente, não compreendem. – Davos perguntou-lhe então como Sor Axell tinha aprendido tão depressa o truque, mas ao ouvir isso ela limitou-se a dar um sorriso enigmático e dizer: – Qualquer gato pode fitar uma fogueira e ver ratos vermelhos brincando.
Não tinha mentido a respeito de nada daquilo aos seus homens do rei.
– Pode ser que a mulher vermelha veja o que pretendemos fazer – avisou-os.
– Então devíamos começar por matá-la – sugeriu Lewys Peixeira. – Conheço um lugar onde poderíamos preparar uma cilada, quatro de nós com espadas afiadas...
– Condenaria a todos nós – disse Davos. – Meistre Cressen tentou matá-la, e ela soube de imediato. Pelas chamas, suponho. Parece-me que é muito rápida em sentir qualquer ameaça à sua pessoa, mas certamente não pode saber tudo. Se a ignorarmos, talvez possamos escapar à sua detecção.
– Não há honra em nos escondermos e andarmos pela calada – objetou Sor Triston do Monte da Talha, que tinha sido um homem dos Sunglass antes de Lorde Guncer ser entregue às fogueiras de Melisandre.
– É assim tão honroso arder? – perguntara-lhe Davos. – Viu Lorde Sunglass morrer. É isso que deseja? Agora não preciso de homens de honra. Preciso de contrabandistas. Estão comigo ou não?
Estavam. Pela bondade dos deuses, estavam.
Meistre Pylos conduzia Edric Storm por suas somas quando Davos abriu a porta. Sor Andrew vinha logo atrás dele; os outros tinham sido deixados guardando as escadas e a porta do porão. O meistre interrompeu-se.
– Por enquanto é isso, Edric.
O garoto ficou confuso pela intrusão.
– Lorde Davos, Sor Andrew. Estávamos fazendo somas.
Sor Andrew sorriu.
– Eu detestava somas quando tinha sua idade, primo.
– Não me aborrecem muito. Mas gosto mais de história. Está cheia de histórias.
– Edric – disse Meistre Pylos –, agora vá correndo buscar o seu manto. Depois vai com o Lorde Davos.
– Vou? – Edric pôs-se em pé. – Aonde vamos? – Sua boca fez uma expressão teimosa. – Não irei rezar ao Senhor da Luz. Sou um homem do Guerreiro, como o meu pai.
– Nós sabemos – disse Davos. – Venha, rapaz, não podemos perder tempo.
Edric vestiu um espesso manto com capuz de lã crua. Meistre Pylos ajudou a prendê-lo, e puxou o capuz para lhe esconder o rosto.
– Você vem conosco, meistre? – perguntou o garoto.
– Não. – Pylos tocou a corrente de muitos metais que usava em volta do pescoço. – Meu lugar é aqui em Pedra do Dragão. Agora vá com Lorde Davos e faça o que ele disser. Lembre-se de que ele é a Mão do Rei. O que foi que eu lhe disse a respeito da Mão do Rei?
– A Mão fala com a voz do rei.
O jovem meistre sorriu.
– É isso mesmo. Agora vá.
Davos sentira-se incerto sobre Pylos. Talvez nutrisse ressentimento por ele ter ocupado o lugar do velho Cressen. Mas agora só podia admirar a coragem do homem. Isso também pode custar a vida dele.
Fora dos aposentos do meistre, Sor Gerald Gower esperava junto à escada. Edric Storm olhou-o com curiosidade. Enquanto desciam, perguntou.
– Aonde vamos, Lorde Davos?
– Para a água. Há um navio à sua espera.
O garoto parou subitamente.
– Um navio?
– Um dos de Salladhor Saan. Salla é um bom amigo meu.
– Eu irei com você, primo – garantiu-lhe Sor Andrew. – Não há nada de que ter medo.
– Eu não tenho medo – disse Edric, indignado. – É só... a Shireen também vem?
– Não – disse Davos. – A princesa tem de ficar aqui com o pai e a mãe.
– Então preciso vê-la – explicou Edric. – Para me despedir. Senão ela vai ficar triste.
Não tão triste do que ficaria se o visse ardendo.
– Não há tempo – disse Davos. – Eu digo à princesa que estava pensando nela. E você pode escrever para ela, quando chegar ao lugar para onde vai.
O garoto franziu a testa.
– Tem certeza de que preciso ir? Por que é que o meu tio me enviaria para fora de Pedra do Dragão? Desagradei-lhe? Não quis lhe desagradar. – Adotou de novo aquela expressão teimosa. – Quero falar com o meu tio. Quero falar com o Rei Stannis.