– Suponho que não. – O rei percorreu a mesa com os dedos. – Joffrey... lembro-me de uma vez, uma gata de cozinha... os cozinheiros gostavam de lhe dar restos e cabeças de peixe. Um deles disse ao rapaz que ela tinha gatinhos na barriga, achando que ele poderia querer um. Joffrey abriu o pobre bicho com um punhal para ver se era verdade. Quando encontrou as crias, levou-as para mostrar ao pai. Robert bateu no garoto com tanta força que julguei que o tinha matado. – O rei tirou a coroa e pousou-a na mesa. – Anão ou sanguessuga, esse assassino prestou um serviço ao reino. Agora têm de mandar me buscar.
– Não o farão – disse Melisandre. – Joffrey tem um irmão.
– Tommen. – O rei proferiu o nome de má vontade.
– Coroarão Tommen e governarão em seu nome.
Stannis cerrou o punho.
– Tommen é mais gentil do que Joffrey, mas nasceu do mesmo incesto. Outro monstro por se formar. Outra sanguessuga sobre a Terra. Westeros precisa de uma mão de homem, não de criança.
Melisandre aproximou-se.
– Salve-os, senhor. Permita-me que acorde os dragões de pedra. Três são três. Dê-me o garoto.
– Edric Storm – disse Davos.
Stannis virou-se para ele numa fúria fria.
– Eu sei como ele se chama. Poupe-me de suas censuras. Não gosto mais disso do que você, mas o meu dever é para com o reino. O meu dever... – Voltou a virar-se para Melisandre. – Jura que não há outra maneira? Jure por sua vida, porque juro que morrerá devagarinho se mentir para mim.
– O senhor é quem tem de se erguer perante o Outro. Aquele cuja vinda foi profetizada há cinco mil anos. O cometa vermelho foi o seu arauto. O senhor é o príncipe que foi prometido, e se cair, o mundo cairá junto. – Melisandre aproximou-se dele, de lábios entreabertos, com o rubi a latejar. – Dê-me este garoto – sussurrou – e eu darei o seu reino.
– Ele não pode – disse Davos. – Edric Storm partiu.
– Partiu? – Stannis virou-se. – O que quer dizer com partiu?
– Está a bordo de uma galé lisena, em segurança no mar. – Davos observava o rosto pálido e em forma de coração de Melisandre. Viu aí o tremeluzir do desânimo, a súbita incerteza. Ela não o viu!
Os olhos do rei eram hematomas azul-escuros nos buracos de seu rosto.
– O bastardo foi levado de Pedra do Dragão sem a minha autorização? Uma galé, você diz? Se esse pirata liseno pensa em usar o garoto para me extorquir ouro...
– Isso é obra da sua Mão, senhor. – Melisandre lançou a Davos um olhar sabedor. – Vai trazê-lo de volta, senhor. Vai fazer isso.
– O garoto está fora do meu alcance – disse Davos. – E fora do seu também, senhora.
Os olhos vermelhos da mulher fizeram-no contorcer-se por dentro.
– Devia tê-lo deixado no escuro, sor. Sabe o que fez?
– O meu dever.
– Alguns chamariam de traição. – Stannis dirigiu-se à janela e fitou a noite. Estará à procura do navio? – Eu tirei-o da lama, Davos. – Soava mais cansado do que irritado. – Seria demais esperar lealdade?
– Quatro dos meus filhos morreram pelo senhor na Água Negra. Eu mesmo podia ter morrido. Tem a minha lealdade, sempre. – Davos Seaworth pensara dura e longamente sobre as palavras que diria em seguida; sabia que a sua vida dependia delas. – Vossa Graça, fez-me jurar dar-lhe conselhos honestos e rápida obediência, defender o seu reino contra seus inimigos, proteger o seu povo. Não será Edric Storm um membro do seu povo? Um daqueles que jurei proteger? Obedeci aos meus votos. Como pode isso ser traição?
Stannis voltou a ranger os dentes.
– Nunca pedi esta coroa. O ouro é frio e pesado na cabeça, mas enquanto for o rei, tenho um dever a cumprir... Se tiver de sacrificar uma criança às chamas para salvar um milhão da escuridão... Sacrifício... nunca é fácil, Davos. Se for, não é um verdadeiro sacrifício. Diga-lhe, senhora.
Melisandre falou:
– Azor Ahai temperou a Luminífera com o sangue do coração de sua amada esposa. Se um homem com mil vacas der uma a deus, isso nada é. Mas um homem que oferece a única vaca que possui...
– Ela fala de vacas – disse Davos ao rei. – Eu estou falando de um garoto, amigo de sua filha, filho de seu irmão.
– O filho de um rei, com o poder do sangue real em suas veias. – O rubi de Melisandre cintilava como uma estrela vermelha à sua garganta. – Pensa que salvou este garoto, Cavaleiro das Cebolas? Quando a longa noite cair, Edric Storm morrerá com os outros, não importa onde esteja escondido. E os seus filhos também. As trevas e o frio cobrirão a terra. Intromete-se em assuntos que não compreende.
– Há muitas coisas que não compreendo – admitiu Davos. – Nunca fingi o contrário. Conheço os mares e os rios, a forma das costas, onde há rochedos e baixios. Conheço angras escondidas onde um barco pode aportar sem ser visto. E sei que um rei protege o seu povo, caso contrário não é rei nenhum.
O rosto de Stannis escureceu.
– Zomba de mim na minha cara? Será que preciso aprender quais são os deveres de um rei com um contrabandista de cebolas?
Davos ajoelhou.
– Se o ofendi, corte minha cabeça. Morrerei como vivi, um homem que lhe é leal. Mas primeiro escute-me. Escute-me em nome das cebolas que lhe trouxe, e dos dedos que me tirou.
Stannis desembainhou a Luminífera. O brilho da espada encheu a sala.
– Diga o que quiser, mas diga depressa. – Os músculos no pescoço do rei projetavam-se como cordões.
Davos apalpou dentro do manto e tirou um pedaço amarfanhado de pergaminho. Parecia uma coisa pequena e banal, mas era todo o escudo que possuía.
– Uma Mão do Rei deve saber ler e escrever. Meistre Pylos tem me ensinado. – Alisou a carta no joelho e começou a ler à luz da espada mágica.
Jon
Sonhou que estava de volta a Winterfell, passando mancando pelos reis de pedra em seus tronos. Seus olhos de granito, cinzentos, viravam-se para segui-lo e seus dedos de granito apertavam-se no cabo das espadas enferrujadas que descansavam sobre suas coxas. Não é um Stark, ouvia-os resmungar, em pesadas vozes de granito. Não há lugar para você. Vá embora. Caminhou mais profundamente para o interior das trevas.
– Pai? – chamou. – Bran? Rickon? – ninguém respondeu. Um vento gelado soprava em seu pescoço. – Tio? – chamou. – Tio Benjen? Pai? Por favor, pai, ajude-me. – Ouviu o som de tambores vindo de cima. Estão se banqueteando no Salão Grande, mas não sou bem-vindo lá. Não sou um Stark, e este não é o meu lugar. A muleta escorregou e ele caiu de joelhos. As criptas estavam se tornando mais escuras. Uma luz apagou-se, em algum lugar. – Ygritte? – sussurrou. – Perdoe-me. Por favor. – Mas era apenas um lobo gigante, cinza e sinistro, salpicado de sangue, com os olhos dourados brilhando tristemente na escuridão...
A cela estava escura e a cama era dura sob seu corpo. Lembrou-se de que era a sua cama, a sua cama em sua cela de intendente que ficava abaixo dos aposentos do Velho Urso. Deveria ter-lhe trazido sonhos melhores. Mesmo sob as peles tinha frio. Fantasma era seu companheiro de cela antes de partirem em patrulha, aquecendo-a contra o frio da noite. E depois Ygritte dormira ao seu lado. Ambos se foram agora. Ele mesmo tinha queimado Ygritte, como sabia que ela teria desejado, e o Fantasma... Onde está? Estaria também ele morto, seria esse o significado de seu sonho, o lobo ensanguentado nas criptas? Mas o lobo no sonho era cinza, não branco. Cinza como o lobo de Bran. Teriam os Thenns o caçado, o teriam matado após Coroadarrainha? Se fosse isso que tinha acontecido, Bran estava perdido para ele, completamente e para sempre.