– Temos alguém ferido? – perguntou.
– Os malditos filhos da mãe acertaram minha perna. – Bota Extra arrancou a flecha e brandiu-a por cima da cabeça. – A de madeira!
Uma aclamação irregular ergueu-se na Muralha. Zei pegou Owen pelas mãos, girou-o em círculos e deu-lhe um longo beijo molhado ali mesmo, à vista de todos. Também tentou beijar Jon, mas ele segurou-a pelos ombros e afastou-a gentil mas firmemente.
– Não – disse. Acabaram-se os beijos para mim. Subitamente sentiu-se cansado demais para se manter em pé, e a perna era uma agonia do joelho à virilha. Procurou a muleta às apalpadelas. – Pyp, ajude-me a ir até a gaiola. Grenn, a Muralha é sua.
– Minha? – disse Grenn.
– Dele? – disse Pyp. Era difícil dizer qual dos dois estava mais horrorizado.
– Mas – gaguejou Grenn – M-mas o que é que eu faço se os selvagens voltarem a atacar?
– Pare-os – disse-lhe Jon.
Enquanto desciam na gaiola, Pyp tirou o elmo e limpou a testa.
– Suor congelado. Há alguma coisa mais nojenta do que suor congelado? – Soltou uma gargalhada. – Deuses, acho que nunca tive tanta fome. Era capaz de comer um auroque inteiro, juro. Acha que o Hobb nos cozinharia o Grenn? – Quando viu o rosto de Jon, seu sorriso morreu. – Que foi? É a perna?
– É a perna – concordou Jon. Até as palavras eram um esforço.
– Mas não é a batalha? Nós ganhamos a batalha.
– Pergunte-me depois de ter visto o portão – disse Jon sombriamente. Quero um fogo, uma refeição quente, uma cama morna e qualquer coisa que faça com que minha perna pare de doer, disse a si mesmo. Mas primeiro tinha de ir verificar o túnel e descobrir o que acontecera a Donal Noye.
Depois da batalha com os Thenns tinham levado quase um dia tirando o gelo e as vigas quebradas do portão interno. Pate Malhado, Barricas e alguns dos outros construtores argumentaram acaloradamente sobre se deviam simplesmente deixar ali o entulho, mais um obstáculo para Mance. Mas isso teria significado o abandono da defesa do túnel, e Noye não quis ouvir falar do assunto. Com homens nos alçapões e arqueiros e lanças atrás de cada um dos portões interiores, alguns irmãos determinados seriam capazes de repelir cem vezes o seu número de selvagens e atulhar o caminho de cadáveres. Não pretendia dar a Mance Rayder livre trânsito através do gelo. E assim, com picaretas, pás e cordas, tinham afastado os degraus quebrados e escavado um caminho até o portão.
Jon esperou junto das frias barras de ferro enquanto Pyp ia pedir a chave reserva ao Meistre Aemon. Surpreendentemente, o próprio meistre voltou com ele, e Clydas também, trazendo uma lanterna.
– Venha me fazer uma visita quando terminarmos – disse o velho a Jon enquanto Pyp lutava com as correntes. – Tenho de trocar sua atadura e aplicar um cataplasma fresco, e você vai querer um pouco de vinho dos sonhos para as dores.
Jon assentiu debilmente. A porta abriu-se. Pyp entrou à frente, seguido por Clydas e pela lanterna. Jon só foi capaz de acompanhar o passo de Meistre Aemon. O gelo apertava-se em volta deles, e ele sentia o frio enfiando-se em seus ossos, o peso da Muralha por cima de sua cabeça. Era como penetrar na goela de um dragão de gelo. O túnel descreveu uma curva e depois outra. Pyp destrancou um segundo portão de ferro. Avançaram, viraram novamente e viram luz mais à frente, tênue e pálida através do gelo. Isso é ruim, soube Jon de imediato. Isso é muito ruim.
Então Pyp disse:
– Há sangue no chão.
Foi nos últimos seis metros do túnel que eles tinham lutado e morrido. A porta exterior de carvalho reforçado tinha sido atacada e quebrada e por fim arrancada das dobradiças, e um dos gigantes arrastara-se para dentro através das lascas. A lanterna banhava a macabra cena com uma luz soturna e avermelhada. Pyp virou-se para o lado e vomitou, e Jon deu por si a invejar a cegueira de Meistre Aemon.
Noye e seus homens tinham estado à espera dentro do túnel, por trás de um portão de pesadas barras de ferro igual aos dois que Pyp havia acabado de destrancar. Os dois besteiros tinham disparado uma dúzia de dardos enquanto o gigante lutava para chegar até eles. Então os lanceiros devem ter avançado, projetando as lanças através das barras. Mesmo assim, o gigante ainda encontrara forças para estender as mãos por entre as barras, arrancar a cabeça de Pate Malhado, agarrar o portão de ferro e afastar as barras. Elos de uma corrente quebrada estavam espalhados pelo chão. Um gigante. Tudo isso foi obra de um gigante.
– Estão todos mortos? – perguntou o Meistre Aemon em voz baixa.
– Sim. Donal foi o último. – A espada de Noye estava profundamente enterrada na garganta do gigante, até o meio da lâmina. O armeiro sempre tinha parecido a Jon um homem tão grande, mas preso aos enormes braços do gigante quase parecia uma criança. – O gigante esmagou sua coluna. Não sei quem morreu primeiro. – Pegou a lanterna e aproximou-se para ver melhor. – Mag. – “Eu sou o último dos gigantes.” Sentia a tristeza que havia ali, mas não tinha tempo para tristezas. – Foi Mag, o Poderoso. O rei dos gigantes.
Sentiu então necessidade do sol. Dentro do túnel estava frio e escuro demais, e o fedor do sangue e da morte era sufocante. Jon devolveu a lanterna a Clydas, esgueirou-se em volta dos corpos e através das barras torcidas e caminhou para a luz do dia, para ver o que havia atrás da porta estilhaçada.
A enorme carcaça de um mamute morto bloqueava parcialmente a passagem. Uma das presas do animal prendeu seu manto e rasgou-o quando passou por ele. Mais três gigantes jaziam lá fora, meio enterrados por baixo de pedras, gelo sujo e piche endurecido. Via os locais onde o fogo derretera a Muralha, onde grandes lençóis de gelo tinham se desprendido com o calor e se estilhaçado no chão enegrecido. Ergueu os olhos para o local de onde tinham vindo. Quando estamos aqui, parece imensa, como se estivesse prestes a nos esmagar.
Jon voltou para dentro, para onde os outros aguardavam.
– Temos de reparar o portão exterior o melhor possível e depois bloquear esta seção do túnel. Entulho, montes de gelo, qualquer coisa. Até o segundo portão, se conseguirmos. Sor Winton terá de assumir o comando, é o último cavaleiro que resta, mas tem de agir já, os gigantes estarão de volta antes de percebermos. Temos de lhe dizer...
– Diga-lhe o que quiser – disse Meistre Aemon em voz baixa. – Ele sorrirá, fará um aceno, e esquecerá. Há trinta anos, Sor Wynton Stout esteve a uma dúzia de votos de ser Senhor Comandante. Teria sido dos bons. Há dez anos ainda podia ter sido capaz. Mas não mais. Sabe disso tão bem quanto Donal sabia, Jon.
Era verdade.
– Então dê você a ordem – disse Jon ao meistre. – Passou a vida inteira na Muralha, os homens vão segui-lo. Temos de fechar o portão.
– Eu sou um meistre acorrentado e juramentado. A minha ordem serve, Jon. Nós damos conselhos, não ordens.
– Alguém tem de...
– Você. Você tem de liderar.
– Não.
– Sim, Jon. Não precisa ser por muito tempo. Só até a guarnição retornar. Donal escolheu-o, e Qhorin Meia-Mão também, antes dele. O Senhor Comandante Mormont fez de você o intendente dele. É um filho de Winterfell, sobrinho de Benjen Stark. Tem de ser você, ou não será ninguém. A Muralha é sua, Jon Snow.
Arya
Sentia o buraco dentro de si todas as manhãs ao acordar. Não era fome, embora às vezes também houvesse isso. Era um lugar oco, um vazio onde o coração estivera, onde os irmãos e os pais tinham vivido. Sua cabeça também doía. Não tanto como a princípio, mas ainda doía bastante. Arya estava habituada a isso, porém, e pelo menos o galo estava desaparecendo. Mas o buraco dentro de si permanecia mesmo assim. O buraco nunca desaparecerá, dizia a si mesma quando ia dormir.