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– Ótimo – disse. – Mas preferia que tivesse sido vinho. Queria vinho.

– Eu também. – Cão de Caça enfiou o punhal no peito do homem quase com ternura, com o peso do corpo empurrando a ponta através do sobretudo, da cota de malha e do almofadado que usava por baixo. Quando voltou a puxar a faca para fora, olhou para Arya. – É ali que fica o coração, garota. É assim que se mata um homem.

Essa é uma maneira.

– Devemos enterrá-lo?

– Por quê? – disse Sandor. – Ele não se importa, e nós não temos pá. Deixe-o para os lobos e os cães selvagens. Os seus irmãos e os meus. – Dirigiu-lhe um olhar duro. – Mas primeiro vamos roubá-lo.

Havia dois veados de prata na bolsa do arqueiro, e quase trinta moedas de cobre. O punhal do homem tinha uma bonita pedra cor-de-rosa no botão. Cão de Caça sopesou a faca e depois atirou-a a Arya. Ela pegou-a pelo cabo, enfiou-a no cinto e sentiu-se um pouco melhor. Não era a Agulha, mas era aço. O morto também tinha uma aljava de flechas, mas as flechas não tinham muita utilidade sem um arco. As botas eram grandes demais para Arya e pequenas demais para Cão de Caça, portanto deixaram-nas lá. Ela também ficou com seu capacete, embora lhe caísse quase até abaixo do nariz, e tivesse de incliná-lo para trás para poder enxergar.

– Ele também deveria ter um cavalo, senão não teria fugido – disse Clegane, olhando em volta –, mas acho que já desapareceu. Não há como dizer há quanto tempo ele está aqui.

Quando chegaram ao sopé das Montanhas da Lua, as chuvas tinham quase parado. Arya conseguia ver o sol, a lua e as estrelas, e parecia-lhe que se dirigiam para leste.

– Para onde vamos? – voltou a perguntar.

Daquela vez o Cão de Caça respondeu-lhe.

– Você tem uma tia no Ninho da Águia. Talvez queira resgatar esse seu corpinho magricela, embora só os deuses saibam por quê. Depois de acharmos a estrada de altitude, podemos segui-la até o Portão Sangrento.

A tia Lysa. A ideia deixou em Arya uma sensação de vazio. Era a mãe que desejava, não a irmã da mãe. Não conhecia melhor a tia Lysa do que o tio-avô Peixe Negro. Devíamos ter entrado no castelo. Na verdade não sabiam se a mãe estava morta, ou mesmo Robb. Não os tinham propriamente visto morrer, nem nada parecido. Talvez Lorde Frey os tivesse apenas capturado. Talvez estivessem acorrentados em sua masmorra, ou talvez os Frey estivessem levando-os para Porto Real, para que Joffrey pudesse cortar a cabeça deles. Não sabiam.

– Devíamos voltar – decidiu de repente. – Devíamos voltar para as Gêmeas e ir buscar a minha mãe. Ela não pode estar morta. Temos de ajudá-la.

– Achava que era a sua irmã quem tinha a cabeça cheia de canções – rosnou o Cão de Caça. – O Frey podia ter mantido a sua mãe viva para obter um resgate, isso é verdade. Mas não há uma chance nos sete infernos de eu conseguir arrancá-la sozinho do seu castelo.

– Sozinho não. Eu também iria.

Ele soltou um som que era quase uma gargalhada.

Isso ia fazer o velho mijar-se de susto.

– Você só tem medo de morrer! – disse ela com uma expressão de escárnio.

Agora Clegane riu mesmo.

– A morte não me assusta. Só o fogo. Agora veja se fica quieta, senão eu mesmo corto sua língua e poupo as irmãs silenciosas da chatice. Para nós é o Vale.

Não parecia a Arya que ele realmente cortaria sua língua; estava apenas dizendo aquilo como o Olho-Vermelho costumava dizer que bateria nela até tirar sangue. Fosse como fosse, não iria pô-lo à prova. Sandor Clegane não era nenhum Olho-Vermelho. O Olho-Vermelho não cortava gente ao meio nem batia nela com machados. Nem mesmo com a parte romba dos machados.

Naquela noite adormeceu pensando na mãe e perguntando a si mesma se deveria matar Cão de Caça enquanto dormia e salvar ela mesma a Senhora Catelyn. Quando fechou os olhos, viu o rosto da mãe na parte de dentro das pálpebras. Ela está tão perto que quase conseguiria cheirá-la...

... e então conseguiu cheirá-la. O odor era tênue sob os outros cheiros, sob o musgo, a lama e a água e o fedor de juncos e homens em putrefação. Caminhou lentamente pelo terreno macio até a beira do rio e lambeu um pouco de água, após o que ergueu a cabeça para farejar. O céu estava cinza e pesado de nuvens; o rio, verde e cheio de coisas flutuantes. Os baixios estavam coalhados de mortos, alguns ainda em movimento quando a água os empurrava, outros encalhados nas margens. Os irmãos e irmãs formigavam em volta dos corpos, devorando a rica carne putrefata.

Também lá estavam os corvos, gritando contra os lobos e enchendo o ar de penas. O sangue deles era mais quente, e uma de suas irmãs abocanhou um ao levantar voo, apanhando-o por uma asa. Aquilo fez com que também desejasse um corvo. Queria sentir o sabor do sangue, ouvir os ossos se esmagando entre seus dentes, encher a barriga com carne quente em vez de fria. Tinha fome e havia carne por toda a volta, mas sabia que não podia comer.

O cheiro agora era mais forte. Levantou as orelhas e escutou os rosnados da alcateia, os guinchos de corvos irritados, o sussurro das asas e o som da água corrente. Ouviu sons de cavalos e os gritos dos vivos vindos de algum lugar a distância, mas não eram eles que importavam. Só o odor importava. Voltou a farejar o ar. Ali estava ele, e agora também via a sua origem, algo pálido à deriva no rio, virando-se quando roçava por um obstáculo submerso. Os juncos faziam reverências à sua frente.

Chapinhou ruidosamente pelos baixios e atirou-se em águas mais profundas, batendo as patas. A correnteza era forte, mas ela era mais. Nadou, seguindo o nariz. Os cheiros do rio eram ricos e úmidos, mas não eram esses que a atraíam. Nadou atrás do vivo sussurro rubro do sangue frio, do fedor enfastiante e doce da morte. Perseguiu-os como perseguira frequentemente um veado vermelho por entre as árvores, e por fim apanhou-os e suas mandíbulas fecharam-se em volta de um braço pálido. Sacudiu-o para obrigá-lo a se mexer, mas havia apenas morte e sangue em sua boca. Começava a se cansar, e foi com dificuldade que puxou o cadáver para a terra. Enquanto o arrastava para a margem lamacenta, um de seus irmãos menores veio investigar, com a língua saindo da boca. Teve de rosnar para afastá-lo, caso contrário ele teria comido. Só então parou para sacudir a água do pelo. A coisa branca jazia de bruços na lama, com a carne morta enrugada e pálida e sangue frio pingando de sua garganta. Levante-se, pensou. Levante-se, e venha comer e correr conosco.

O ruído de cavalos fez a loba virar a cabeça. Homens. Vinham contra o vento, e por isso não sentira o cheiro deles, mas agora estavam quase ali. Homens a cavalo, com asas pretas, amarelas e cor-de-rosa que batiam ao vento e longas garras brilhantes nas mãos. Alguns de seus irmãos mais novos mostraram os dentes para proteger a comida que tinham achado, mas ela mordeu-os até fugirem. Era essa a lei da natureza. Veados, lebres e corvos fugiam perante lobos, e lobos fugiam dos homens. Abandonou a captura fria e branca na lama para onde a arrastara, e fugiu, e não sentiu vergonha.

Quando a manhã chegou, Cão de Caça não precisou gritar ou sacudir Arya para que acordasse. Ela havia acordado antes dele, por uma vez, e até tinha dado água aos cavalos. Quebraram o jejum em silêncio, até que Sandor disse:

– Aquela conversa de sua mãe...

– Não importa – disse Arya numa voz sem vida. – Eu sei que está morta. Vi-a num sonho.

Cão de Caça observou-a por um longo momento, e depois assentiu. Nada mais foi dito sobre o assunto. Continuaram a viagem na direção das montanhas.