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– Os deuses mataram Joffrey. Ele sufocou com a sua torta de pombo.

Lorde Tyrell enrubesceu.

– Quer culpar os padeiros?

– A eles ou aos pombos. Só quero que me deixe fora disso. – Tyrion ouviu risos nervosos e compreendeu que tinha cometido um erro. Tento na língua, meu tolinho, antes que cave sua sepultura.

– Há testemunhas contra você – disse Lorde Tywin. – Vamos ouvi-las primeiro. Então, poderá apresentar as suas testemunhas. Só pode falar com a nossa licença.

Nada havia que Tyrion pudesse fazer além de assentir com a cabeça.

Sor Addam tinha falado a verdade; o primeiro homem a ser introduzido na sala foi Sor Balon Swann, da Guarda Real.

– Senhor Mão – começou, depois do Alto Septão ter aceitado o seu juramento de dizer apenas a verdade –, tive a honra de lutar ao lado de seu filho na ponte de navios. Ele é um homem corajoso, apesar do tamanho, e não quero acreditar que tenha cometido este ato.

Um murmúrio percorreu a sala, e Tyrion perguntou a si mesmo que jogo louco estaria Cersei jogando. Por que convocar uma testemunha que me julga inocente? Em breve ficou sabendo. Sor Balon falou relutantemente de como tinha separado Tyrion de Joffrey no dia do tumulto.

– Ele bateu em Sua Graça, é verdade. Foi um ataque de fúria, nada mais. Uma tempestade de verão. A multidão quase nos matou a todos.

– Nos dias dos Targaryen, um homem que batesse em alguém de sangue real perderia a mão que usasse no ato – observou a Víbora Vermelha de Dorne. – Cresceu uma mãozinha nova ao anão, ou vocês, Espadas Brancas, esqueceram o seu dever?

– Ele mesmo é de sangue real – respondeu Sor Balon. – E além disso, era Mão do Rei.

– Não – disse Lorde Twyn. – Ele era Mão do Rei interino, no meu lugar.

Sor Meryn Trant expandiu alegremente o relato de Sor Balon, quando ocupou o seu lugar como testemunha.

– Ele atirou o rei no chão e começou a chutá-lo. Gritou que era injusto que Sua Graça tivesse escapado incólume à multidão.

Tyrion começou a compreender o plano da irmã. Ela começou com um homem sabidamente honesto, e ordenhou dele tudo o que podia dar. Cada testemunha que seguir contará uma história pior, até que eu pareça tão mau quanto Maegor, o Cruel, e Aerys, o Louco, combinados, com uma pitada de Aegon, o Indigno, para dar sabor.

Sor Meryn prosseguiu, relatando o modo como Tyrion tinha interrompido o castigo de Joffrey a Sansa Stark.

– O anão perguntou a Sua Graça se ele sabia o que acontecera a Aerys Targaryen. Quando Sor Boros interveio em defesa do rei, o Duende ameaçou mandar matá-lo.

O próprio Blount veio em seguida, para fazer eco a essa lamentável história. Apesar de qualquer antipatia que Sor Boros pudesse nutrir por Cersei por tê-lo demitido da Guarda Real, mesmo assim disse as palavras que ela desejava.

Tyrion não conseguiu dominar mais a língua.

– Por que não diz aos juízes o que Joffrey estava fazendo?

O grande homem queixudo atravessou-o com os olhos.

– Você disse aos seus selvagens para me matar se eu abrisse a boca, é isso o que vou lhes dizer.

– Tyrion – disse Lorde Tywin. – Pode falar apenas quando solicitarmos. Que isso sirva de aviso.

Tyrion calou-se, fervendo.

Os Kettleblack vieram a seguir, todos os três, um de cada vez. Osney e Osfryd contaram a história de seu jantar com Cersei antes da Batalha da Água Negra e relataram as ameaças que tinha feito.

– Ele disse a Sua Graça que lhe queria fazer mal – disse Sor Osfryd. – Machucá-la.

O irmão Osney detalhou.

– Ele disse que esperaria por um dia em que ela estivesse feliz, e faria com que a alegria se transformasse em cinzas em sua boca. – Nenhum dos dois mencionou Alayaya.

Sor Osmund Kettleblack, um retrato da cavalaria com uma imaculada armadura de escamas e manto branco de lã, jurou que o Rei Joffrey havia muito sabia que o tio Tyrion pretendia assassiná-lo.

– Foi no dia em que me deram o manto branco, senhores – disse aos juízes. – O bravo rapaz disse-me: “Meu bom Sor Osmund, proteja-me bem, pois o meu tio não gosta de mim. Ele quer ser rei no meu lugar”.

Aquilo era mais do que Tyrion conseguia aguentar.

Mentiroso! – deu dois passos adiante antes que homens de manto dourado o arrastassem para trás.

Lorde Tywin franziu a testa.

– Terei de mandar acorrentar suas mãos e pés como faria a um salteador comum?

Tyrion rangeu os dentes. Um segundo erro, estúpido, estúpido, anão estúpido. Mantenha-se calmo, senão está perdido.

– Não. Peço-lhes perdão, senhores. As mentiras dele enfureceram-me.

– As verdades dele, você quer dizer – disse Cersei. – Pai, peço que o ponha a ferros, para a sua proteção. Você vê como ele é.

– Eu vejo que é um anão – disse o Príncipe Oberyn. – O dia em que temer a fúria de um anão será o dia em que me afogarei numa barrica de tinto.

– Não precisamos de algemas. – Lorde Tywin olhou de relance as janelas e levantou-se. – A hora já está bem adiantada. Continuaremos de manhã.

Naquela noite, sozinho em sua cela de torre com um pergaminho em branco e uma taça de vinho, Tyrion deu por si a pensar na esposa. Não em Sansa, na sua primeira esposa, Tysha. A esposa puta, não a esposa loba. O amor dela por Tyrion tinha sido fingimento, e no entanto ele acreditara e encontrara alegria nessa crença. Dê-me doces mentiras, e fique com as suas amargas verdades. Bebeu o vinho e pensou em Shae. Mais tarde, quando Sor Kevan lhe fez a visita da noite, Tyrion perguntou por Varys.

– Acredita que o eunuco irá falar em sua defesa?

– Não saberei até ter falado com ele. Mande-o aqui, tio, por gentileza.

– Como quiser.

Os meistres Ballabar e Frenken iniciaram o segundo dia do julgamento. Tinham aberto o nobre cadáver do Rei Joffrey, juraram, e não encontraram nenhum pedaço de torta de pombo nem qualquer outro alimento alojado na real garganta.

– Foi veneno o que o matou, senhores – disse Ballabar, enquanto Frenken assentia com gravidade.

Então apresentaram o Grande Meistre Pycelle, apoiando-se pesadamente numa bengala retorcida e tremendo ao caminhar, com um punhado de pelos brancos saindo de seu longo pescoço de galináceo. Estava frágil demais para permanecer em pé, e os juízes permitiram que fosse trazida uma cadeira para ele se sentar, e também uma mesa. Na mesa foram colocados alguns pequenos frascos. Pycelle etiquetou alegremente cada um deles com um nome.

– Grisalheira – disse, em voz trêmula – obtida do cogumelo. Beladona, sonodoce, dança do demo. Isto é olhocego. Esta chama-se sangue de viúva, devido à cor. Uma poção cruel. Faz com que a bexiga e os intestinos deixem de funcionar, até que a vítima se afogue em seus próprios venenos. Isto é acônito, isto, veneno de basilisco, e isto são lágrimas de Lys. Sim. Conheço-as todas. O Duende Tyrion Lannister roubou-as de meus aposentos, quando mandou me aprisionar sob falsas acusações.

Pycelle – gritou Tyrion, arriscando-se à ira do pai –, algum desses venenos pode sufocar um homem?

– Não. Para isso é preciso se virar para um veneno mais raro. Quando era rapaz, na Cidadela, meus professores chamavam-no simplesmente de o estrangulador.

– Mas esse veneno raro não foi encontrado, não?

– Não, senhor. – Pycelle piscou os olhos em sua direção. – Usou-o todo para matar a criança mais nobre que os deuses puseram nesta boa terra.

A ira de Tyrion sobrepôs-se ao seu bom-senso.

– Joffrey era cruel e estúpido, mas não o matei. Podem cortar minha cabeça se quiserem, mas não participei na morte de meu sobrinho.

Silêncio! – disse Lorde Tywin. – Já o avisei três vezes. Da próxima, será amordaçado e acorrentado.