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O dornês ergueu uma sobrancelha fina e negra.

– Um filho tão zeloso. E uma mentira tão fraca. Foi Lorde Tywin quem apresentou os filhos de minha irmã ao Rei Robert, enrolados nas capas carmesim dos Lannister.

– Talvez devesse ter esta discussão com o meu pai. Ele estava lá. Eu estava no Rochedo, e ainda era tão novo que pensava que a coisa que tenho entre as pernas só servia para mijar.

– Sim, mas agora está aqui, e em certas dificuldades, eu diria. Sua inocência pode ser tão evidente quanto a cicatriz que tem no rosto, mas não o salvará. Tal como o seu pai não o salvará. – O príncipe dornês sorriu. – Mas eu talvez o faça.

– Você? – Tyrion estudou-o. – É um juiz em três. Como poderá me salvar?

– Como seu juiz, não. Como seu campeão.

Jaime

Um livro branco repousava sobre uma mesa branca numa sala branca. A sala era redonda, com paredes de pedra caiada cobertas de tapeçarias de lã branca. Constituía o primeiro andar da Torre da Espada Branca, uma esguia estrutura de quatro andares construída num ângulo da muralha do castelo com vista sobre a baía. A galeria subterrânea guardava armas e armaduras, e o segundo e terceiro andares, as pequenas celas individuais simples para os seis irmãos da Guarda Real.

Uma dessas celas tinha sido sua durante dezoito anos, mas naquela manhã mudara as suas posses para o andar superior, inteiramente dedicado aos aposentos do Senhor Comandante. Essas salas também eram simples, apesar de espaçosas; e ficavam acima da muralha exterior, o que significava que teria uma vista sobre o mar. Gostarei disso, pensou. Da vista, e de todo o resto.

Tão pálido quanto a sala, Jaime sentou-se diante do livro com as vestes brancas da Guarda Real, à espera de seus Irmãos Juramentados. Uma espada longa pendia de sua anca. Da anca errada. Antes, sempre tinha usado a espada junto à esquerda, puxando-a com a mão oposta quando a desembainhava. Mudou-a para a anca direita naquela manhã, para conseguir puxá-la da mesma maneira com a mão esquerda, mas estranhava o peso daquele lado, e quando tinha tentado sacar a lâmina da bainha, todo o movimento pareceu desajeitado e pouco natural. A roupa também lhe caía mal. Vestia o traje de inverno da Guarda Real, uma túnica e calções de lã alvejada e um pesado manto branco, mas tudo parecia pender de seu corpo, largo.

Jaime tinha passado os dias no julgamento do irmão, em pé bem no fundo do salão. Ou Tyrion não chegou a vê-lo ali, ou não o reconheceu, mas isso não era surpreendente. Metade da corte parecia já não conhecê-lo. Sou um estranho na minha própria Casa. Seu filho estava morto, o pai deserdara-o, e a irmã... não lhe permitiu ficar a sós com ela nem uma vez, após aquele primeiro dia no septo real onde Joffrey jazia entre as velas. Até quando o transportaram através da cidade para a sua sepultura no Grande Septo de Baelor, Cersei manteve uma distância cautelosa.

Olhou mais uma vez em volta da Sala Redonda. Reposteiros brancos de lã cobriam as paredes, e havia um escudo branco e duas espadas cruzadas montados por cima da lareira. A cadeira atrás da mesa era de velho carvalho negro, com almofadas em pele alvejada de vaca, com o couro já fino. Gasto pelo traseiro ossudo de Barristan, o Ousado, e, antes dele, por Sor Gerold Hightower, pelo Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, Sor Ryam Redwyne e pelo Demônio de Darry, por Sor Duncan, o Alto, e pelo Grifo Branco, Alyn Connington. Como podia o Regicida estar em tão elevada companhia?

E, no entanto, ali estava.

A mesa propriamente dita era de um velho represeiro, pálido como osso, esculpido na forma de um enorme escudo sustentado por três garanhões brancos. Por tradição, o Senhor Comandante sentava-se ao topo do escudo, e os irmãos em grupos de três de cada lado, nas raras ocasiões em que todos os sete se encontravam reunidos. O livro que repousava junto de seu cotovelo era maciço; sessenta centímetros de altura e quarenta e cinco de largura, mil páginas de grossura, fino pergaminho branco encadernado em couro alvejado com dobradiças e presilhas de ouro. Seu nome formal era O livro dos irmãos, mas era mais habitual ser chamado simplesmente de Livro Branco.

Dentro do Livro Branco encontrava-se a história da Guarda Real. Todos os cavaleiros que algum dia tinham prestado serviço possuíam uma página, destinada a registar o seu nome e feitos para toda a eternidade. No canto superior esquerdo de cada página era desenhado o escudo que o homem usava no momento de sua escolha, em tintas de ricas cores. No canto inferior direito estava o escudo da Guarda Real; branco como neve, vazio, puro. Os escudos superiores eram todos diferentes; os inferiores, todos iguais. No espaço entre ambos eram escritos os fatos da vida e serviço de cada homem. Os desenhos heráldicos e as iluminuras eram feitos por septões enviados do Grande Septo de Baelor três vezes por ano, mas era dever do Senhor Comandante manter as entradas em dia.

Dever meu, agora. Ou melhor, seria, depois de aprender a escrever com a mão esquerda. O Livro Branco estava bem atrasado. A morte de Sor Mandon Moore e a de Sor Preston Greenfield precisavam ser acrescentadas, e o breve e sangrento serviço de Sandor Clegane na Guarda Real também. Novas páginas tinham de ser iniciadas para Sor Balon Swann, Sor Osmund Kettleblack e o Cavaleiro das Flores. Vou ter de convocar um septão para desenhar seus escudos.

Sor Barristan Selmy precedera Jaime como Senhor Comandante. O escudo no topo de sua página mostrava as armas da Casa Selmy: três espigas de trigo, amarelas, em fundo marrom. Jaime divertiu-se, embora não tenha ficado surpreso, ao descobrir que Sor Barristan tivera o cuidado de registrar a própria destituição antes de abandonar o castelo.

Sor Barristan da Casa Selmy. Filho primogênito de Sor Lyonel Selmy de Solar de Colheitas. Serviu como escudeiro de Sor Manfred Swann. Cognominado “o Ousado” no seu 10º ano, quando envergou uma armadura emprestada para surgir como cavaleiro misterioso no torneio em Portonegro, onde foi derrotado e desmascarado por Duncan, o Príncipe das Libélulas. Armado cavaleiro no seu 16º ano pelo Rei Aegon V Targaryen, após realizar grandes feitos de perícia como cavaleiro misterioso no torneio de inverno em Porto Real, derrotando o Príncipe Duncan, o Pequeno, e Sor Duncan, o Alto, Senhor Comandante da Guarda Real. Matou Maelys, o Monstruoso, o último dos Pretendentes Blackfyre, em combate singular durante a Guerra dos Reis de Nove Moedas. Derrotou Lormelle Lança Longa e Cedrik Storm, o Bastardo de Portabrônzea. Nomeado para a Guarda Real no seu 23º ano pelo Senhor Comandante Sor Gerold Hightower. Defendeu a passagem contra todos os desafiantes no torneio da Ponte de Prata. Vencedor do corpo a corpo em Lagoa da Donzela. Levou o Rei Aerys II até lugar seguro durante o Desafio de Valdocaso, apesar de um ferimento de flecha no peito. Vingou o assassinato de seu Irmão Juramentado, Sor Gwayne Gaunt. Salvou a Senhora Jeyne Swann e a sua septã da Irmandade da Mata de Rei, derrotando Simon Toyne e o Cavaleiro Sorridente, e matando o primeiro. No torneio de Vilavelha, derrotou e desmascarou o cavaleiro misterioso Escudo-Negro, revelando-o como o Bastardo de Terraltas. Único campeão no torneio de Lorde Steffon em Ponta Tempestade, onde derrubou Lorde Robert Baratheon, o Príncipe Oberyn Martell, Lorde Leyton Hightower, Lorde Jon Connington, Lorde Jason Mallister e o Príncipe Rhaegar Targaryen. Ferido por flecha, lança e espada na Batalha do Tridente enquanto lutava ao lado de seus Irmãos Juramentados e Rhaegar, Príncipe de Pedra do Dragão. Perdoado e nomeado Senhor Comandante da Guarda Real pelo Rei Robert I Baratheon. Serviu na guarda de honra que trouxe a Senhora Cersei da Casa Lannister para Porto Real, a fim de desposar o Rei Robert. Liderou o ataque contra Velha Wyk durante a Rebelião de Balon Greyjoy. Campeão do torneio em Porto Real, no seu 57º ano. Destituído do serviço pelo Rei Joffrey Baratheon no seu 61º ano, por motivo de idade avançada.