A parte inicial da lendária carreira de Sor Barristan tinha sido escrita por Sor Gerold Hightower numa letra grande e enérgica. A escrita menor e mais elegante de Selmy substituía-a com o relato de seu ferimento no Tridente.
A página de Jaime era reduzida em comparação.
Sor Jaime da Casa Lannister. Filho primogênito de Lorde Tywin e da Senhora Joanna de Rochedo Casterly. Serviu contra a Irmandade da Mata de Rei como escudeiro de Lorde Sumner Crakehall. Armado cavaleiro no seu 15º ano por Sor Arthur Dayne da Guarda Real, por valor no campo de batalha. Escolhido para a Guarda Real no seu 15º ano pelo Rei Aerys II Targaryen. Durante o Saque de Porto Real, matou o Rei Aerys II aos pés do Trono de Ferro. De então em diante conhecido por “Regicida”. Perdoado por seu crime pelo Rei Robert I Baratheon. Serviu na guarda de honra que trouxe a sua irmã, a Senhora Cersei Lannister, para Porto Real, a fim de desposar o Rei Robert. Campeão no torneio realizado em Porto Real por ocasião desse casamento.
Assim resumida, a sua vida parecia uma coisinha bastante limitada e mesquinha. Sor Barristan podia ter registado pelo menos algumas de suas outras vitórias em torneios. E Sor Gerold podia ter escrito mais algumas palavras a respeito dos feitos que tinha realizado quando Sor Arthur Dayne desbaratou a Irmandade da Mata de Rei. Jaime salvou a vida de Lorde Sumner no momento em que Ben Barrigudo estava prestes a esmagar-lhe a cabeça, muito embora o fora da lei tivesse escapado dele. E resistiu contra o Cavaleiro Sorridente, embora tivesse sido Sor Arthur quem o matou. Que luta foi essa e que adversário. O Cavaleiro Sorridente era um louco, uma mistura de crueldade e cavalaria, mas não conhecia o significado do medo. E Dayne, com a Alvorada na mão... No fim, a espada do fora da lei tinha tantos entalhes que Sor Arthur parou para permitir que ele fosse buscar outra.
– A que eu quero é essa sua espada branca – havia dito o cavaleiro ladrão ao retomar a luta, embora a essa altura já sangrasse de uma dúzia de ferimentos.
– Então vai obtê-la, sor – replicou o Espada da Manhã, e pôs fim ao combate.
Naqueles tempos o mundo era mais simples, pensou Jaime, e tanto os homens como as espadas eram feitos de melhor aço. Ou seria apenas por ter então seus quinze anos? Agora estavam todos nas respectivas tumbas, o Espada da Manhã e o Cavaleiro Sorridente, o Touro Branco e o Príncipe Lewyn, Sor Oswell Whent e seu humor negro, o zeloso Jon Darry, Simon Toyne e a sua Irmandade da Mata de Rei, o velho e brusco Sumner Crakehall. E eu, aquele rapaz que era... quando será que ele morreu, pergunto-me. Quando pus o manto branco? Quando abri a goela de Aerys? Aquele rapaz queria ser Sor Arthur Dayne, mas em algum ponto ao longo do caminho transformou-se no Cavaleiro Sorridente.
Quando ouviu a porta abrir, fechou o Livro Branco e levantou-se para receber seus Irmãos Juramentados. Sor Osmund Kettleblack foi o primeiro a chegar. Ofereceu a Jaime um sorriso, como se fossem velhos irmãos de armas.
– Sor Jaime – disse –, se tivesse esse aspecto na outra noite, o teria reconhecido de imediato.
– Ah, sim? – Jaime duvidava. Os criados tinham lhe dado banho, barbeado e lavado e escovado seus cabelos. Quando olhava para o espelho, já não via o homem que atravessara as terras fluviais com Brienne... mas também não via a si mesmo. O rosto estava magro e encovado e tinha rugas sob os olhos. Pareço um velho qualquer. – Vá para junto de seu lugar, sor.
Kettleblack obedeceu. Os outros Irmãos Juramentados foram entrando um por um.
– Sores – disse Jaime num tom formal depois de se reunirem todos os cinco –, quem guarda o rei?
– Os meus irmãos Sor Osney e Sor Osfryd – respondeu Sor Osmund.
– E o meu irmão Sor Garlan – disse o Cavaleiro das Flores.
– Vão mantê-lo a salvo?
– Sim, senhor.
– Então sentem-se. – As palavras eram rituais. Antes dos sete poderem se reunir, era necessário assegurar a segurança do rei.
Sor Boros e Sor Meryn sentaram-se à sua direita, deixando uma cadeira vazia entre ambos para Sor Arys Oakheart, que se encontrava em Dorne. Sor Osmund, Sor Balon e Sor Loras ocuparam as cadeiras de sua esquerda. Os velhos e os novos. Jaime perguntou a si mesmo se aquilo poderia querer dizer alguma coisa. Tinha havido momentos durante a sua história em que a Guarda Real tinha se dividido contra si própria, e a mais notável e amarga dessas ocasiões fora durante a Dança dos Dragões. Seria isso algo que também teria de temer?
Parecia-lhe estranho sentar-se no lugar do Senhor Comandante, onde Barristan, o Ousado, se sentara durante tantos anos. E ainda mais estranho é me sentar aqui mutilado. Fosse como fosse, era o seu lugar, e agora aquela era a sua Guarda Real. Os sete de Tommen.
Jaime tinha servido durante anos com Meryn Trant e Boros Blount; lutadores capazes, mas Trant era dissimulado e cruel, e Blount, um saco de ar rosnador. Sor Balon Swann era mais digno de seu manto, e claro que o Cavaleiro das Flores era supostamente tudo que um cavaleiro devia ser. O quinto homem, aquele Osmund Kettleblack, era um estranho para ele.
Perguntou a si mesmo o que Sor Arthur Dayne teria a dizer daquele grupo. “Como foi que a Guarda Real caiu tão baixo?”, provavelmente. “Foi obra minha”, eu teria de responder. “Eu abri a porta, e nada fiz quando a ralé começou a entrar.”
– O rei está morto – começou Jaime. – O filho de minha irmã, um rapaz de treze anos, assassinado em seu próprio banquete de casamento, em seu próprio salão. Todos os cinco de vocês se encontravam presentes. Todos os cinco estavam a protegê-lo. E no entanto ele está morto. – Esperou para ver o que eles responderiam àquilo, mas nenhum chegou sequer a pigarrear. O rapaz Tyrell está zangado, e Balon Swann, envergonhado, notou. Nos outros três Jaime sentiu apenas indiferença. – Foi o meu irmão que fez isso? – perguntou-lhes sem rodeios. – Tyrion envenenou o meu sobrinho?
Sor Balon mexeu-se desconfortavelmente na cadeira. Sor Boros cerrou um punho. Sor Osmund deu de ombros indolentemente. Foi Meryn Trant quem acabou por responder.
– Ele encheu a taça de Joffrey de vinho. Deve ter sido então que despejou lá o veneno.
– Tem certeza de que era o vinho que estava envenenado?
– O que mais poderia ser? – disse Sor Boros Blount. – O Duende despejou os sedimentos no chão. Por quê, se não para se livrar do vinho que poderia ter provado a sua culpa?
– Ele sabia que o vinho estava envenenado – disse Sor Meryn.
Sor Balon Swann franziu a testa.
– O Duende não estava sozinho no estrado. Longe disso. Com o banquete tão avançado, tínhamos pessoas em pé e movendo-se de um lado para o outro, mudando de lugar, saindo para ir à latrina, havia criados indo e vindo... o rei e a rainha tinham acabado de cortar a torta nupcial, todos os olhos estavam postos neles e naquelas três vezes malditas pombas. Ninguém estava vigiando a taça de vinho.
– Quem mais se encontrava no estrado? – perguntou Jaime.
Sor Meryn respondeu.
– A família do rei, a família da noiva, o Grande Meistre Pycelle, o Alto Septão...
– Aí está o seu envenenador – sugeriu Sor Oswald Kettleblack com um sorriso manhoso. – Muito mais santo do que devia ser, aquele velho. Pessoalmente, nunca gostei do ar dele. – Soltou uma gargalhada.
– Não – disse o Cavaleiro das Flores, sem mostrar estar se divertindo. – Sansa Stark foi a envenenadora. Todos se esquecem de que a minha irmã estava bebendo daquele cálice também. Sansa Stark era a única pessoa no salão que tinha motivo para querer ver tanto Margaery como o rei mortos. Ao envenenar a taça nupcial, podia esperar matá-los a ambos. E por que teria fugido depois, a menos que seja culpada?