O rapaz faz sentido. Tyrion pode até ser inocente. Mas ninguém se mostrava perto de encontrar a garota. Talvez Jaime devesse investigar aquilo pessoalmente. Para começar, seria bom saber como ela teria saído do castelo. Varys pode ter uma ideia ou duas sobre isso. Ninguém conhecia a Fortaleza Vermelha melhor do que o eunuco.
Aquilo podia esperar, porém. Naquele momento Jaime tinha preocupações mais imediatas. Você diz que é o Senhor Comandante da Guarda Real, tinha dito o pai. Vá cumprir o seu dever. Aqueles cinco não eram os irmãos que teria escolhido, mas eram os irmãos que tinha; chegara o momento de lidar com eles.
– Seja quem for que tenha cometido o ato – disse-lhes –, Joffrey está morto, e o Trono de Ferro pertence agora a Tommen. Pretendo que o ocupe até que seus cabelos embranqueçam e seus dentes caiam. E não devido a veneno. – Jaime virou-se para Sor Boros Blount. O homem tornara-se corpulento nos últimos anos, embora tivesse ossos suficientemente grandes para transportar o peso. – Sor Boros, parece ser um homem que aprecia a comida. De hoje em diante, provará tudo que Tommen comer ou beber.
Sor Osmund Kettleblack riu alto e o Cavaleiro das Flores sorriu, mas Sor Boros enrubesceu até um profundo tom de beterraba.
– Eu não sou nenhum provador! Sou um cavaleiro da Guarda Real!
– Lamento dizê-lo, mas é. – Cersei nunca devia ter tirado do homem o seu manto branco. Mas o pai só tornara a vergonha maior ao devolvê-lo. – Minha irmã falou-me da prontidão com que cedeu meu sobrinho aos mercenários de Tyrion. Vai achar as ervilhas e cenouras menos ameaçadoras, espero. Quando os seus Irmãos Juramentados estiverem no pátio treinando com escudo e espada, pode treinar com a colher e a bandeja. Tommen adora bolos de maçã. Tente evitar que algum mercenário desapareça com eles.
– Fala-me assim? Você?
– Devia ter morrido antes de permitir que Tommen fosse capturado.
– Tal como você morreu protegendo Aerys, sor? – Sor Boros pôs-se em pé e agarrou o cabo da espada. – Eu não... eu não aturarei isso. Devia ser você o provador, parece-me. Para que mais serve um aleijado?
Jaime sorriu.
– Concordo. Sou tão indigno de guardar o rei quanto você. Portanto, puxe essa espada que está acariciando e veremos como as suas duas mãos se saem contra a minha. No fim, um de nós estará morto e a Guarda Real será melhorada. – Levantou-se. – Ou, se preferir, pode voltar aos seus deveres.
– Bah! – Sor Boros puxou um monte de muco verde, escarrou-o aos pés de Jaime e saiu, com a espada ainda na bainha.
O homem é covarde, ainda bem. Apesar de gordo e envelhecido e de nunca ter sido mais que medíocre, Sor Boros ainda teria sido capaz de desfazê-lo em pedaços sangrentos. Mas Boros não sabe disso, e os outros também não podem saber. Eles temiam o homem que eu era; o homem que sou desperta piedade neles.
Jaime voltou a se sentar e virou-se para Kettleblack.
– Sor Osmund. Não o conheço. Acho tal fato curioso. Participei em torneios, em lutas corpo a corpo e em batalhas por todos os Sete Reinos. Conheço todos os pequenos cavaleiros, cavaleiros livres e escudeiros possuidores de alguma capacidade e que tenham alguma vez ousado quebrar uma lança nas liças. Assim, como é que nunca ouvi falar de você, Sor Osmund?
– Não saberei dizer, senhor. – Ele tinha um largo sorriso no rosto, aquele Sor Osmund, como se ele e Jaime fossem velhos camaradas de armas jogando um joguinho divertido qualquer. – Mas sou um soldado, não um cavaleiro de torneios.
– Onde prestou serviço antes de minha irmã encontrá-lo?
– Aqui e ali, senhor.
– Eu estive em Vilavelha no sul e em Winterfell no norte. Estive em Lanisporto no oeste, e em Porto Real no leste. Mas nunca estive em Aqui. Nem em Ali. – Por falta de um dedo, Jaime apontou com o coto para o nariz em forma de bico de Sor Osmund. – Vou voltar a perguntar. Onde prestou serviço?
– Nos Degraus. Um pouco nas Terras Disputadas. Ali há sempre luta. Acompanhei os Homens Galantes. Lutamos por Lys e um pouco por Tyrosh.
Lutou por quem quer que lhe pagasse.
– Como acabou sendo armado cavaleiro?
– No campo de batalha.
– Quem o armou?
– Sor Robert... Stone. Já morreu, senhor.
– Com certeza. – Supunha que Sor Robert Stone podia ter sido algum bastardo vindo do Vale, que tivesse andado vendendo a espada nas Terras Disputadas. Por outro lado, podia não ser mais do que um nome que Sor Osmund montou a partir de um rei morto e de uma muralha de castelo. Em que Cersei estava pensando quando deu a este aí um manto branco?
Pelo menos Kettleblack provavelmente saberia como usar uma espada e um escudo. Os mercenários raramente eram os mais honrosos dos homens, mas tinham de possuir certa perícia com as armas para continuarem vivos.
– Muito bem, sor – disse Jaime. – Pode ir.
O sorriso do homem voltou. Saiu se pavoneando.
– Sor Meryn. – Jaime sorriu ao azedo cavaleiro de cabelos cor de ferrugem e olheiras sob os olhos. – Ouvi dizer que Joffrey o usou para castigar Sansa Stark. – Virou o Livro Branco com uma mão só. – Tome, mostre-me onde está escrito nos nossos votos que juramos espancar mulheres e crianças.
– Fiz o que Sua Graça me ordenou. Juramos obedecer.
– De hoje em diante, irá moderar essa obediência. Minha irmã é rainha regente. Meu pai é Mão do Rei. Eu sou Senhor Comandante da Guarda Real. Obedeça a nós. A mais ninguém.
Sor Meryn fez uma expressão obstinada.
– Está me dizendo para não obedecer ao rei?
– O rei tem oito anos. Nosso primeiro dever é protegê-lo, o que inclui protegê-lo de si mesmo. Use essa coisa feia que mantém dentro do elmo. Se Tommen quiser que sele o cavalo dele, obedeça. Se lhe disser para matar o cavalo, venha conversar comigo.
– Sim. Às suas ordens, senhor.
– Dispensado. – Enquanto ele saía, Jaime virou-se para Sor Balon Swann. – Sor Balon, vi-o tomar parte em justas muitas vezes, e lutei quer com você, quer contra você em lutas corpo a corpo. Disseram-me que demonstrou cem vezes o seu valor na Batalha da Água Negra. A Guarda Real é honrada por sua presença.
– A honra é minha, senhor. – Sor Balon parecia desconfiado.
– Existe apenas uma questão que gostaria de lhe colocar. Serviu-nos com lealdade, é certo... mas Varys disse-me que seu irmão acompanhou Renly e depois Stannis, enquanto o senhor seu pai decidiu não convocar os vassalos e permaneceu atrás das muralhas de Pedrelmo durante toda a guerra.
– Meu pai é um homem idoso, senhor. Já passou há muito os quarenta anos. Os dias de suas batalhas terminaram.
– E o seu irmão?
– Donnel foi ferido na batalha e rendeu-se a Sor Elwood Harte. Foi depois resgatado e jurou lealdade ao Rei Joffrey, tal como muitos outros cativos.
– É verdade – disse Jaime. – Mesmo assim... Renly, Stannis, Joffrey, Tommen... como foi que ele conseguiu deixar de lado Balon Greyjoy e Robb Stark? Podia ter sido o primeiro cavaleiro no reino a jurar lealdade a todos os seis reis.
O incômodo de Sor Balon era evidente.
– Donnel errou, mas agora é de Tommen. Dou-lhe a minha palavra.
– Não é Sor Donnel, o Constante, que me preocupa. É você. – Jaime inclinou-se para a frente. – O que fará se o bravo Sor Donnel entregar a sua espada a outro usurpador, e um dia invadir a sala do trono? E aí está você, todo de branco, entre o seu rei e o seu sangue. O que fará?
– Eu... senhor, isso nunca acontecerá.
– Aconteceu a mim – disse Jaime.
Swann limpou a testa com a manga de sua túnica branca.
– Não tem resposta?
– Senhor. – Sor Balon ficou em pé. – Pela minha espada, pela minha honra, pelo nome de meu pai, juro... não farei o que o senhor fez.