Jaime riu.
– Ótimo. Volte aos seus deveres... e diga a Sor Donnel para acrescentar um cata-vento ao seu escudo.
E então ficou sozinho com o Cavaleiro das Flores.
Esguio como uma espada, ágil e em forma, Sor Loras Tyrell usava uma túnica de linho branca como a neve e calções brancos de lã, com um cinto dourado em volta da cintura e uma rosa de ouro prendendo seu manto de seda fina. Os cabelos eram um suave desarranjo castanho, e os olhos eram também castanhos, e brilhantes de insolência. Ele acredita que isso é um torneio e que acabaram de anunciar a sua justa.
– Dezessete anos, e um cavaleiro da Guarda Real – disse Jaime. – Deve se sentir orgulhoso. Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, tinha dezessete anos quando foi nomeado. Sabia disso?
– Sim, senhor.
– E sabia que eu tinha quinze?
– Isso também, senhor. – E sorriu.
Jaime odiou aquele sorriso.
– Eu era melhor do que você, Sor Loras. Era maior, era mais forte e era mais rápido.
– E agora é mais velho – disse o rapaz. – Senhor.
Teve de rir. Isso é absurdo demais. Tyrion riria de mim sem dó se me ouvisse agora, comparando o pinto com este rapazinho verde.
– Mais velho e mais sábio, sor. Devia aprender comigo.
– Tal como você aprendeu com Sor Boros e Sor Meryn?
Aquela flecha aproximou-se demais do alvo.
– Aprendi com Touro Branco e Barristan, o Ousado – disse bruscamente Jaime. – Aprendi com Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã, que conseguiria matar vocês cinco com a mão esquerda enquanto mijava com a direita. Aprendi com o Príncipe Lewyn de Dorne, com Sor Oswell Whent e Sor Jonothor Darry, todos eles homens bons.
– Todos eles homens mortos.
Ele sou eu, compreendeu Jaime subitamente. Estou falando comigo mesmo tal como era, cheio de uma arrogância convencida e de cavalaria sem base. Isso é o que acontece quando se é bom demais e novo demais.
Assim como na esgrima, às vezes é melhor experimentar um golpe diferente.
– Dizem que lutou magnificamente na batalha... quase tão bem quanto o fantasma de Lorde Renly ao seu lado. Um Irmão Juramentado não tem segredos para com o Senhor Comandante. Diga-me, sor. Quem estava usando a armadura de Renly?
Por um momento Loras Tyrell pareceu poder recusar-se a responder, mas por fim lembrou-se de seus votos.
– Meu irmão – disse, de mau humor. – Renly era mais alto do que eu, e mais largo de peito. A armadura dele ficava folgada em mim, mas servia bem a Garlan.
– A mascarada foi ideia sua ou dele?
– Foi Lorde Mindinho quem a sugeriu. Ele disse que assustaria os ignorantes homens de armas de Stannis.
– E assustou-os. E também alguns cavaleiros e fidalgos. Bem, deu aos cantores algo para inspirar rimas, suponho que isso não deva ser desprezado. O que fez com Renly?
– Enterrei-o com minhas próprias mãos, num lugar que me mostrou um dia quando eu era escudeiro em Ponta Tempestade. Nunca ninguém o encontrará lá para perturbar o seu descanso. – Olhou para Jaime em desafio. – Protegerei o Rei Tommen com todas as minhas forças, juro. Darei a minha vida pela dele se for necessário. Mas nunca trairei Renly por palavras ou por atos. Ele era o rei que devia ter sido. Era o melhor de todos.
O mais bem vestido, talvez, pensou Jaime, mas por uma vez não o disse. A arrogância tinha saído de Sor Loras no momento em que começara a falar de Renly. Ele respondeu honestamente. É orgulhoso, imprudente e cheio de mijo, mas não é falso. Ainda não.
– Como queira. Mais uma coisa e poderá voltar aos seus deveres.
– Sim, senhor?
– Ainda tenho Brienne de Tarth numa cela de torre.
A boca do rapaz endureceu.
– Uma cela negra seria melhor.
– Está certo de que é isso que ela merece?
– Ela merece a morte. Eu disse a Renly que uma mulher não tinha lugar na Guarda Arco-Íris. Ela ganhou o corpo a corpo com um truque.
– Acho que me recordo de um outro cavaleiro que gostava de truques. Uma vez montou uma égua no cio contra um oponente montado num garanhão de mau temperamento. Que tipo de truque usou Brienne?
Sor Loras corou.
– Ela saltou... não importa. Ganhou, concedo-lhe isso. Sua Graça pôs um manto arco-íris em seus ombros. E ela matou-o. Ou deixou-o morrer.
– Há aí uma grande diferença. – A diferença entre o meu crime e a vergonha de Boros Blount.
– Ela tinha jurado protegê-lo. Sor Emmon Cuy, Sor Robar Royce, Sor Parmen Crane, eles também tinham jurado. Como poderia alguém atingi-lo com ela dentro da tenda e os outros à porta? A menos que participassem do ato.
– Havia cinco de vocês no banquete de casamento – ressaltou Jaime. – Como pôde Joffrey morrer? A menos que participassem do ato?
Sor Loras endireitou-se rigidamente.
– Não houve nada que pudéssemos fazer.
– A garota diz o mesmo. Ela chora por Renly, tal como você. Garanto-lhe que nunca chorei por Aerys. Brienne é feia e teimosa como um jumento. Mas falta-lhe a esperteza para ser uma mentirosa, e é leal para lá do bom senso. Prestou um juramento de me trazer para Porto Real, e aqui estou eu. Esta mão que perdi... bem, isso foi tanto obra minha como dela. Pesando tudo o que fez para me proteger, não tenho qualquer dúvida de que teria lutado por Renly, se tivesse havido um inimigo com quem lutar. Mas uma sombra? – Jaime sacudiu a cabeça. – Puxe a espada, Sor Loras. Mostre-me como você lutaria com uma sombra. Gostaria de ver isso.
Sor Loras não fez qualquer movimento para se erguer.
– Ela fugiu – disse. – Ela e Catelyn Stark abandonaram-no afogado em sangue e fugiram. Por que haveriam de fugir, se não fosse obra dela? – fitou a mesa. – Renly atribuiu-me a vanguarda. De outro modo teria sido eu a ajudá-lo a envergar a armadura. Ele muitas vezes confiava essa tarefa a mim. Nós tínhamos... tínhamos rezado juntos naquela noite. Deixei-o com ela. Sor Parmen e Sor Emmon guardavam a tenda e Sor Robar Royce também estava lá. Sor Emmon jurou que Brienne tinha... embora...
– Sim? – instou Jaime, detectando uma dúvida.
– O gorjal tinha sido atravessado. Um golpe limpo, através de um gorjal de aço. A armadura de Renly era do melhor, do mais fino aço. Como ela conseguiria fazer aquilo? Eu mesmo tentei, e não foi possível. Ela é anormalmente forte para uma mulher, mas até a Montanha teria precisado de um machado pesado. E por que vestir-lhe a armadura e só depois cortar a garganta dele? – dirigiu a Jaime um olhar confuso. – Mas se não foi ela... como pode ter sido uma sombra?
– Pergunte-lhe. – Jaime tomou uma decisão. – Vá à cela dela. Faça as suas perguntas e escute as respostas que ela der. Se ainda estiver convencido de que Brienne assassinou Lorde Renly, farei com que ela responda por isso. A decisão será sua. Acuse-a ou liberte-a. Tudo que peço é que a julgue com justiça, por sua honra de cavaleiro.
Sor Loras levantou-se.
– Farei isso. Por minha honra.
– Então terminamos.
O homem mais novo dirigiu-se à porta. Mas aí virou-se.
– Renly a achava absurda. Uma mulher vestida de cota de malha de homem, fingindo ser um cavaleiro.
– Se alguma vez a tivesse visto vestindo cetim cor-de-rosa e renda de Myr, não teria se queixado.
– Perguntei-lhe por que a mantinha por perto, se a achava assim tão grotesca. Ele disse que todos os outros cavaleiros queriam coisas dele, castelos, honrarias ou riquezas, mas tudo que Brienne queria era morrer por ele. Quando o vi todo ensanguentado, com ela fugida e os outros três incólumes... se ela for inocente, então Robar e Emmon... – Não parecia ser capaz de articular as palavras.
Jaime não tinha parado para refletir sobre aquele aspecto do assunto.
– Eu teria feito o mesmo, sor. – A mentira chegou-lhe fácil, mas Sor Loras pareceu grato por ouvi-la.