Quando o cavaleiro saiu, o Senhor Comandante sentou-se sozinho na sala branca, cheio de questões. O Cavaleiro das Flores tinha se sentido tão louco de dor por Renly que abatera dois de seus próprios Irmãos Juramentados, mas nunca ocorreu a Jaime fazer o mesmo aos cinco que tinham falhado a Joffrey. Ele era meu filho, meu filho secreto... Que coisa sou eu, se não ergo a mão que me resta para vingar meu próprio sangue e semente? Devia pelo menos matar Sor Boros, só para se ver livre dele.
Olhou para o coto e fez uma careta. Tenho de fazer qualquer coisa a esse respeito. Se o falecido Sor Jacelyn Bywater podia usar uma mão de ferro, ele devia ter uma de ouro. Cersei pode gostar. Uma mão dourada para afagar seus cabelos dourados e apertá-la bem contra mim.
Mas a mão podia esperar. Havia outras coisas a tratar primeiro. Havia outras dívidas a pagar.
Sansa
A escada que levava ao castelo de proa era íngreme e cheia de lascas, por isso Sansa aceitou ajuda de Lothor Brune. Sor Lothor, teve de recordar a si mesma. O homem tinha sido armado cavaleiro pelo valor demonstrado na Batalha da Água Negra. Embora nenhum cavaleiro de verdade usasse aqueles calções marrons remendados e aquelas botas gastas, nem aquele gibão de couro rachado e manchado pela água. Atarracado, com rosto quadrado, nariz amassado e um emaranhado de fortes cabelos grisalhos, Brune raramente falava. Mas é mais forte do que parece. Ela percebeu isso pela facilidade com que a ergueu no ar, como se não pesasse nada.
Para lá da proa do Rei Bacalhau estendia-se uma costa nua e pedregosa, varrida pelo vento, desprovida de árvores e pouco convidativa. Mesmo assim, era uma visão bem-vinda. Havia bastante tempo que vinham se afastando da costa no caminho de volta. A última tempestade tinha-os varrido para longe da vista da terra, e atirara tamanhas ondas contra os lados da galé que Sansa tivera certeza de que iam todos se afogar. Tinha ouvido o velho Oswell dizer que dois homens haviam sido arrastados borda afora e outro caíra do mastro e quebrara o pescoço.
Ela raramente se aventurava até o convés. Sua pequena cabine era úmida e fria, mas Sansa passara a maior parte da viagem doente... doente de terror, doente de febre, ou doente de enjoo... Não conseguia manter nada no estômago e até o sono custava a vir. Sempre que fechava os olhos via Joffrey rasgando o colarinho, arranhando a suave pele da garganta, morrendo com flocos de crosta de torta nos lábios e manchas de vinho no gibão. E os lamentos do vento no cordame faziam-lhe lembrar o terrível e agudo som de sugar que ele tinha feito enquanto lutava para inspirar ar. Às vezes sonhava também com Tyrion.
– Ele não fez nada – tinha dito ao Mindinho quando ele fez uma visita à sua cabine para ver se ela estava se sentindo melhor.
– Ele não matou Joffrey, é verdade, mas as mãos do anão estão longe de estar limpas. Teve uma esposa antes de você, sabia?
– Ele contou-me.
– E ele contou que, quando se cansou dela, deu-a de presente aos guardas do pai? Podia ter feito o mesmo com você, a seu tempo. Não derrame lágrimas pelo Duende, senhora.
O vento fez correr dedos salgados por seus cabelos, e Sansa estremeceu. Até tão perto da costa, o balanço do barco deixava seu estômago indisposto. Precisava desesperadamente de um banho e de uma muda de roupa. Devo parecer tão descomposta como um cadáver, e cheiro a vômito.
Lorde Petyr surgiu a seu lado, alegre como sempre.
– Bom dia. O ar salgado é tonificante, não lhe parece? Aguça-me sempre o apetite. – Rodeou seus ombros com um braço compreensivo. – Está bem? Parece tão pálida.
– É só a minha barriga. O enjoo.
– Um pouco de vinho será bom para isso. Vamos arranjar uma taça para você, assim que estivermos em terra firme. – Petyr apontou para o local onde uma velha torre de pederneira se delineava contra o céu cinzento sem vida, com as ondas se esmagando nas rochas abaixo dela. – Animado, não é? Temo que aqui não haja ancoradouro seguro. Iremos para a terra num bote.
– Aqui? – não queria ir para a terra ali. Tinha ouvido dizer que os Dedos eram um lugar lúgubre, e havia algo de abandonado e desolado na pequena torre. – Não podia ficar no navio até zarparmos para Porto Branco?
– Daqui, o Rei vira para leste rumo a Bravos. Sem nós.
– Mas... senhor, disse... disse que íamos para casa.
– E aqui está ela, por mais miserável que seja. A minha casa ancestral. Temo que não tenha nome. A sede de um grande senhor devia ter um nome, não concorda? Winterfell, Ninho da Águia, Correrrio, esses são castelos. Agora Senhor de Harrenhal, isso soa bem, mas o que era eu antes? Senhor da Bosta de Ovelha e dono do Forte Triste? Falta alguma coisa aí. – Seus olhos cinza-esverdeados olharam-na inocentemente. – Parece perturbada. Achava que nos dirigíamos a Winterfell, querida? Winterfell foi tomado, queimado e saqueado. Todos os que conhecia e amava estão mortos. Os nortenhos que não caíram perante os homens de ferro estão fazendo guerra entre si. Até a Muralha está sob ataque. Winterfell foi o lar de sua infância, Sansa, mas já não é uma criança. É uma mulher-feita, e tem de criar o seu lar.
– Mas não aqui – disse ela, consternada. – Parece tão...
– ... pequeno, sem vida e insignificante? É tudo isso, e ainda pior. Os Dedos são um lugar adorável para quem por acaso for uma pedra. Mas nada tema, não nos demoraremos mais do que uma quinzena. Calculo que a sua tia já esteja a caminho para nos encontrar. – Sorriu. – A Senhora Lysa e eu vamos nos casar.
– Casar? – Sansa estava atordoada. – O senhor e a minha tia?
– O Senhor de Harrenhal e a Senhora do Ninho da Águia.
Disse que era a minha mãe que amava. Mas claro que a Senhora Catelyn estava morta, por isso, mesmo se tivesse amado secretamente Petyr e se lhe tivesse entregado a virgindade, agora não importava.
– Tão silenciosa, senhora – disse Petyr. – Estava certo de que gostaria de me dar a sua bênção. É coisa rara que um rapaz nascido para herdar pedras e cocozinhos de ovelha se case com a filha de Hoster Tully e viúva de Jon Arryn.
– Eu... eu rezo para que passem longos anos juntos, tenham muitos filhos e sejam muito felizes um com o outro. – Tinham-se passado anos desde que Sansa vira a irmã da mãe. Ela será gentil comigo, certamente. É do meu sangue. E o Vale de Arryn era belo, todas as canções diziam isso. Talvez não fosse assim tão terrível ficar ali durante algum tempo.
Lothor e o velho Oswell assumiram os remos e levaram-nos para terra. Sansa aconchegou-se à proa sob o seu manto com o capuz puxado para proteger a cabeça do vento, interrogando-se sobre o que a esperava. Criados saíram da torre ao encontro do grupo; uma velha magra e uma gorda de meia-idade, dois anciãos de cabelos brancos e uma menina com dois ou três anos e terçol num olho. Quando reconheceram Lorde Petyr, ajoelharam-se nas pedras.
– O meu pessoal – disse ele. – Não conheço a criança. Outro dos bastardos de Kella, suponho. Ela põe um no mundo a cada dois ou três anos.
Os dois velhos entraram na água até as coxas para erguer Sansa do barco de modo que não molhasse as saias. Oswell e Lothos foram espirrando água até chegarem à margem, e o mesmo fez o próprio Mindinho. Este deu à velha um beijo na bochecha e sorriu à mais nova.
– Quem é o pai desta, Kella?
A gorda riu.
– Não sei bem, senhor. Não sou mulher pra lhes dizer que não.
– E todos os moços da terra são gratos por isso, tenho certeza.
– É bom tê-lo em casa, senhor – disse um dos velhos. Parecia ter pelo menos oitenta anos, mas usava uma brigantina com rebites e uma espada longa presa ao flanco. – De quanto tempo será a sua estadia?
– O menos possível, Bryen, não tenha medo. Diria que o lugar está habitável neste momento?