– Se soubéssemos que vinham, teríamos posto esteiras novas, senhor – disse a velha. – Há um fogo de esterco queimando.
– Nada diz “casa” como o cheiro de esterco queimando. – Petyr virou-se para Sansa. – Grisel foi a minha ama de leite, mas agora toma conta de meu castelo. Umfred é o meu intendente e Bryen... não o nomeei capitão da guarda da última vez que estive aqui?
– Nomeou, senhor. Disse também que ia arranjar mais alguns homens, mas não fez isso. Eu e os cães fazemos todas as vigias.
– E muito bem, tenho certeza. Ninguém fugiu com nenhuma das minhas pedras e cocôs de ovelha, vejo-o claramente. – Petyr indicou com um gesto a gorda. – Kella cuida de meus vastos rebanhos. Quantas ovelhas tenho no momento, Kella?
Ela teve de pensar por um momento.
– Vinte e três, senhor. Havia vinte e nove, mas os cães de Bryen mataram uma e abatemos algumas das outras pra salgar a carne.
– Ah, carneiro frio em salmoura. Devo estar mesmo em casa. Quando quebrar o jejum com ovos de gaivota e sopa de algas, terei certeza.
– Se quiser, senhor – disse a velha chamada Grisel.
Lorde Petyr fez uma careta.
– Venha, vejamos se o meu palácio é tão lúgubre como o recordo. – Subiu a costa à frente dos outros, por rochas tornadas escorregadias por algas em putrefação. Um punhado de ovelhas vagueava em volta da base da torre de pederneira, pastando a escassa grama que crescia entre o curral e o estábulo de telhado de colmo. Sansa teve de pisar com cuidado; havia cocô de ovelha por todo lado.
Lá dentro, a torre parecia ainda menor. Uma escada aberta de pedra corria em volta da parede interior, desde a galeria subterrânea até o telhado. Cada piso não era mais do que um único cômodo. Os criados viviam e dormiam na cozinha, no piso térreo, dividindo o espaço com um enorme mastim malhado e meia dúzia de cães pastores. Por cima havia um pequeno salão, e ainda mais acima o quarto de dormir. Não existiam janelas, mas havia seteiras em intervalos regulares na parede exterior, ao longo da curvatura da escada. Por cima da lareira pendia uma espada longa quebrada e um desgastado escudo de carvalho, com a tinta rachada e descascando.
Sansa não conhecia o símbolo pintado no escudo; uma cabeça de pedra cinza com olhos de fogo em fundo verde-claro.
– O escudo do meu avô – explicou Petyr quando a viu a fitá-lo. – O pai dele nasceu em Bravos e veio para o Vale como mercenário contratado por Lorde Corbray, e por isso o meu avô escolheu a cabeça do Titã como símbolo quando foi armado cavaleiro.
– É muito feroz – disse Sansa.
– Feroz demais, para um cara amigável como eu – disse Petyr. – Prefiro de longe o meu tejo.
Oswell fez mais duas viagens até o Rei Bacalhau para descarregar mantimentos. Entre as cargas que trouxe para terra havia vários tonéis de vinho. Petyr serviu uma taça a Sansa, como prometido.
– Aqui está, senhora, isso deve ajudar a sua barriga, espero eu.
Ter terra firme debaixo dos pés já ajudara, mas Sansa ergueu obedientemente o cálice com ambas as mãos e bebeu um golinho. O vinho era muito bom; uma bela colheita da Árvore, pensou. Tinha toques de carvalho, fruta e noites quentes de verão e os sabores desabrochavam em sua boca como flores abrindo-se ao sol. Só esperava conseguir mantê-lo na barriga. Lorde Petyr estava sendo tão gentil que não queria estragar tudo vomitando em cima dele.
Ele estava estudando-a por sobre seu próprio cálice, com os brilhantes olhos cinza-esverdeados cheios de... seria divertimento? Ou outra coisa? Sansa não tinha certeza.
– Grisel – gritou ele para a velha –, traga um pouco de comida. Nada pesado demais, que a senhora tem uma barriga fraca. Um pouco de fruta poderá, talvez, servir. Oswell trouxe algumas laranjas e romãs do Rei.
– Sim, senhor.
– Seria possível também tomar um banho quente? – perguntou Sansa.
– Eu mando Kella ir buscar água, senhora.
Sansa bebeu outro gole de vinho e tentou pensar em algo polido para dizer, mas Lorde Petyr poupou-a do trabalho. Quando Grisel e os outros criados foram embora, disse:
– Lysa não virá sozinha. Antes de ela chegar, temos de esclarecer quem você é.
– Quem sou... não compreendo.
– Varys tem informantes por todo lado. Se Sansa Stark for vista no Vale, o eunuco vai ficar sabendo dentro de uma volta de lua, e isso criaria lamentáveis... complicações. Não é seguro ser um Stark neste momento. Portanto, diremos ao pessoal de Lysa que é minha filha ilegítima.
– Ilegítima? – Sansa estava horrorizada. – Quer dizer uma bastarda?
– Bem, dificilmente poderia ser minha filha legítima. Nunca tomei esposa, isso é bem sabido. Como se chamaria?
– Eu... poderia usar o nome de minha mãe...
– Catelyn? Um pouco óbvio demais... mas o de minha mãe serviria. Alayne. Você gosta?
– Alayne é bonito. – Sansa esperava conseguir lembrar-se. – Mas eu não poderia ser filha legítima de algum cavaleiro a seu serviço? Ele poderia ter morrido galantemente na batalha, e...
– Não tenho cavaleiros galantes a meu serviço, Alayne. Uma história dessas atrairia tantas perguntas indesejáveis quanto um cadáver atrai corvos. Porém, é falta de educação bisbilhotar a origem dos filhos ilegítimos de um homem. – Ergueu a cabeça. – Então, quem é?
– Alayne... Stone, é? – quando ele confirmou com a cabeça, ela disse: – Mas quem é a minha mãe?
– A Kella?
– Não, por favor – disse ela, mortificada.
– Estava brincando. Sua mãe era uma senhora de Bravos, filha de um príncipe mercador. Conhecemo-nos em Vila Gaivota quando era encarregado do porto. Ela morreu ao dá-la à luz e confiou-a à Fé. Tenho alguns livros devocionais sobre os quais pode passar os olhos. Aprenda a citá-los. Nada desencoraja mais as perguntas indesejadas do que uma torrente de ladainha piedosa. Seja como for, em sua floração decidiu que não era seu desejo ser uma septã e escreveu-me. Foi então que eu soube da sua existência. – Afagou a barba. – Acha que é capaz de se lembrar de tudo isso?
– Espero que sim. Será como jogar um jogo, não é?
– Gosta de jogos, Alayne?
Ia ter de habituar-se ao novo nome.
– Jogos? Eu... suponho que dependeria de...
Grisel reapareceu antes de poder dizer mais, equilibrando uma grande bandeja. Apoiou-a entre ambos. Havia maçãs, peras e romãs, um punhado de uvas feiosas, uma enorme laranja sanguínea. A velha tinha trazido também uma rodela de pão e um pote de manteiga. Petyr cortou uma romã em duas com o seu punhal e ofereceu metade a Sansa.
– Devia tentar comer, senhora.
– Obrigada, senhor. – As sementes de romã sujavam tanto; Sansa preferiu uma pera, e deu uma pequena mordidinha delicada. Estava muito madura; o sumo escorreu pelo seu queixo.
Lorde Petyr desalojou uma semente com a ponta do punhal.
– Deve sentir terrivelmente a falta de seu pai, eu sei. Lorde Eddard era um homem corajoso, honesto e leal... mas um jogador bastante incapaz. – Levou a semente à boca com a faca. – Em Porto Real, há dois tipos de pessoas. Os jogadores e as peças.
– E eu era uma peça? – receou a resposta.
– Sim, mas não deixe que isso a perturbe. Ainda é quase uma criança. Todos os homens começam sendo peças, e todas as donzelas também. Mesmo alguns que acham que são jogadores. – Comeu outra semente. – Cersei, para começar. Julga-se astuta, mas na verdade é completamente previsível. Sua força reside na beleza, no nascimento e na riqueza. Só a primeira dessas coisas é realmente dela, e em breve a abandonará. Nessa hora, terei pena dela. Deseja o poder, mas não tem ideia do que fazer com ele quando o obtém. Todo mundo quer alguma coisa, Alayne. E quando ficar sabendo o que um homem quer, saberá quem ele é, e como jogar com ele.
– Tal como jogou com Sor Dontos para envenenar Joffrey? – concluíra que tinha de ter sido Sor Dontos.