Mindinho riu.
– Sor Dontos, o Tinto, era um odre de vinho com pernas. Nunca poderia ser confiada a ele uma tarefa de tal magnitude. Ele, se não a estragasse, teria me traído. Não, tudo que Dontos teve de fazer foi tirá-la do castelo... e assegurar-se de que usava a rede de prata para cabelos.
As ametistas negras.
– Mas... se não foi Dontos, quem? Você tem outras... peças?
– Poderia virar Porto Real do avesso e não encontraria um único homem com um tejo cosido sobre o coração, mas isso não significa que eu não tenho amigos. – Petyr dirigiu-se até junto da escada. – Oswell, venha aqui em cima e deixe que a Senhora Sansa olhe para você.
O velho apareceu alguns momentos mais tarde, sorrindo e fazendo uma reverência. Sansa examinou-o, incerta.
– O que eu deveria estar vendo?
– Não o conhece? – perguntou Petyr.
– Não.
– Olhe melhor.
Sansa estudou o rosto do velho, enrugado e queimado pelo vento, seu nariz adunco, os cabelos brancos e as enormes mãos nodosas. Havia algo de familiar nele, mas Sansa teve de sacudir a cabeça.
– Não o conheço. Nunca vi Oswell antes de entrar no barco dele, tenho certeza.
Oswell sorriu, mostrando uma boca cheia de dentes tortos.
– Não, mas a senhora talvez tenha conhecido os meus três filhos.
Foram os “três filhos” e também aquele sorriso.
– Kettleblack! – os olhos de Sansa esbugalharam-se. – É um Kettleblack!
– Sim, senhora, às suas ordens.
– Ela está fora de si de alegria. – Lorde Petyr mandou-o embora com um gesto e voltou à romã enquanto Oswell descia os degraus. – Diga-me, Alayne... o que é mais perigoso, o punhal brandido por um inimigo, ou o punhal escondido encostado às suas costas por alguém que não chega a ver?
– O punhal escondido.
– Aí está uma garota esperta. – Ele sorriu, com os lábios finos tornados vermelhos pelas sementes de romã. – Quando o Duende mandou os guardas dela embora, a rainha mandou Sor Lancel contratar-lhe mercenários. Lancel encontrou os Kettleblack, o que deliciou o pequeno senhor seu esposo, visto que os rapazes eram pagos por ele através do seu homem, Bronn. – Petyr soltou um risinho. – Mas fui eu quem disse a Oswell para mandar os filhos para Porto Real quando soube que Bronn andava à procura de espadas. Três punhais escondidos, Alayne, agora perfeitamente posicionados.
– Então um dos Kettleblack pôs o veneno na taça de Joff? – lembrou-se de que Sor Osmund tinha passado a noite inteira perto do rei.
– Terei dito isso? – Lorde Petyr cortou a laranja sanguínea em duas com o punhal e ofereceu metade a Sansa. – Os rapazes são traiçoeiros demais para participarem de uma tramoia dessas... e Osmund tornou-se especialmente indigno de confiança desde que entrou para a Guarda Real. Acho que aquele manto branco faz coisas aos homens. Até a homens como ele. – Inclinou o queixo para trás e espremeu a laranja sanguínea para que o sumo escorresse para sua boca. – Adoro o sumo, mas abomino os dedos pegajosos – reclamou, limpando as mãos. – Mãos limpas, Sansa. Faça o que fizer, assegure-se de que as suas mãos estejam limpas.
Sansa levou à boca um pouco de sumo de sua laranja com uma colher.
– Mas se não foram os Kettleblack e não foi Sor Dontos... você nem sequer estava na cidade, e não pode ter sido Tyrion...
– Não quer fazer outra tentativa, querida?
Ela sacudiu a cabeça.
– Eu não...
Petyr sorriu.
– Aposto que a certa altura durante a noite alguém lhe disse que a rede para cabelos estava torta e a endireitou para você.
Sansa levou uma mão à boca.
– Não pode querer dizer... ela queria me levar para Jardim de Cima, para me casar com o neto...
– O gentil e piedoso Willas Tyrell, com a sua boa índole. Fique grata por ter sido poupada, ele teria aborrecido você até a morte. Mas a velha não é entediante, admito. Uma temível velha bruxa, e que não é nem de perto tão frágil como finge ser. Quando cheguei a Jardim de Cima para regatear a mão de Margaery, ela deixou que o senhor seu filho fanfarronasse enquanto ela fazia perguntas mordazes a respeito da natureza de Joffrey. Elogiei-o até os céus, com certeza... enquanto os meus homens espalhavam histórias perturbadoras entre os criados de Lorde Tyrell. É assim que se joga o jogo.
“Também plantei a ideia de Sor Loras vestir o branco. Não que o tenha sugerido, isso teria sido rude demais. Mas homens em minha comitiva disseminaram medonhas histórias sobre o modo como o povo tinha matado Sor Preston Greenfield e violado a Senhora Lollys, e fiz chegar algumas moedas de prata ao exército de cantores de Lorde Tyrell para que cantassem sobre Ryam Redwyne, Serwyn do Escudo Espelhado e Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão. Uma harpa pode ser tão perigosa como uma espada, nas mãos certas.
“Mace Tyrell pensou mesmo que era sua a ideia de fazer a inclusão de Sor Loras na Guarda Real parte do contrato de casamento. Quem melhor para proteger a filha do que o seu magnífico irmão cavaleiro? E aliviou-o da difícil tarefa de tentar encontrar terras e uma noiva para um terceiro filho, o que nunca é fácil, e se torna duplamente difícil no caso de Sor Loras.
“Mas, seja como for, a Senhora Olenna não estava disposta a permitir que Joff fizesse mal à sua preciosa e querida neta, mas ao contrário do filho também compreendeu que, sob as suas flores e trajes finos, Sor Loras é tão temperamental quanto Jaime Lannister. Atire Joffrey, Margaery e Loras numa panela, e tem os ingredientes para um guisado de regicida. A velha compreendeu também outra coisa. O filho estava decidido a fazer de Margaery uma rainha, e para isso precisava de um rei... mas não precisava de Joffrey. Teremos em breve outro casamento, espere e verá. Margaery casará com Tommen. Manterá a sua coroa de rainha e a sua virgindade, nenhuma das quais deseja em especial, mas que importa isso? A grande aliança ocidental será preservada... pelo menos por algum tempo.”
Margaery e Tommen. Sansa não sabia o que dizer. Gostava de Margaery Tyrell e também de sua pequena avó de língua afiada. Tinha pensado com anseio em Jardim de Cima, com seus pátios e músicos, e as barcaças de prazer no Vago; a uma distância enorme daquela costa desolada. Pelo menos aqui estou a salvo. Joffrey está morto, já não pode me machucar, e agora sou só uma bastarda. Alayne Stone não tem marido e não tem pretensões. E, além disso, a tia estaria ali em breve. O longo pesadelo de Porto Real tinha ficado para trás e sua caricatura de casamento também. Podia criar para si um novo lar ali, tal como Petyr havia dito.
Passaram-se oito longos dias até Lysa Arryn chegar. Choveu em cinco desses dias, enquanto Sansa permanecia sentada, entediada e inquieta junto à lareira, ao lado do velho cão cego. O animal estava doente e desdentado demais para montar guarda com Bryen, e o que fazia era principalmente dormir, mas quando ela lhe fez festas ele ganiu e lambeu sua mão, e depois disso tornaram-se bons amigos. Quando as chuvas pararam, Petyr percorreu com ela o perímetro de sua propriedade, o que demorou menos de meio dia. Ele possuía um monte de pedras, tal como tinha dito. Havia um local onde a maré saltava de uma furna, projetando-se dez metros no ar, e um outro onde alguém esculpira a estrela de sete pontas dos deuses novos num pedregulho. Petyr disse que aquilo marcava um dos locais onde os ândalos tinham desembarcado, quando vieram do outro lado do mar para arrancar o Vale das mãos dos Primeiros Homens.
Mais para o interior, uma dúzia de famílias vivia em cabanas de pedras empilhadas ao lado de uma turfeira.
– A minha plebe – disse Petyr, embora só o mais velho parecesse conhecê-lo. Havia também uma gruta de eremita em suas terras, mas sem eremita. – Ele agora está morto, mas quando eu era rapaz, meu pai levou-me para visitá-lo. O homem não se lavava havia quarenta anos, portanto pode imaginar o cheiro, mas supostamente tinha o dom da profecia. Apalpou-me um pouco e disse que eu seria um grande homem, e por isso o meu pai deu-lhe um odre de vinho. – Petyr fungou. – Eu teria dito a mesma coisa por meia taça.