Por fim, numa tarde cinzenta e ventosa, Bryen correu de volta à torre com os cães latindo logo atrás, para anunciar que se aproximavam cavaleiros vindos de sudoeste.
– Lysa – disse Lorde Petyr. – Venha, Alayne, vamos ao encontro dela.
Vestiram os mantos e esperaram lá fora. Os cavaleiros não eram mais de uma vintena; uma escolta muito modesta para a Senhora do Ninho da Águia. Acompanhavam-na três aias, bem como uma dúzia de cavaleiros envergando cota de malha e placa de peito. Tinha trazido também um septão e um cantor atraente com um bigode fino e longos caracóis cor de areia.
Poderá aquela ser a minha tia? A Senhora Lysa era dois anos mais nova do que sua mãe, mas aquela mulher parecia dez anos mais velha. Grossas tranças ruivas caíam-lhe abaixo da cintura, mas sob o dispendioso vestido de veludo e corpete decorado com pedras preciosas, o corpo mostrava-se flácido e saliente. O rosto vinha rosado e pintado, os seios eram pesados, os membros, grossos. Era mais alta do que Mindinho e também mais pesada; e não mostrou qualquer graça no modo desajeitado com que desceu do cavalo.
Petyr ajoelhou para lhe beijar os dedos.
– O pequeno conselho do rei ordenou-me que a cortejasse e conquistasse, senhora. Acredita que poderá me aceitar como seu senhor e esposo?
A Senhora Lysa projetou os lábios e puxou-o de volta em pé, para plantar um beijo em sua bochecha.
– Oh, talvez possa ser convencida. – Soltou um risinho. – Trouxe presentes para derreter meu coração?
– A paz do rei.
– Oh, que se dane a paz, o que mais me trouxe?
– A minha filha. – Mindinho fez sinal com uma mão a Sansa para avançar. – Senhora, permita-me que lhe apresente Alayne Stone.
Lysa Arryn não pareceu grandemente satisfeita por vê-la. Sansa fez uma profunda reverência, com a cabeça baixa.
– Uma bastarda? – ouviu a tia dizer. – Petyr, foi maroto? Quem era a mãe?
– A moça está morta. Tinha a esperança de levar Alayne para o Ninho da Águia.
– O que farei com ela lá?
– Tenho algumas ideias – disse Lorde Petyr. – Mas neste momento estou mais interessado no que farei com a senhora.
Toda a severidade derreteu no rosto redondo e rosado da tia, e por um momento Sansa pensou que Lysa Arryn estivesse a ponto de chorar.
– Querido Petyr, tive tantas saudades suas, não faz ideia, não pode fazer ideia. Yohn Royce tem andado instigando toda espécie de problemas, exigindo que eu convoque os vassalos e parta para a guerra. E todos os outros enxameiam à minha volta, Hunter, Corbray e aquele horrendo Nestor Royce, todos desejando desposar-me e tomar o meu filho como protegido, mas nenhum deles me ama realmente. Só você, Petyr. Sonhei com você durante tanto tempo.
– E eu com você, senhora. – Passou um braço pelas costas dela e beijou-a no pescoço. – Quando podemos nos casar?
– Já – disse a Senhora Lysa, suspirando. – Trouxe o meu próprio septão e um cantor, e hidromel para o banquete de casamento.
– Aqui? – aquilo não lhe agradou. – Preferiria casar com a senhora no Ninho da Águia, com toda a corte presente.
– Que se dane a corte. Esperei durante tanto tempo que não aguento esperar nem mais um momento. – Envolveu-o com os braços. – Quero partilhar a sua cama esta noite, meu querido. Quero que façamos outro filho, um irmão para Robert ou uma doce filhinha.
– Eu também sonhei com isso, querida. Mas há muito a ganhar com uma grande boda pública, com todo o Vale...
– Não. – Lysa bateu o pé. – Quero-o agora, nesta mesma noite. E devo prevenir-lo de que depois de todos esses anos de silêncio e sussurros pretendo gritar quando me amar. Vou gritar tão alto que vão me ouvir no Ninho da Águia.
– Talvez possa dormir com você agora e casar mais tarde?
A Senhora Lysa soltou risinhos como se fosse uma menina.
– Oh, Petyr Baelish, você é tão maroto. Não, não, eu sou a Senhora do Ninho da Águia e ordeno que se case comigo neste exato momento.
Petyr encolheu os ombros.
– Nesse caso, seja como a senhora ordena. Sou impotente perante você, como sempre.
Proferiram seus votos menos de uma hora depois, em pé sob um dossel azul-celeste enquanto o sol se afundava a oeste. Depois, mesas foram montadas junto da pequena torre de pederneira e banquetearam-se com codorna, veado e javali assado, empurrando tudo com um bom e leve hidromel. Archotes foram acesos quando o ocaso se instalou. O cantor de Lysa tocou “O voto não proferido”, “Estações do meu amor” e “Dois corações que batem como um só”. Vários jovens cavaleiros até pediram a Sansa para dançar. A tia também dançou, fazendo rodopiar as saias quando Petyr a girou nos seus braços. O hidromel e o casamento tinham tirado anos de cima da Senhora Lysa. Ria de tudo desde que segurasse a mão do marido, e os olhos pareciam cintilar sempre que o olhava.
Quando chegou a hora de os levarem para a cama, os cavaleiros carregaram-na para a torre, despindo-a no caminho e gritando gracejos lascivos. Tyrion poupou-me disso, recordou Sansa. Não teria sido assim tão ruim ser despida para um homem que amasse, por amigos que os amassem a ambos. Mas por Joffrey... Estremeceu.
A tia só tinha trazido três senhoras consigo, por isso insistiram com Sansa para que ajudasse a despir Lorde Petyr e a empurrá-lo para a sua cama de núpcias. Ele submeteu-se com boa vontade e uma língua maliciosa, devolvendo o que recebia. Quando o conseguiram pôr dentro da torre e fora da roupa, as outras mulheres estavam coradas, com cordões soltos, vestidos tortos, saias em desarranjo. Mas Mindinho só sorria a Sansa enquanto o levavam para o quarto onde a senhora sua esposa esperava.
A Senhora Lysa e o Lorde Petyr tinham o quarto do terceiro andar para si, mas a torre era pequena... e cumprindo a promessa que havia feito, a tia gritou. Tinha começado a chover lá fora, levando os convivas para o salão um piso mais abaixo, e assim ouviram quase todas as palavras.
– Petyr – gemeu a tia de Sansa. – Oh, Petyr, Petyr, querido Petyr, oh oh oh. Aí, Petyr, aí. É aí o seu lugar. – O cantor da Senhora Lysa lançou-se numa versão lasciva de “O jantar da senhora”, mas nem mesmo a sua voz e o som do instrumento foram capazes de abafar os gritos de Lysa. – Faça-me um bebê, Petyr – gritou –, faça-me outro bebezinho, querido. Oh, Petyr, meu precioso, meu precioso, PEEEEEEEEEETYR! – O último guincho foi tão alto que pôs os cães para ladrar, e duas das damas da tia quase não conseguiram conter o riso.
Sansa desceu a escada e penetrou na noite. Caía uma chuva ligeira sobre os restos do banquete, mas o ar tinha um cheiro fresco e limpo. A memória da sua noite de núpcias com Tyrion não a deixava. “No escuro, sou o Cavaleiro das Flores”, ele tinha dito. “Poderia ser bom para você.” Mas aquela foi apenas mais uma mentira Lannister. “Um cão consegue farejar uma mentira, sabe?”, disse-lhe um dia o Cão de Caça. Quase conseguia ouvir a aspereza rude de sua voz. “Olhe em volta e dê uma boa fungadela. Aqui são todos mentirosos... e todos eles são melhores do que você.” Perguntou a si mesma o que teria acontecido a Sandor Clegane. Saberia que Joffrey tinha sido morto? Será que se importaria? Durante anos, ele fora o escudo juramentado do rei.
Permaneceu fora durante bastante tempo. Quando por fim foi em busca de sua cama, molhada e friorenta, só o tênue clarão de um fogo de esterco iluminava o salão escurecido. Não se ouvia um som vindo de cima. O jovem cantor estava sentado em um canto, tocando uma canção lenta para si mesmo. Uma das aias da tia beijava um cavaleiro no cadeirão de Lorde Petyr, ambos com as mãos atarefadas debaixo das roupas do outro. Vários homens tinham bebido até adormecer e um estava na latrina, vomitando ruidosamente. Sansa foi encontrar o velho cão cego de Bryen na sua pequena alcova debaixo da escada e deitou-se ao lado dele. Ele acordou e lambeu-lhe o rosto.