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– O anão era incapaz?

– Não. Ele era só... era... – Gentil? Não podia dizer isso, não ali, àquela tia que o odiava tanto. – Ele... ele tinha prostitutas, senhora. Ele próprio me disse.

– Prostitutas. – Lysa largou seu pulso. – Claro que sim. Que mulher se deitaria com tal criatura, se não por ouro? Devia ter matado o Duende quando esteve em meu poder, mas ele ludibriou-me. É cheio de baixa astúcia, esse aí. O mercenário dele matou o meu bom Sor Vardis Egen. Catelyn não o devia ter trazido para o Ninho, eu disse a ela. E ainda foi embora com o meu tio. Foi um gesto errado. O Peixe Negro era o meu Cavaleiro do Portão, e desde que nos deixou os clãs da montanha têm se tornado muito ousados. Mas Petyr em breve deixará tudo isso como deve ser. Farei dele Senhor Protetor do Vale. – A tia sorriu pela primeira vez, quase com calor. – Ele pode não ser tão alto ou forte como certos homens, mas vale mais do que todos eles. Confie nele e faça o que lhe disser.

– Farei, tia... senhora.

A Senhora Lysa pareceu agradada com aquilo.

– Eu conheci o rapaz, o Joffrey. Costumava chamar o meu Robert por nomes cruéis, e uma vez bateu nele com uma espada de madeira. Um homem dirá que o veneno é desonroso, mas a honra de uma mulher é diferente. A Mãe talhou-nos para protegermos nossos filhos, e nossa única desonra reside no fracasso. Saberá disso quando tiver um filho.

– Um filho? – disse Sansa com incerteza.

Lysa fez um gesto negligente com a mão.

– Não será antes de se passarem muitos anos. É nova demais para ser mãe. Mas um dia vai querer filhos. Tal como vai querer se casar.

– Eu... eu sou casada, senhora.

– Sim, mas em breve será viúva. Fique feliz por o Duende preferir as rameiras dele. Não teria sido adequado que o meu filho recebesse as sobras daquele anão, mas como nunca a tocou... Que acharia de se casar com o seu primo, Lorde Robert?

A ideia abateu Sansa. Tudo o que sabia sobre Robert Arryn era que se tratava de um garotinho, e enfermiço. Não é comigo que ela quer que o filho case, é com a minha pretensão. Ninguém casará comigo por amor. Mas mentir era agora fácil.

– Eu... mal posso esperar para conhecê-lo, senhora. Mas ele ainda é uma criança, não é?

– Tem oito anos. E não é robusto. Mas é um rapaz tão bom, tão vivo e inteligente. Será um grande homem, Alayne. A semente é forte, disse o senhor meu esposo antes de morrer. Foram as suas últimas palavras. Os deuses deixam-nos às vezes vislumbrar o futuro quando estamos morrendo. Não vejo motivo para que não possa se casar assim que souber que o seu marido Lannister está morto. Um casamento secreto, claro. Não se pode pensar que o Senhor do Ninho da Águia se casaria com uma bastarda, isso não seria próprio. Os corvos devem trazer-nos a notícia de Porto Real quando a cabeça do Duende rolar. Você e Robert poderão se casar no dia seguinte, não seria isso uma alegria? Será bom para ele ter uma pequena companheira. Ele brincava com o filho de Vardis Egen quando voltamos ao Ninho da Águia, e também com os filhos de meu intendente, mas sempre foram duros demais, e não tive alternativa exceto mandá-los embora. Lê bem, Alayne?

– A Septã Mordane tinha a gentileza de dizer que sim.

– Robert tem olhos fracos, mas gosta que leiam coisas para ele – confidenciou a Senhora Lysa. – Gosta de histórias sobre animais, principalmente. Conhece aquela cançãozinha sobre a galinha que se vestiu de raposa? Canto-a para ele o tempo todo, e ele nunca se cansa. E gosta de brincar de salto das rãs, de gira a espada, e de entra no meu castelo, mas tem de deixar que ganhe sempre. É apropriado, não acha? Afinal de contas, ele é o Senhor do Ninho da Águia, não pode nunca se esquecer disso. É bem-nascida, e os Stark de Winterfell sempre foram orgulhosos, mas Winterfell caiu, e agora na realidade não passa de uma pedinte, portanto deixe esse orgulho de lado. A gratidão caberá melhor a você, nas atuais circunstâncias. Sim, e a obediência. Meu filho terá uma esposa grata e obediente.

Jon

Os machados ressoavam dia e noite. Jon já não se lembrava da última vez que tinha dormido. Quando fechava os olhos, sonhava com a luta; quando acordava, lutava. Mesmo na Torre do Rei ouvia o incessante tunc de bronze, pederneira e aço roubados mordendo a madeira, e ouvia-o mais alto quando tentava descansar na cabana de aquecimento no topo da Muralha. Mance também tinha martelos trabalhando, assim como longas serras com dentes de osso e pederneira. Uma vez, quando Jon estava deslizando para um sono exausto, ouviu-se um grande estalo vindo da floresta assombrada e uma árvore-sentinela caiu numa nuvem de poeira e agulhas.

Quando Owen veio buscá-lo, estava acordado, tentando sem sucesso arranjar posição numa pilha de peles espalhada sobre o chão da cabana de aquecimento.

– Lorde Snow – disse Owen, sacudindo seu ombro –, a alvorada. – Estendeu uma mão a Jon para ajudá-lo a ficar em pé. Outros homens também estavam acordando, acotovelando-se uns aos outros enquanto calçavam as botas e afivelavam o cinto da espada no apertado confinamento da cabana. Ninguém falava. Estavam todos cansados demais para falar. Por aqueles dias, eram poucos os que chegavam a descer da Muralha. Demorava muito tempo para subir e descer na gaiola. Castelo Negro tinha sido abandonado ao Meistre Aemon, a Sor Wynton Sout e a mais alguns homens, velhos ou enfermos demais para lutar.

– Sonhei que o rei tinha vindo – disse Owen num tom feliz. – Meistre Aemon enviou um corvo, e o Rei Robert veio com todas as suas forças. Sonhei que via os seus estandartes dourados.

Jon obrigou-se a sorrir.

– Isso seria uma visão bem-vinda, Owen. – Ignorando a pontada de dor em sua perna, colocou um manto negro de peles sobre os ombros, apanhou a muleta e saiu para a Muralha, a fim de enfrentar mais um dia.

Uma rajada de vento enfiou finas gavinhas geladas em seus longos cabelos castanhos. A um quilômetro para o norte, os acampamentos dos selvagens acordavam, com as fogueiras erguendo dedos fumacentos para coçar o pálido céu da alvorada. Tinham erguido as suas tendas de peles ao longo do limite da floresta, incluindo mesmo um edifício tosco feito de troncos de árvores e ramos entretecidos; havia linhas de cavalos a leste, mamutes a oeste, e homens por todo lado, afiando as espadas, pondo pontas em lanças rústicas, vestindo armaduras improvisadas de peles, chifre e osso. Para cada homem que conseguia ver, Jon sabia que havia vinte outros invisíveis na floresta. A vegetação dava-lhes algum abrigo contra os ataques e escondia-os dos olhos dos odiados corvos.

Os arqueiros deles já avançavam, empurrando os manteletes rolantes.

– Aí vêm as nossas flechas para o café da manhã – anunciou Pyp alegremente, tal como fazia todas as manhãs. É bom que ele possa fazer disso uma brincadeira, pensou Jon. Alguém tem de fazer. Três dias antes, uma dessas flechas do café da manhã tinha atingido o Alyn Vermelho da Mata de Rosas na perna. Quem se debruçasse o suficiente ainda conseguia ver o seu corpo junto à base da Muralha. Jon tinha de pensar que era melhor eles sorrirem da brincadeira de Pyp do que pensarem a respeito do cadáver de Alyn.

Os manteletes eram escudos de madeira inclinados, suficientemente largos para esconder cinco membros do povo livre. Os arqueiros empurravam-nos para perto da Muralha e depois ajoelhavam-se atrás deles para disparar suas flechas através de fendas abertas na madeira. Da primeira vez que os selvagens os tinham levado, Jon gritou por flechas incendiárias e deixou meia dúzia em chamas, mas depois disso Mance começou a cobri-los com peles cruas. Nem todas as flechas incendiárias do mundo seriam capazes de botar fogo nelas agora. Os irmãos tinham até começado a fazer apostas sobre qual das sentinelas de palha colecionaria mais flechas antes do fim. Edd Doloroso liderava com quatro, mas Othell Yarwyck, Tumberjon e Watt do Lago Longo tinham três cada. Também foi Pyp que começou a batizar os espantalhos com o nome dos irmãos desaparecidos.