O garrano de Jon Snow relinchou baixinho, mas um toque e uma palavra carinhosa rapidamente aquietaram o animal. Seria bom que seus próprios medos fossem acalmados com tanta facilidade quanto os do animal. Estava todo vestido de preto, o negro da Patrulha da Noite, mas o inimigo acompanhava-o, à frente e atrás. Selvagens, e eu estou com eles. Ygritte usava o manto de Qhorin Meia-Mão. Lenyl tinha a camisa de malha dele; a grande esposa de lanças, Ragwyle, as luvas; um dos arqueiros, as botas. O elmo de Qhorin foi ganho pelo pequeno simplório chamado Lança-Longa Ryk, mas encaixava-se mal em sua cabeça estreita, e ele deu-o também a Ygritte. E o Camisa de Chocalho levava os ossos de Qhorin no saco, bem como a cabeça ensanguentada de Ebben, que tinha partido com Jon para bater o Passo dos Guinchos. Mortos, todos mortos, menos eu, e eu estou morto para o mundo.
Ygritte seguia logo atrás dele. À frente ia o Lança-Longa Ryk. O Senhor dos Ossos tinha feito dos dois seus guardas.
– Se o corvo fugir, também fervo os ossos de vocês – preveniu-os quando partiram, sorrindo através dos dentes tortos do crânio de gigante que usava como elmo.
Ygritte gritou para ele.
– Você quer guardá-lo? Se quer que nos encarreguemos disso, deixe-nos em paz e faremos o que pede.
Este é realmente um povo livre, compreendeu Jon. Camisa de Chocalho podia ser o líder, mas nenhum deles se acanhava em dar resposta a ele.
O líder selvagem fitou-o com um olhar pouco amistoso.
– Pode ser que tenha enganado esses aí, corvo, mas não ache que vai enganar Mance. Ele vai olhar uma vez pra você e ver que é um farsante. E quando isso acontecer, vou fazer um manto com o seu lobo ali, e abrir sua barriga mole de rapaz pra costurá-la com uma doninha lá dentro.
A mão de Jon que manejava a espada tinha se aberto e fechado, flexionando os dedos queimados sob a luva, mas o Lança-Longa Ryk limitou-se a rir.
– E onde é que você ia achar uma doninha na neve?
Nessa primeira noite, após um longo dia a cavalo, tinham acampado numa rasa concavidade de pedra, no topo de uma montanha sem nome, aninhando-se junto à fogueira enquanto a neve começava a cair. Jon observava os flocos derreterem enquanto pairavam sobre as chamas. Apesar das camadas de lã, peles e couro, sentia frio até os ossos. Ygritte sentou-se ao seu lado depois de comer, com o capuz levantado e as mãos enfiadas nas mangas, para aquecâ-las.
– Quando Mance ouvir dizer como você deu cabo do Meia-Mão, vai recebê-lo bem depressa – disse-lhe.
– Receber-me onde?
A moça riu com zombaria.
– Recebê-lo como um de nós. Acha que é o primeiro corvo a fugir da Muralha? Lá no fundo, vocês todos só querem voar livres.
– E quando eu for livre – disse ele lentamente –, serei livre para ir embora?
– Claro que sim. – Ela tinha um sorriso quente, apesar dos dentes tortos. – E ele vai ser livre pra matar você. Ser livre é perigoso, mas a maior parte acaba gostando. – Pousou a mão enluvada em sua perna, logo acima do joelho. – Você vai ver.
Vou ver, pensou Jon. Vou ver e ouvir, e aprender, e quando o tiver feito, levarei as novidades de volta para a Muralha. Os selvagens tinham-no tomado por perjuro, mas em seu âmago ainda era um homem da Patrulha da Noite, cumprindo o último dever que Qhorin Meia-Mão depositara nele. Antes de ser morto por mim.
No fundo da encosta depararam-se com um pequeno riacho que descia do sopé dos montes e ia se juntar ao Guadeleite. Parecia todo feito de pedras e gelo, embora conseguissem ouvir o som da água correndo sob a superfície congelada. Camisa de Chocalho atravessou à frente deles, estilhaçando a fina crosta de gelo.
Os batedores de Mance Rayder cercaram-nos quando subiram para a margem. De relance, Jon verificou quantos eram: oito cavaleiros, tanto homens como mulheres, vestidos de peles e couro fervido, com um elmo ou um pouco de cota de malha aqui e ali. Vinham armados com lanças e arpões endurecidos pelo fogo, todos menos o chefe, um louro corpulento, com olhos lacrimejantes, que usava uma grande gadanha curva de aço afiado. O Chorão, compreendeu de imediato. Os irmãos negros contavam histórias sobre ele. Assim como Camisa de Chocalho, Harma Cabeça de Cão e Alfyn Mata-Corvos, era um célebre assaltante.
– O Senhor dos Ossos – disse Chorão quando os viu. Deu uma olhada em Jon e em seu lobo. – E este, quem é?
– Um corvo que passou pro lado de cá – disse Camisa de Chocalho, que preferia ser chamado de Senhor dos Ossos devido à ruidosa armadura que usava. – Tava com medo que eu roubasse os ossos dele como os do Meia-Mão. – Sacudiu o saco de troféus na direção dos outros selvagens.
– Ele matou Qhorin Meia-Mão – disse Lança-Longa Ryk. – Ele e seu lobo.
– E também deu cabo do Orell – disse Camisa de Chocalho.
– O moço é um warg, ou coisa que o valha – interveio Ragwyle, a grande esposa de lanças. – O lobo dele arrancou um pedaço da perna do Meia-Mão.
Os olhos vermelhos e remelentos de Chorão deram outra olhada em Jon.
– Ah, é? Bom, tem certo ar de lobo, agora que o vejo de perto. Levem-no até Mance, pode ser que fique com ele. – Fez o cavalo dar meia-volta e afastou-se a galope, com os companheiros logo atrás.
O vento soprava úmido e pesado quando atravessaram o vale do Guadeleite e avançaram em fila pelo acampamento. Fantasma manteve-se perto de Jon, mas seu cheiro seguia à frente do grupo como um arauto, e logo havia cães dos selvagens por toda a volta, rosnando e latindo. Lenyl gritou-lhes que se calassem, mas não prestaram atenção nele.
– Não gostam muito desse seu animal – comentou Lança-Longa Ryk a Jon.
– São cães e ele é um lobo – disse Jon. – Sabem que não pertence à espécie deles. – Tal como eu não pertenço à sua. Mas tinha de manter seu dever em mente, a tarefa de que Qhorin Meia-Mão o encarregara enquanto partilhavam aquela última fogueira... desempenhar o papel de vira-casaca e encontrar o que quer que fosse que os selvagens tinham andado à procura na estéril desolação fria das Presas de Gelo. “Algum poder”, Qhorin tinha denominado em conversa com o Velho Urso, mas morrera antes de saber que poder seria, ou se Mance Rayder o teria encontrado com suas escavações.
Havia fogueiras para cozinhar ao longo de todo o rio, entre carros, carroças e trenós. Muitos dos selvagens tinham erguido tendas, de couro cru, peles e feltro. Outros abrigavam-se atrás de rochedos, em toldos improvisados, ou dormiam debaixo de suas carroças. Junto a uma fogueira, Jon viu um homem endurecendo a ponta de longas lanças de madeira e atirando-as em uma pilha. Em outro ponto, dois jovens barbudos vestidos de couro fervido lutavam com varas, saltando um sobre o outro por cima das chamas, grunhindo toda vez que um golpe acertava o alvo. Uma dúzia de mulheres estava sentada ali perto, preparando flechas.
Flechas para os meus irmãos, pensou Jon. Flechas para o povo de meu pai, para o povo de Winterfell, Bosque Profundo e Última Lareira. Flechas para o norte.
Mas nem tudo que via era bélico. Vislumbrou também mulheres dançando, e ouviu um bebê chorando, e um garotinho passou correndo diante de seu garrano, todo enrolado em peles e sem fôlego, por causa da brincadeira. Ovelhas e cabras vagueavam livremente, enquanto bois percorriam a margem do rio em busca de pasto. Cheiro de carneiro assado pairava no ar, vindo de uma das fogueiras, e em outra viu um javali sendo girado em um espeto de madeira.
Num espaço aberto rodeado por grandes pinheiros marciais, Camisa de Chocalho desmontou.
– Acampamos aqui – disse a Lenyl, Ragwyle e os outros. – Deem de comer aos cavalos, depois aos cães, depois a vocês. Ygritte, Lança-Longa, tragam o corvo para que Mance possa dar uma olhada nele. Vamos estripá-lo depois.