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– Vou para onde? Quem são vocês?

O homem alto fez um gesto, e dois dos outros arrancaram Jon da cama. Com a lanterna a iluminar o caminho levaram-no da cela e subiram meia volta de escada, até o aposento privado do Velho Urso. Viu Meistre Aemon em pé junto da lareira, com as mãos fechadas em volta do punho de uma bengala de abrunheiro. Septão Cellador estava meio bêbado, como de costume, e Sor Wynton Stout dormia num banco de janela. Os outros irmãos eram-lhe estranhos. Todos menos um.

Imaculado em seu manto forrado de peles e suas botas polidas, Sor Alliser Thorne virou-se para dizer:

– Aí está o vira-casaca, senhor. O bastardo de Ned Stark, de Winterfell.

– Não sou nenhum vira-casaca, Thorne – disse friamente Jon.

– Veremos. – Na cadeira de couro por trás da mesa onde o Velho Urso escrevia as suas cartas estava sentado um homem grande, largo e queixudo que Jon não conhecia. – Sim, veremos – voltou a dizer. – Não irá negar que é Jon Snow, espero? O bastardo do Stark?

– Ele gosta de se chamar de Lorde Snow. – Sor Alliser era um homem magro, esguio, compacto e vigoroso, e naquele momento seus olhos cruéis estavam escuros de divertimento.

– Foi você quem me apelidou de Lorde Snow – disse Jon. Sor Alliser gostava de dar alcunhas aos rapazes que treinava, durante os tempos passados como mestre de armas de Castelo Negro. O Velho Urso enviara Thorne para Atalaialeste-do-Mar. Os outros devem ser homens de Atalaialeste. A ave chegou a Cotter Pyke e ele enviou-nos ajuda. – Quantos homens trouxe? – perguntou ao homem sentado atrás da mesa.

– Quem faz perguntas sou eu – respondeu o queixudo. – Foi acusado de quebrar seus votos, covardia e deserção, Jon Snow. Nega ter abandonado os seus irmãos à morte no Punho dos Primeiros Homens e nega ter se juntado ao selvagem Mance Rayder, o autoproclamado Rei-para-lá-da-Muralha?

Abandonado...? – Jon quase se engasgou com a palavra.

Meistre Aemon interveio então.

– Senhor, Donal Noye e eu discutimos estes assuntos quando Jon Snow voltou para junto de nós, e ficamos satisfeitos com as explicações dele.

– Bem, eu não estou satisfeito, meistre – disse o queixudo. – Vou ouvir com os meus ouvidos essas explicações. Ah, se vou!

Jon engoliu a ira.

– Não abandonei ninguém. Deixei o Punho na companhia de Qhorin Meia-Mão para bater o Passo dos Guinchos. Juntei-me aos selvagens sob ordens. Meia-Mão temia que Mance pudesse ter encontrado o Berrante do Inverno...

– O Berrante do Inverno? – Sor Alliser soltou um risinho. – Também lhe foi ordenado que contasse os snarks deles, Lorde Snow?

– Não, mas contei os seus gigantes o melhor que pude.

Sor – exclamou o queixudo. – Irá se dirigir a Sor Alliser como sor, e a mim como senhor. Sou Janos Slynt, Senhor de Harrenhal e comandante aqui em Castelo Negro enquanto Bowen Marsh não voltar com a sua guarnição. Irá nos tratar com cortesia, ah, sim. Não admito ouvir um cavaleiro ungido como o bom Sor Alliser ser escarnecido pelo bastardo de um traidor. – Ergueu uma mão e espetou um dedo carnudo no rosto de Jon. – Nega ter levado uma mulher selvagem para a sua cama?

– Não. – O luto de Jon por Ygritte estava fresco demais para negá-la agora. – Não, senhor.

– Suponho que também tenha sido o Meia-Mão que ordenou que fodesse essa puta suja? – perguntou Sor Alliser com um sorriso afetado.

Sor. Ela não era puta nenhuma, sor. Meia-Mão disse-me para não me recusar, não importa o que os selvagens me pedissem, mas... não negarei que fui além do que tinha de fazer, que... gostava dela.

– Então admite que quebrou os seus votos – disse Janos Slynt.

Jon sabia que metade dos homens de Castelo Negro visitavam Vila Toupeira de tempos em tempos para escavar em busca de tesouros enterrados no bordel, mas não desonraria Ygritte igualando-a às prostitutas de Vila Toupeira.

– Quebrei os meus votos com uma mulher. Isso admito. Sim.

– Sim, senhor! – quando Slynt franzia a testa, sua papada e seu queixo estremeciam. Era tão largo quanto o Velho Urso fora, e sem dúvida ia se tornar igualmente calvo se vivesse até a idade de Mormont. Metade de seus cabelos já tinha desaparecido, embora não pudesse ter mais de quarenta anos.

– Sim, senhor – disse Jon. – Cavalguei com os selvagens e comi com eles, como o Meia-Mão me ordenou que fizesse, e partilhei as peles com Ygritte. Mas juro-lhe que nunca virei a casaca. Fugi do Magnar assim que pude, e nunca levantei armas contra os meus irmãos ou o reino.

Os pequenos olhos de Lorde Slynt estudaram-no.

– Sor Glendon – ordenou. – Traga o outro prisioneiro.

Sor Glendon era o homem alto que tinha arrancado Jon da cama. Mais quatro homens acompanharam-no quando saiu da sala, mas retornaram pouco depois com um cativo, um homem pequeno, pálido, maltratado e de mãos e pés agrilhoados. Tinha as sobrancelhas unidas, o cabelo muito recuado nas têmporas e um bigode que parecia uma mancha de sujeira no lábio superior, mas o rosto estava inchado e manchado de hematomas, e tinha perdido a maior parte dos dentes da frente.

Os homens de Atalaialeste atiraram rudemente o cativo ao chão. Lorde Slynt olhou-o, de testa franzida.

– É este aquele de quem falou?

O cativo piscou olhos amarelos.

– É. – Foi só nesse instante que Jon reconheceu o Camisa de Chocalho. É um homem diferente sem a armadura, pensou. – É – repetiu o selvagem –, é o covarde que matou o Meia-Mão. Lá em cima nas Presas de Gelo, foi, depois de a gente ter caçado os outros corvos e matado todos. Queríamos também tratar deste, mas ele implorou por sua vida inútil, ofereceu-se pra se juntar à gente se o aceitássemos. O Meia-Mão jurou que antes disso ia ver o covarde morto, mas o lobo quase desfez Qhorin aos pedaços, e este aqui abriu a goela dele. – Então concedeu a Jon um sorriso de dentes quebrados e cuspiu sangue sobre os pés dele.

– E então? – perguntou Janos Slynt a Jon num tom duro. –Você nega? Ou irá dizer que Qhorin o ordenou que o matasse?

– Ele disse-me... – As palavras custaram a vir. – Ele disse-me para fazer não importa o que me pedissem.

Slynt olhou em volta do aposento privado, para os outros homens de Atalaialeste.

– Será que este rapaz pensa que eu caí de cabeça em uma carroça de nabos?

– Suas mentiras não vão salvá-lo agora, Lorde Snow – preveniu Sor Alliser Thorne. – Obteremos de você a verdade, bastardo.

– Eu disse-lhe a verdade. Nossos garranos estavam fraquejando, e o Camisa de Chocalho estava próximo. Qhorin disse-me para fingir que estava me juntando aos selvagens. “Não pode se recusar, não importa o que lhe seja solicitado”, disse ele. Qhorin sabia que iam me obrigar a matá-lo. Camisa de Chocalho ia matá-lo de qualquer forma, e ele também sabia disso.

– Então agora diz que o grande Qhorin Meia-Mão temia esta criatura? – Slynt olhou para Camisa de Chocalho e resfolegou.

– Todos os homens temem o Senhor dos Ossos – resmungou o selvagem. Sor Glendon chutou-o e ele calou-se.

– Eu não disse isso – insistiu Jon.

Slynt bateu o punho contra a mesa.

– Eu ouvi-o! Sor Alliser avaliou-o bem, segundo parece. Mente com os dentes de bastardo que tem na boca. Bem, não tolerarei isso. Não tolerarei! Pode ter enganado este ferreiro aleijado, mas não engana Janos Slynt! Ah, não. Janos Slynt não engole mentiras assim tão facilmente. Acha que o meu crânio está recheado de couves?

– Não sei do que é que está recheado o seu crânio. Senhor.