– Que tipo de coisas?
– Coisas indescritíveis. – Enquanto as lágrimas rolavam lentamente por aquele rosto bonito, não havia dúvida de que todos os homens presentes no salão desejavam tomar Shae nos braços e confortá-la. – Com a boca e... outras partes do corpo, senhor. Todas as partes. Ele usou-me de todas as maneiras que há e... costumava me obrigar a dizer como ele era grande. O meu gigante, eu tinha de lhe chamar, o meu gigante de Lannister.
Osmund Kettleblack foi o primeiro a rir. Boros e Meryn juntaram-se a ele, e depois Cersei, Sor Loras e mais senhores e senhoras do que conseguia contar. A súbita rajada de hilaridade ressoou nas vigas e sacudiu o Trono de Ferro.
– É verdade – protestou Shae. – O meu gigante de Lannister. – As gargalhadas tornaram-se duas vezes mais ruidosas. A boca deles se torceu de diversão, as barrigas balançavam. Alguns riam tanto que expeliam ranho das narinas.
Salvei-os a todos, pensou Tyrion. Salvei esta cidade vil e todas as suas vidas sem valor. Havia centenas de pessoas na sala do trono, todas elas rindo, menos o pai de Tyrion. Ou pelo menos era o que parecia. Até a Víbora Vermelha riu alto, e Mace Tyrell parecia a ponto de estourar, mas Lorde Tywin Lannister permanecia sentado no meio deles como se fosse feito de pedra, com os dedos juntos por baixo do queixo.
Tyrion avançou.
– SENHORES! – gritou. Tinha de gritar, para ter alguma esperança de ser ouvido.
O pai levantou uma mão. Pouco a pouco, o salão voltou ao silêncio.
– Levem esta puta mentirosa para longe de minha vista – disse Tyrion – e eu darei a vocês a sua confissão.
Lorde Tywin assentiu, fez um gesto. Shae pareceu meio aterrorizada quando os homens de manto dourado a cercaram. Seus olhos encontraram-se com os de Tyrion quando ela foi levada do salão. Teria sido vergonha o que viu neles, ou medo? Perguntou a si mesmo o que Cersei lhe teria prometido. Receberá o ouro ou as joias, o que quer que tenha pedido, pensou enquanto via as costas dela se afastando, mas antes da volta da lua ela vai ter você entretendo os homens de manto dourado em suas casernas.
Tyrion ergueu o olhar para os olhos duros e verdes do pai, com as suas manchas de ouro frio e brilhante.
– Sou culpado – disse –, tão culpado. É isso o que querem ouvir?
Lorde Tywin nada disse. Mace Tyrell assentiu. O Príncipe Oberyn pareceu moderadamente desapontado.
– Admite ter envenenado o rei?
– Nada disso – disse Tyrion. – Da morte de Joffrey sou inocente. Sou culpado de um crime mais monstruoso. – Deu um passo na direção do pai. – Nasci. Sobrevivi. Sou culpado de ser um anão, confesso. E independentemente de quantas vezes o meu bondoso pai tenha me perdoado, persisti na minha infâmia.
– Isso é uma loucura, Tyrion – declarou Lorde Tywin. – Fale do assunto que aqui nos traz. Não está sendo julgado por ser um anão.
– É aí que está errado, senhor. Estive sendo julgado por ser um anão minha vida toda.
– Não tem nada a dizer em sua defesa?
– Nada a não ser isto: não fui eu. Mas agora desejava ter sido. – Virou-se para enfrentar o salão, aquele mar de rostos pálidos. – Gostaria de ter veneno suficiente para todos vocês. Fazem-me lamentar não ser o monstro que gostariam que fosse, mas aí está. Sou inocente, mas aqui não obterei justiça. Não me deixam alternativa exceto apelar aos deuses. Exijo julgamento pela batalha.
– Perdeu o juízo? – disse o pai.
– Não, encontrei-o. Exijo julgamento pela batalha!
Sua querida irmã não podia estar mais satisfeita.
– Ele tem esse direito, senhores – lembrou aos juízes. – Deixem que os deuses julguem. Sor Gregor Clegane lutará por Joffrey. Ele retornou à cidade anteontem à noite, a fim de colocar a sua espada a meu serviço.
O rosto de Lorde Tywin estava tão sombrio que por meio segundo Tyrion perguntou a si mesmo se ele também teria bebido vinho envenenado. Atingiu a mesa com um punho, furioso demais para falar. Foi Mace Tyrell quem se virou para Tyrion e fez a pergunta.
– Tem um campeão para defender a sua inocência?
– Tem, senhor. – O Príncipe Oberyn de Dorne pôs-se em pé. – O anão conseguiu me convencer.
A algazarra foi ensurdecedora. Tyrion sentiu especial prazer na súbita dúvida que vislumbrou nos olhos de Cersei. Foi preciso que cem homens de manto dourado batessem com o cabo das lanças no chão para que a sala do trono voltasse a se aquietar. A essa altura, Lorde Tywin Lannister já estava recomposto.
– Que o assunto seja decidido amanhã – declarou, num tom férreo. – Lavo as minhas mãos. – Lançou ao filho anão um olhar frio e zangado e depois saiu da sala a passos largos, pela porta do rei que se abria por trás do Trono de Ferro, com o irmão Kevan o seu lado.
Mais tarde, de volta à cela da torre, Tyrion serviu-se de uma taça de vinho e mandou Podrick Payne ir atrás de queijo, pão e azeitonas. Duvidava ser capaz de manter no estômago qualquer coisa mais pesada. Achava que eu iria docilmente, pai?, perguntou à sombra que as velas desenhavam na parede. Tenho em mim muito de si para isso. Sentia uma estranha paz, agora que tinha tirado o poder de vida e morte das mãos do pai e o depositado nas mãos dos deuses. Assumindo que existem deuses, e que eles não estão pouco se lixando. Caso contrário, estou em mãos dornesas. Não importa o que acontecesse, Tyrion estava satisfeito por saber que tinha feito em pedaços os planos de Lorde Tywin. Se o Príncipe Oberyn ganhasse, isso iria inflamar ainda mais Jardim de Cima contra os dorneses; Mace Tyrell veria o homem que aleijara seu filho ajudar o anão que quase envenenara sua filha escapar da devida punição. E se a Montanha triunfasse, Doran Martell poderia perfeitamente querer saber por que motivo o irmão tinha sido brindado com a morte em vez da justiça que Tyrion lhe prometera. Dorne podia acabar mesmo por coroar Myrcella.
Quase valia a pena morrer para saber de todos os problemas que causara. Virá ver o fim, Shae? Ficará lá com os outros, observando enquanto Sor Ilyn corta esta minha feia cabeça? Sentirá falta de seu gigante de Lannister quando ele estiver morto? Esvaziou a taça, jogou-a para o alto e cantou com vigor.
Sor Kevan não o visitou naquela noite. Provavelmente estava com Lorde Tywin, tentando aplacar os Tyrell. Receio que não voltarei a ver meu tio. Serviu-se de outra taça de vinho. Uma pena que tivesse mandado matar Symon Língua de Prata antes de aprender a letra inteira daquela canção. Não era uma canção ruim, para falar a verdade. Especialmente se comparada com aquelas que seriam escritas sobre si futuramente.
– Porque mãos de ouro são sempre frias, mas há calor em mãos de mulher... – cantou. Talvez devesse escrever ele mesmo os outros versos. Se vivesse tempo suficiente.
Naquela noite, surpreendentemente, Tyrion Lannister dormiu longa e profundamente. Acordou à primeira luz da aurora, bem repousado e com um robusto apetite, e quebrou o jejum com pão frito, morcela, bolinhos de maçã e uma dose dupla de ovos cozidos com cebolas e pimenta ardida de Dorne. Depois pediu licença aos guardas para visitar o seu campeão. Sor Addam consentiu.
Tyrion foi encontrar o Príncipe Oberyn bebendo uma taça de vinho tinto enquanto punha a armadura. Era servido por quatro de seus fidalgos dorneses mais novos.
– Um bom dia para o senhor – disse o príncipe. – Aceita uma taça de vinho?
– Você devia beber antes da batalha?