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– Eu sempre bebo antes das batalhas.

– Isso poderá levar à sua morte. Pior, poderá levar à minha morte.

O Príncipe Oberyn riu.

– Os deuses protegem os inocentes. Você é inocente, espero?

– Só de matar Joffrey – admitiu Tyrion. – Espero que saiba o que se prepara para enfrentar. Gregor Clegane é...

– ... grande? Ouvi dizer que sim.

– Ele tem quase dois metros e quarenta de altura e deve pesar cento e noventa quilos, e tudo de músculo. Luta com uma espada de duas mãos, mas só precisa de uma para manejá-la. É conhecido por ter cortado homens ao meio com um único golpe. Sua armadura é tão pesada que nenhum homem menor do que ele seria capaz de suportar o peso, quanto mais mexer-se lá dentro.

O Príncipe Oberyn não se mostrou impressionado.

– Já matei homens grandes antes. O truque é desequilibrá-los. Assim que caírem, estarão mortos. – O dornês parecia tão jovialmente confiante que Tyrion se sentiu quase tranquilizado, até o outro se virar e dizer: – Daemon, a minha lança! – Sor Daemon atirou-a para ele, e a Víbora Vermelha apanhou-a no ar.

– Pretende enfrentar a Montanha com uma lança? – aquilo deixou Tyrion inquieto de novo. Em batalha, fileiras de lanças juntas faziam uma dianteira formidável, mas combate singular contra um espadachim habilidoso era outro assunto.

– Em Dorne gostamos de lanças. Além disso, é a única forma de me opor ao seu alcance. Olhe, Lorde Duende, mas assegure-se de não tocar. – A lança era freixo torneado com dois metros e meio de comprimento, com o cabo liso, grosso e pesado. Os últimos sessenta centímetros eram de aço: uma esguia ponta de lança em forma de folha que se estreitava para formar um perigoso espigão. As arestas pareciam suficientemente afiadas para fazer a barba. Quando Oberyn girou o cabo entre as palmas das mãos, cintilaram com um brilho negro. Óleo? Ou veneno? Tyrion decidiu que preferia não saber.

– Espero que seja bom com isso – disse em tom de dúvida.

– Não terá razões de queixa. Embora Sor Gregor talvez venha a ter. Por mais espessa que seja a sua placa, haverá fendas nas articulações. Do lado de dentro do cotovelo e do joelho, por baixo dos braços... Vou encontrar um lugar para lhe fazer cócegas, prometo. – Pôs a lança de lado. – Dizem que um Lannister sempre paga as suas dívidas. Talvez queira voltar comigo a Lançassolar quando o derramamento de sangue do dia terminar. Meu irmão Doran ficaria muito satisfeito por conhecer o legítimo herdeiro de Rochedo Casterly... especialmente se ele trouxesse a sua adorável esposa, a Senhora de Winterfell.

Será que a cobra julga que tenho Sansa enfiada em algum lugar, como uma noz que estivesse guardando para o inverno? Se assim era, Tyrion não iria desenganá-lo.

– Uma viagem até Dorne poderá ser muito agradável, agora que reflito sobre o assunto.

– Faça planos para uma visita longa. – O Príncipe Oberyn bebericou o vinho. – Você e Doran têm muitos assuntos de interesse mútuo a discutir. Música, comércio, história, vinho, a moeda do anão... as leis de herança e sucessão. Sem dúvida que os conselhos de um tio beneficiariam a Rainha Myrcella nos árduos tempos que virão.

Se Varys tivesse passarinhos à escuta, Oberyn estava dando-lhes uma farta colheita.

– Creio que vou aceitar essa taça de vinho – disse Tyrion. Rainha Myrcella? Só teria sido mais tentador se tivesse Sansa escondida por baixo do manto. Se ela declarasse apoio a Myrcella no lugar de Tommen, iria o Norte segui-la? O que a Víbora Vermelha estava sugerindo era traição. Seria Tyrion realmente capaz de pegar em armas contra Tommen, contra o próprio pai? Cersei cuspiria sangue. Bastava isso para fazer com que talvez valesse a pena.

– Lembra-se da história que lhe contei quando nos encontramos pela primeira vez, Duende? – perguntou o Príncipe Oberyn, enquanto o Bastardo de Graçadivina ajoelhava à sua frente para prender suas grevas. – Não foi apenas devido à sua cauda que eu e minha irmã fomos a Rochedo Casterly. Andávamos numa espécie de demanda. Uma demanda que nos levou a Tombastela, à Árvore, a Vilavelha, às Ilhas Escudo, a Crakehall e, por fim, a Rochedo Casterly... mas nosso verdadeiro destino era o casamento. Doran estava prometido à Senhora Mellario de Norvos, portanto foi deixado para trás, como castelão de Lançassolar. Minha irmã e eu ainda não estávamos comprometidos.

“Elia achou tudo aquilo empolgante. Estava nessa idade, e sua saúde delicada nunca lhe permitira muitas viagens. Eu preferia me divertir caçoando dos pretendentes de minha irmã. Houve o Pequeno Senhor Vesgo, o Escudeiro Boca-de-Esguicho, um que chamei de Baleia que Caminha, esse tipo de coisa. O único minimamente apresentável foi o jovem Baelor Hightower. Era um rapaz bonito, e minha irmã andou meio apaixonada por ele até que o rapaz teve o infortúnio de peidar uma vez na nossa presença. Imediatamente o apelidei de Baelor Peidorreiro, e depois disso Elia não conseguia olhá-lo sem rir. Eu era um jovenzinho monstruoso, alguém devia ter cortado minha língua perversa.”

Sim, concordou Tyrion em silêncio. Baelor Hightower já não era jovem, mas continuava sendo o herdeiro de Lorde Leyton; rico, bonito e um cavaleiro de magnífica reputação. Agora chamavam-lhe Baelor Sorriso Resplandecente. Se Elia tivesse se casado com ele em vez de Rhaegar Targaryen, poderia estar em Vilavelha com os filhos crescendo à sua volta. Perguntou a si mesmo quantas vidas teriam sido apagadas por aquele pum.

– Lanisporto era o fim de nossa viagem – prosseguiu o Príncipe Oberyn, enquanto Sor Arron Qorgyle o auxiliava a vestir uma túnica almofadada de couro e começava a atá-la nas costas. – Sabia que as nossas mães se conheciam desde muito antes?

– Creio recordar que tinham estado juntas na corte quando meninas. Companheiras da Princesa Rhaella?

– Exatamente. Eu estava convencido de que as mães tinham cozinhado aquela trama entre si. O Escudeiro Boca-de-Esguicho e os de sua laia, e as várias jovens donzelas cheias de espinhas que me tinham sido exibidas eram as amêndoas antes do banquete, destinando-se apenas a abrir nossos apetites. O prato principal deveria ser servido em Rochedo Casterly.

– Cersei e Jaime.

– Que anão mais esperto. Elia e eu éramos mais velhos, certamente. Seus irmãos não podiam ter mais de oito ou nove anos. Em todo o caso, uma diferença de cinco ou seis anos é bastante pequena. E havia uma cabine vazia no nosso navio, uma cabine muito boa, o tipo de cabine que poderia se destinar a uma pessoa de nascimento elevado. Como se a intenção fosse levarmos alguém para Lançassolar. Um jovem pajem, talvez. Ou uma companheira para Elia. A senhora sua mãe pretendia prometer Jaime à minha irmã, ou Cersei a mim. Talvez ambos.

– Talvez – disse Tyrion –, mas o meu pai...

– ... governava os Sete Reinos, mas em casa era governado pela senhora sua esposa, ou pelo menos era o que a minha mãe sempre dizia. – O Príncipe Oberyn ergueu os braços para que Lorde Dagos Manwoody e o Bastardo de Graçadivina pudessem enfiar uma longa camisa de cota de malha por sua cabeça. – Em Vilavelha ficamos sabendo da morte de sua mãe e do filho monstruoso que ela dera à luz. Podíamos ter voltado naquele momento, mas minha mãe decidiu prosseguir. Já lhe contei sobre o acolhimento que encontramos em Rochedo Casterly.

“O que não lhe contei é que a minha mãe esperou o tempo que era decente, e então abordou o seu pai com aquilo que nos levara ali. Anos mais tarde, em seu leito de morte, ela contou-me que Lorde Tywin nos recusou bruscamente. Informou-a de que a filha estava destinada ao Príncipe Rhaegar. E quando ela perguntou por Jaime, para desposar Elia, ele ofereceu a sua pessoa.

– Oferta essa que ela recebeu como um ultraje.

– E era. Até você pode ver isso, certamente.