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– Oh, certamente. – Tudo vem de trás e mais de trás, pensou Tyrion, de nossas mães e pais e dos que vieram antes deles. Somos marionetes a dançar, presos aos cordéis daqueles que chegaram antes de nós, e um dia nossos filhos ficarão com nossos cordéis e dançarão em nosso lugar. – Bem, o Príncipe Rhaegar casou-se com Elia de Dorne, não com Cersei Lannister de Rochedo Casterly. Portanto, parece que a sua mãe ganhou essa justa.

– Ela achou que sim – concordou o Príncipe Oberyn –, mas o seu pai não é homem para esquecer tais desfeitas. Ensinou um dia essa lição ao Senhor e à Senhora Tarbeck, e aos Reyne de Castamere. E, em Porto Real, ensinou-a à minha irmã. O elmo, Dagos. – Mandwoody entregou-o a ele; um elmo elevado e dourado com um disco de cobre montado na testa, o sol de Dorne. Tyrion viu que a viseira havia sido removida. – Elia e os filhos esperam justiça há muito tempo. – O Príncipe Oberyn calçou luvas flexíveis de couro vermelho e voltou a pegar na lança. – Mas hoje vão obtê-la.

Para o combate fora escolhido o pátio exterior. Tyrion teve de saltar e correr para acompanhar as longas passadas do Príncipe Oberyn. A serpente está impaciente, pensou. Esperemos que ele também esteja venenoso. O dia estava cinzento e ventoso. O sol lutava para abrir caminho por entre as nuvens, mas Tyrion não seria mais capaz de indicar quem iria vencer essa luta do que aquela da qual a sua vida dependia.

Pareciam um milhar, as pessoas que tinham vindo ver se ele iria sobreviver ou morrer. Aglomeravam-se ao longo dos adarves do castelo e acotovelavam-se nos degraus de torres e fortalezas. Observavam a partir de portas de estábulos, de janelas e pontes, de varandas e telhados. E o pátio estava repleto, tanta gente que os homens de manto dourado e os cavaleiros da Guarda Real tinham de empurrar todos para trás, a fim de abrir espaço suficiente para o combate. Alguns tinham trazido cadeiras para assistir com mais conforto, enquanto outros se empoleiravam em barris. Devíamos ter feito isso na Arena dos Dragões, pensou amargamente Tyrion. Podíamos ter cobrado uma moeda por cabeça e arranjaríamos o suficiente para pagar tanto a boda como o funeral de Joffrey. Alguns dos espectadores até tinham crianças pequenas montadas sobre os ombros para verem melhor. Gritavam e apontavam ao ver Tyrion.

A própria Cersei parecia quase uma criança ao lado de Sor Gregor. Em sua armadura, a Montanha parecia maior do que qualquer homem tinha direito a ser. Sob um longo sobretudo amarelo ostentando os três cães negros de Clegane, usava armadura pesada por cima de cota de malha, com o baço aço cinza amassado e riscado em batalha. Por baixo daquilo haveria couro fervido e uma camada almofadada. Um elmo de topo chato estava afivelado ao seu gorjal, com buracos para respirar em volta da boca e do nariz e uma estreita ranhura para ver. A figura no topo do elmo era um punho de pedra.

Se Sor Gregor sofria com seus ferimentos, Tyrion não via sinal disso desde o outro lado do pátio. Ele, ali em pé, parece ter sido esculpido em pedra. A espada estava espetada no chão à sua frente, um metro e oitenta de metal marcado. As enormes mãos de Sor Gregor, revestidas por manoplas articuladas de aço, seguravam no guarda-mão de ambos os lados do cabo. Até a amante do Príncipe Oberyn empalideceu ao vê-lo.

– Vai lutar com aquilo? – disse Ellaria Sand num tom segredado.

– Vou matar aquilo – respondeu descuidadamente o seu amante.

Tyrion tinha suas próprias dúvidas, agora que se encontravam à beira do combate. Quando olhou para o Príncipe Oberyn viu-se desejando ter Bronn para defendê-lo... ou melhor ainda, Jaime. A Víbora Vermelha tinha uma armadura leve; grevas, braçais, gorjal, espaldar e braguilha de aço. Fora isso, Oberyn vestia couro flexível e sedas esvoaçantes. Sobre a cota de malha usava as suas escamas brilhantes de cobre, mas cota de malha e escamas, em conjunto, não lhe dariam um quarto da proteção da placa pesada de Gregor. Com a viseira removida, o elmo do príncipe não passava efetivamente de um meio-elmo, faltando-lhe até uma proteção para o nariz. Seu escudo redondo de aço era brilhantemente polido, e ostentava o sol e a lança em ouro vermelho, ouro amarelo, ouro branco e cobre.

Dançar em volta dele até ficar tão cansado que mal consiga erguer o braço, e depois derrubá-lo de costas. A Víbora Vermelha parecia ter a mesma ideia de Bronn. Mas o mercenário não tivera rodeios quanto ao risco dessa tática. Espero, com os sete infernos, que saiba o que está fazendo, serpente.

Tinham erigido uma plataforma ao lado da Torre da Mão, a meio caminho entre os dois campeões. Era aí que se sentava Lorde Tywin com o irmão, Sor Kevan. O Rei Tommen não estava visível; pelo menos por isso Tyrion sentia-se grato.

Lorde Tywin deu um breve relance ao seu filho anão, e então levantou a mão. Uma dúzia de trombeteiros soprou uma fanfarra para aquietar a multidão. O Alto Septão avançou com passinhos curtos e sua grande coroa de cristal e rezou para que o Pai no Céu os ajudasse naquele julgamento e para que o Guerreiro emprestasse a sua força ao braço do homem cuja causa era justa. Esse sou eu, quase gritou Tyrion, mas eles iriam apenas rir, e estava mortalmente farto de risos.

Sor Osmund Kettleblack trouxe a Clegane o seu escudo, uma coisa enorme de pesado carvalho reforçado com ferro negro. Enquanto a Montanha enfiava o braço esquerdo nas correias, Tyrion viu que outro símbolo havia sido pintado por cima dos cães de Clegane. Naquela manhã, Sor Gregor usava a estrela de sete pontas que os ândalos tinham trazido para Westeros quando cruzaram o mar estreito e esmagaram os Primeiros Homens e os seus deuses. Muito pio da sua parte, Cersei, mas duvido que os deuses se deixem impressionar.

Havia cinquenta metros entre os dois. O Príncipe Oberyn avançou rapidamente, Sor Gregor de um modo mais agourento. O chão não treme quando ele caminha, disse Tyrion a si mesmo. Isso é só o meu coração batendo. Quando os dois homens chegaram a uma distância de dez metros, a Víbora Vermelha parou e gritou:

– Disseram-lhe quem eu sou?

Sor Gregor soltou um grunhido através dos buracos para respirar.

– Um morto qualquer. – E avançou, inexorável.

O dornês deslizou para o lado.

– Sou Oberyn Martell, um príncipe de Dorne – disse, enquanto a Montanha se virava para mantê-lo no seu campo de visão. – A Princesa Elia era minha irmã.

– Quem? – perguntou Gregor Clegane.

A longa lança de Oberyn saltou numa estocada, mas Sor Gregor parou a ponta dela com o escudo, empurrou-a para o lado, e investiu contra o príncipe, com a grande espada a relampejar. O dornês rodopiou para longe, intocado. A lança saltou em frente. Clegane golpeou-a com a espada, Martell puxou-a, após o que voltou a atirá-la em frente. Metal guinchou contra metal quando a ponta da espada deslizou no peito da Montanha, cortando o sobretudo e deixando um longo arranhão brilhante no aço que se encontrava por baixo.

– Elia Martell, Princesa de Dorne – sibilou a Víbora Vermelha. – Violou-a. Assassinou-a. Matou os filhos dela.

Sor Gregor grunhiu. Avançou pesadamente para acertar a cabeça do dornês. O Príncipe Oberyn evitou-o facilmente.

– Violou-a. Assassinou-a. Matou os filhos dela.

– Veio conversar ou lutar?

– Vim ouvir a sua confissão. – A Víbora Vermelha lançou um rápido golpe contra a barriga da Montanha, sem qualquer efeito.

Gregor tentou golpeá-lo e falhou. A longa lança dardejou por cima de sua espada. Qual língua de serpente, volteava para a frente e para trás, fintando embaixo e batendo em cima, em estocadas dirigidas às virilhas, ao escudo, aos olhos. A Montanha dá um alvo grande, pelo menos, pensou Tyrion. O Príncipe Oberyn dificilmente erraria, embora nenhum de seus golpes tivesse conseguido penetrar a placa pesada de Sor Gregor. O dornês não parava de rodear o adversário, de lançar estocadas e de voltar a saltar para trás, forçando o homem maior a virar-se e virar-se de novo. Clegane está perdendo-o de vista. O elmo da Montanha tinha uma viseira estreita, o que lhe limitava severamente a visão. Oberyn estava fazendo bom uso desse fato e do comprimento da lança e de sua rapidez.