Sor Gregor tentou se levantar. A lança quebrada atravessara-o por completo e o estava prendendo ao chão. Fechou ambas as mãos em volta da haste, grunhindo, mas não foi capaz de puxá-la. Por baixo dele espalhava-se uma poça vermelha.
– Estou me sentindo mais inocente a cada instante – disse Tyrion a Ellaria Sand, a seu lado.
O Príncipe Oberyn aproximou-se do adversário.
– Diga o nome! – pôs um pé no peito da Montanha e ergueu a espada com ambas as mãos. Tyrion nunca saberia se ele pretendia cortar a cabeça de Gregor ou enfiar a ponta através de sua viseira.
A mão de Clegane saltou e agarrou o dornês atrás do joelho. A Víbora Vermelha fez a espada cair num golpe selvagem, mas estava desequilibrado, e o gume não fez mais do que deixar mais um amassado no braçal da Montanha. Então a espada foi esquecida quando a mão de Gregor se apertou e torceu, fazendo o dornês cair por cima dele. Lutaram no meio da poeira e do sangue, com a lança quebrada se mexendo de um lado para o outro. Tyrion viu com horror que a Montanha tinha envolvido o príncipe num enorme braço, apertando-o com força contra o peito, como se fosse um amante.
– Elia de Dorne – todos ouviram Sor Gregor dizer, quando os dois ficaram suficientemente próximos para se beijar. Sua voz profunda retumbava dentro do elmo. – Matei a criazinha chorona dela. – Lançou a mão livre contra o rosto sem proteção de Oberyn, enfiando dedos de aço em seus olhos. – E então estuprei-a. – Clegane esmagou o punho na boca do dornês, transformando seus dentes em lascas. – E depois esmaguei a porra da cabeça dela. Assim. – Quando puxou para trás o enorme punho, o sangue em sua manopla pareceu fumegar no ar frio da alvorada. Ouviu-se um crunch nauseante. Ellaria Sand uivou de terror e o café da manhã de Tyrion subiu borbulhando até sua boca. Deu por si de joelhos, vomitando bacon, salsicha e bolinhos de maçã, e aquela dose dupla de ovos estrelados feitos com cebolas e pimenta ardida de Dorne.
Não chegou a ouvir o pai proferir as palavras que o condenavam. Talvez não houvesse necessidade de palavras. Pus a minha vida nas mãos da Víbora Vermelha, e ele deixou-a cair. Quando se lembrou, tarde demais, de que as serpentes não tinham mãos, Tyrion desatou a rir histericamente.
Já tinha descido metade da escada em espiral quando percebeu que os homens de manto dourado não o estavam levando de volta à sua sala de torre.
– Fui mandado para as celas negras – disse. Não obteve resposta. Para que gastar saliva com os mortos?
Daenerys
Dany quebrou o jejum à sombra do caquizeiro que crescia no jardim do terraço, observando os dragões se perseguirem uns aos outros em volta do cume da Grande Pirâmide onde outrora se erguera a enorme harpia de bronze. Meereen tinha uma vintena de pirâmides menores, mas nenhuma chegava sequer à metade da altura daquela. Dali conseguia ver toda a cidade: as estreitas vielas sinuosas e as largas ruas de tijolo, templos e celeiros, choupanas e palácios, bordéis e casas de banhos, jardins e fontes, os grandes círculos vermelhos das arenas de luta. E para lá das muralhas estendia-se o mar de peltre, o sinuoso Skahazadhan, as secas colinas marrons, pomares queimados e campos enegrecidos. Ali em cima, em seu jardim, Dany sentia-se às vezes como um deus, vivendo no topo da montanha mais alta do mundo.
Será que todos os deuses se sentem assim tão sozinhos? Alguns deviam se sentir, certamente. Missandei tinha lhe contado a história do Senhor da Harmonia, adorado pelo Pacífico Povo de Naath; era o único deus verdadeiro, segundo a sua pequena escriba, o deus que sempre existiu e sempre existiria, que fez a lua, as estrelas e a terra, e todas as criaturas que viviam sobre elas. Pobre Senhor da Harmonia. Dany apiedava-se dele. Devia ser terrível estar só para todo o sempre, servido por hordas de mulheres-borboletas que se podia criar ou destruir com uma palavra. Westeros ao menos tinha sete deuses, embora Viserys lhe tivesse dito que alguns septões afirmavam que os sete eram apenas aspectos de um deus único, sete facetas de um único cristal. Isso era uma confusão. Os sacerdotes vermelhos acreditavam em dois deuses, segundo tinha ouvido dizer, mas os dois estavam eternamente em guerra. Dany gostava ainda menos daquilo. Não gostaria de estar eternamente em guerra.
Missandei serviu-lhe ovos de pato e salsicha de cão e meia taça de vinho adoçado misturado com o sumo de um limão. O mel atraía moscas, mas uma vela odorífera afastava-as. Descobrira que as moscas não eram tão incômodas ali em cima como no resto da cidade, mais uma coisa que lhe agradava na pirâmide.
– Tenho de me lembrar de fazer qualquer coisa a respeito das moscas – disse Dany. – Há muitas moscas em Naath, Missandei?
– Em Naath há borboletas – respondeu a escriba no Idioma Comum. – Mais vinho?
– Não. Tenho uma audiência em breve. – Dany tinha passado a gostar muito de Missandei. A pequena escriba com os grandes olhos dourados era possuidora de uma sabedoria bem para lá da idade. E também é corajosa. Teve de ser, para sobreviver à vida que teve. Um dia esperava ver essa lendária ilha de Naath. Missandei dizia que o Pacífico Povo fazia música em vez de guerra. Não matavam, nem sequer animais; comiam apenas frutas e nunca tocavam em carne. Os espíritos borboletas sagrados para o seu Senhor da Harmonia protegiam a ilha deles contra os que desejavam fazer-lhes mal. Muitos conquistadores tinham velejado para Naath a fim de molharem as espadas em sangue, mas só conseguiram adoecer e morrer. As borboletas não os ajudam quando os navios dos escravos fazem incursões, porém. – Um dia levo-a para casa, Missandei – prometeu Dany. Se tivesse feito a mesma promessa a Jorah, teria me vendido mesmo assim? – Juro.
– Esta está contente por ficar com a senhora, Vossa Graça. Naath estará lá sempre. A senhora é boa para est... para mim.
– Tal como você para mim. – Dany deu a mão à garota. – Venha me ajudar a me vestir.
Jhiqui ajudou Missandei a dar-lhe banho, enquanto Irri preparava suas roupas. Hoje usaria uma veste de samito púrpura e uma faixa prateada, com a coroa do dragão de três cabeças que a Irmandade Turmalina lhe dera em Qarth. Os chinelos também eram prateados, com saltos tão altos que ela tinha sempre algum receio de cair para a frente. Quando acabou de se vestir, Missandei trouxe um espelho de prata polida para Dany poder se ver. Dany fitou-se em silêncio. Será este o rosto de um conquistador? Pelo que podia ver, ainda parecia uma garotinha.
Ninguém a chamava de Daenerys, a Conquistadora, mas talvez viessem a fazê-lo. Aegon, o Conquistador, tinha vencido Westeros com três dragões, mas ela tomara Meereen com ratazanas de esgoto e um pinto de madeira, em menos de um dia. Pobre Groleo. Dany sabia que o homem ainda andava desgostoso por causa do navio. Se uma galé de guerra podia abalroar outro navio, por que não um portão? Tinha sido essa a sua ideia quando ordenou aos capitães para encalhar os navios na costa. Os mastros tinham se transformado em seus aríetes, e uma multidão de libertos desfizera os cascos para construir manteletes, tartarugas, catapultas e escadas. Os mercenários tinham batizado os aríetes com nomes obscenos, e foi o mastro principal do Meraxes – anteriormente chamado Partida de Joso – que quebrou o portão oriental. Chamavam-no de Pica de Joso. A luta encarniçara-se, amarga e sangrenta, durante a maior parte de um dia e entrara noite adentro antes de a madeira começar a lascar e a figura de proa do Meraxes, uma cara de bobo risonha, conseguir trespassá-la.