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Dany quis ser ela mesma a liderar o ataque, mas todos os seus capitães, sem exceção, disseram que isso seria loucura, e seus capitães nunca concordavam em coisa alguma. Em vez de liderar, tinha permanecido na retaguarda, montada em sua prata, envergando com uma longa camisa de cota de malha. Mas ouviu a cidade cair de uma distância de meia légua, quando os gritos de desafio dos defensores se transformaram em gritos de medo. Nesse momento, os dragões tinham rugido como se fossem um só, enchendo a noite de chamas. Os escravos estão se rebelando, compreendeu de imediato. As minhas ratazanas de esgoto roeram seus grilhões.

Depois de os últimos restos de resistência terem sido esmagados pelos Imaculados e de o saque terminar, Dany entrou em sua cidade. A pilha de mortos diante do portão principal era tão alta que seus libertos precisaram de quase uma hora para abrir caminho para a sua prata. A Pica de Joso e a grande tartaruga de madeira que a protegera, coberta de peles de cavalo, estavam abandonadas lá dentro. Passou por edifícios incendiados e janelas quebradas, através de ruas de tijolo cujas sarjetas estavam entupidas com os mortos, rígidos e inchados. Escravos gritando vivas erguiam para si mãos manchadas de sangue e chamavam-na de “Mãe” enquanto passava.

Na praça em frente à Grande Pirâmide, os meereeneses tinham se amontoado sem esperança. Os Grandes Mestres pareciam tudo menos grandes à luz da manhã. Despojados das joias e de seus tokars debruados, eram desprezíveis; uma manada de velhos com bolas murchas e pele manchada e de jovens com penteados ridículos. Suas mulheres eram ou moles e carnudas ou secas como paus velhos, com a maquiagem facial riscada por lágrimas.

– Quero os seus líderes – disse-lhes Dany. – Entreguem-nos, e os demais serão poupados.

– Quantos? – perguntou uma velha, entre soluços. – Quantos quer para nos poupar?

– Cento e sessenta e três – respondeu.

Tinha ordenado que fossem pregados a postes de madeira em volta da praça, cada um apontando para o seguinte. A ira ardia feroz e quente dentro dela quando dera a ordem; fez com que se sentisse um dragão vingador. Mas, mais tarde, quando passou pelos moribundos nos postes, quando ouviu seus gemidos e sentiu o cheirou de entranhas e sangue...

Dany pôs o espelho de lado, franzindo a testa. Foi justo. Foi mesmo. Fiz isso pelas crianças.

A câmara de audiências ficava no piso imediatamente abaixo, uma sala cheia de ecos, de teto elevado e com paredes de mármore roxo. Era um lugar gelado, apesar de toda a sua grandiosidade. Havia ali um trono, uma coisa fantástica de madeira esculpida e dourada, com a forma de uma harpia selvagem. Tinha lançado-lhe um longo olhar e ordenado que fosse transformado em lenha.

– Não me sentarei no colo da harpia – disse-lhes. Em vez disso, sentava-se num simples banco de ébano. Servia, embora tivesse ouvido os meereeneses resmungarem que não era adequado para uma rainha.

Os companheiros de sangue estavam à sua espera. Sinetas de prata tilintavam em suas tranças oleadas, e usavam o ouro e as joias de homens mortos. Meereen era rica além do que era possível imaginar. Até os mercenários pareciam saciados, pelo menos por ora. Do outro lado da sala, Verme Cinzento usava o uniforme simples dos Imaculados, com o capacete de bronze provido de espigão debaixo de um braço. Naqueles, pelo menos, podia confiar, ou assim esperava... e no Ben Mulato Plumm também, no sólido Ben com seus cabelos cinza-esbranquiçados e rosto desgastado, tão querido por seus dragões. E Daario, a seu lado, cintilando de ouro. Daario e Ben Plumm, Verme Cinzento, Irri, Jhiqui, Missandei... enquanto os olhava, Dany deu por si imaginando qual deles seria o próximo a traí-la.

O dragão tem três cabeças. Há no mundo dois homens em que posso confiar, se conseguir encontrá-los. Então já não estarei só. Seremos três contra o mundo, como Aegon e as irmãs.

– A noite foi tão calma como pareceu? – perguntou Dany.

– Parece que sim, Vossa Graça – disse Ben Mulato Plumm.

Ficou contente. Meereen havia sido saqueada de forma bárbara, como sempre acontecia às cidades recém-caídas, mas Dany estava determinada a que isso terminasse, agora que a cidade lhe pertencia. Decretara que os assassinos seriam enforcados, que os saqueadores perderiam uma mão e os violadores, os seus membros viris. Oito homicidas pendiam das muralhas, e os Imaculados tinham enchido um cesto de trinta e cinco litros com mãos ensanguentadas e vermes moles e vermelhos, mas Meereen estava de novo calma. Por quanto tempo?

Uma mosca zumbiu ao redor de sua cabeça. Dany enxotou-a, irritada, mas o inseto retornou quase imediatamente.

– Há moscas demais nesta cidade.

Ben Plumm soltou uma gargalhada.

– Havia moscas em minha cerveja hoje de manhã. Engoli uma.

– As moscas são a vingança dos mortos. – Daario sorriu e afagou o dente central de sua barba. – Os cadáveres geram vermes, e os vermes geram moscas.

– Então vamos nos livrar dos cadáveres. Começando por aqueles que estão lá embaixo na praça. Verme Cinzento, tratará disso?

– A rainha ordena, estes obedecem.

– É melhor levar tanto sacas como pás, Verme – aconselhou Ben Mulato. – Aqueles já estão bem para lá de maduros. Andam caindo daqueles postes aos pedaços e estão cheios de...

– Ele sabe. E eu também. – Dany recordou o horror que sentira quando vislumbrou a Praça da Punição em Astapor. Criei um horror igualmente grande, mas é certo que o mereceram. Justiça dura ainda assim é justiça.

– Vossa Graça – disse Missandei –, os ghiscari enterram os seus mortos de honra em criptas por baixo de suas mansões. Se fervesse os ossos e os devolvesse às famílias, seria uma bondade.

As viúvas vão me amaldiçoar mesmo assim.

– Que assim se faça. – Dany fez um sinal para Daario. – Quantos pretendem hoje uma audiência?

– Apresentaram-se dois para se aquecer sob o seu esplendor.

Daario tomou para si um guarda-roupa inteiramente novo durante o saque de Meereen, e para condizer com ele voltara a pintar a barba cortada em tridente e os cabelos encaracolados com um profundo e rico tom de púrpura. Aquela coloração fazia com que os olhos parecessem também quase púrpura, como se ele fosse algum valiriano perdido.

– Chegaram durante a noite no Estrela Índigo, uma galé mercante de Qarth.

Um navio traficante de escravos, quer dizer. Dany franziu a testa.

– Quem são?

– O mestre do Estrela e um homem que diz falar por Astapor.

– Receberei primeiro o enviado.

Este revelou-se um homem pálido com cara de furão e pesados cordões de pérolas e fio de ouro pendurados do pescoço.

– Vossa Reverência! – gritou. – Meu nome é Ghael. Trago saudações do Rei Cleon de Astapor, Cleon, o Grande, para a Mãe de Dragões.

Dany ficou rígida.

– Deixei um conselho governando Astapor. Um curandeiro, um erudito e um sacerdote.

– Vossa Reverência, esses patifes manhosos traíram a sua confiança. Revelou-se que estavam maquinando a devolução do poder aos Grandes Mestres e das correntes ao povo. O Grande Cleon expôs os seus planos e cortou suas cabeças com um cutelo, e o grato povo de Astapor coroou-o por seu valor.

– Nobre Ghael – disse Missandei, no dialeto de Astapor –, será este o mesmo Cleon que era propriedade de Grazdan mo Ullhor?

A voz dela era franca, mas ficou claro que a pergunta deixou o enviado ansioso.

– Ele mesmo – admitiu. – Um grande homem.

Missandei inclinou-se para Dany.

– Era carniceiro na cozinha de Grazdan – a garota segredou-lhe ao ouvido. – Dizia-se que conseguia matar um porco mais depressa do que qualquer outro homem em Astapor.

Dei a Astapor um rei carniceiro. Dany sentiu-se enojada, mas sabia que não podia deixar que o enviado percebesse isso.