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Seguiram a pé o resto do caminho, passando por mais fogueiras e tendas, com Fantasma seguindo de perto. Jon nunca tinha visto tantos selvagens. Perguntou a si mesmo se alguém já teria. O acampamento não tem fim, refletiu, mas é mais uma centena de acampamentos do que um só, e cada um deles é mais vulnerável do que o anterior. Espalhados ao longo de uma grande área, os selvagens não tinham defesas de que valesse a pena falar, nem fossos nem estacas afiadas, só pequenos grupos de batedores patrulhando os terrenos ao redor. Cada grupo, clã ou aldeia simplesmente acampou onde quis, assim que viu os outros parando ou encontrou um bom local. O povo livre. Se os seus irmãos os apanhassem em tal desordem, muitos pagariam tal liberdade com o sangue do corpo. Possuíam número, mas a Patrulha da Noite tinha disciplina e, “em batalha, a disciplina vence o número em nove entre dez batalhas”, o pai disse-lhe certa vez.

Não havia como não saber qual das tendas pertencia ao rei. Era três vezes maior do que a segunda maior tenda que vira, e ouvia-se música vinda lá de dentro. Tal como muitas das tendas menores, aquela era feita de peles cosidas ainda com pelo, mas as de Mance Rayder eram as hirsutas peles brancas dos ursos das neves. Um enorme par de chifres de um dos alces gigantes que outrora vagueavam livremente pelos Sete Reinos, nos tempos dos Primeiros Homens, coroava a cobertura pontiaguda.

Pelo menos ali encontrou defensores; dois guardas junto à abertura da tenda, apoiados em grandes lanças e com escudos redondos feitos de couro. Quando viram Fantasma, um deles baixou a lança e disse:

– Esse animal fica aqui.

– Fantasma, fique – ordenou Jon. O lobo gigante sentou-se.

– Lança-Longa, vigie o lobo. – Camisa de Chocalho puxou a aba da tenda e, com um gesto, ordenou que Jon e Ygritte entrassem.

A tenda estava quente e fumacenta. Nos quatro cantos havia cestos de turfa queimando, enchendo o ar com uma tênue luz avermelhada. Mais peles atapetavam o chão. Jon sentiu-se absolutamente só ali, em pé, vestido de negro, esperando a atenção do vira-casaca que se autodenominava Rei-para-lá-da-Muralha. Depois de seus olhos se ajustarem à luz vermelha e esfumaçada, viu seis pessoas, nenhuma das quais prestou qualquer atenção nele. Um jovem escuro e uma loura bonita dividiam um corno de hidromel. Uma mulher grávida estava em pé junto a um braseiro, cozinhando algumas galinhas, enquanto um homem grisalho com um esfarrapado manto preto e vermelho estava sentado numa almofada, de pernas cruzadas, tocando um alaúde e cantando:

A mulher do dornês era bela como o sol e seus beijos, quentes como a primavera. Mas a espada do dornês era feita de aço negro e o seu beijo, a mordida de uma fera.

Jon conhecia a canção, embora fosse estranho ouvi-la ali, numa tenda de peles felpudas para lá da Muralha, a dez mil léguas das montanhas vermelhas e dos ventos quentes de Dorne.

Camisa de Chocalho tirou seu elmo amarelado enquanto esperava que a canção chegasse ao fim. Sob sua armadura de osso e couro era um homem pequeno, e o rosto por baixo do crânio de gigante era simples, com um queixo nodoso, um bigode fino e bochechas pálidas e descarnadas. Os olhos eram bem próximos um do outro, com sobrancelhas que cruzavam toda a testa, e os cabelos escuros rareavam, recuando nas têmporas.

A mulher do dornês cantava no banho, numa voz que era pêssego doce. Mas a espada do dornês tinha a sua canção, e mordia como se sanguessuga fosse.

Ao lado do braseiro, um homem baixo mas imensamente largo estava sentado num banco, comendo uma galinha diretamente no espeto. Gordura quente escorria por seu queixo e pela barba branca como a neve, mas ele sorria mesmo assim, com um ar feliz. Três presilhas de ouro gravadas com runas cingiam seus braços fortes, e usava uma pesada camisa de cota de malha negra que só podia ter vindo de um patrulheiro morto. Não muito longe dele, um homem mais alto e mais esguio, com uma camisa de couro com escamas de bronze, franzia a testa sobre um mapa, com uma longa espada a tiracolo, em uma bainha de couro. Era reto como uma lança, todo ele longos músculos duros, escanhoado, calvo, com um forte nariz reto e olhos cinzentos encovados. Podia ter sido bonito se tivesse orelhas, mas perdera ambas; Jon não sabia dizer se devido ao frio ou à faca de algum inimigo. A falta delas fazia com que a cabeça do homem parecesse estreita e pontiaguda.

Tanto o homem de barba branca como o calvo eram guerreiros, tinha bastado um relance para que isso ficasse claro para Jon. Esses dois são de longe mais perigosos do que o Camisa de Chocalho. Perguntou a si mesmo qual deles seria Mance Rayder.

Jazendo no chão, rodeado de escuridão, seu sangue ele saboreou, Os irmãos se ajoelharam e rezaram uma oração, e ele sorriu e ele riu e cantou, “Irmãos, oh irmãos, os meus dias estão no fim, o dornês minha vida desfez, Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer, e eu provei a mulher do dornês!”

Enquanto as últimas notas de “A mulher do dornês” se desvaneciam, o homem careca e sem orelhas ergueu os olhos do mapa e fez uma carranca feroz para Camisa de Chocalho e Ygritte, que tinham Jon entre eles.

– O que é isto? – ele perguntou. – Um corvo?

– O bastardo preto que estripou Orell – disse Camisa de Chocalho – e também um maldito warg.

– Devia ter matado todos.

– Este passou para o nosso lado – explicou Ygritte. – Matou Qhorin Meia-Mão com as próprias mãos.

– Esse garoto? – o homem sem orelhas irritou-se com a notícia. – O Meia-Mão devia ter sido meu. Você tem nome, corvo?

– Jon Snow, Vossa Graça. – Perguntou a si mesmo se também esperavam que dobrasse o joelho.

– Vossa Graça? – o homem sem orelhas olhou para o grandalhão da barba branca. – Vê? Ele acha que sou rei.

O barbudo riu com tanta força que espalhou pedaços de galinha por toda a parte. Limpou a gordura da boca com as costas de uma de suas enormes mãos.

– Um rapaz cego, só pode ser. Quem já ouviu falar de um rei sem orelhas? Ora, a coroa cairia até o pescoço! Ha! – Dirigiu a Jon um sorriso, limpando os dedos nas calças. – Feche o bico, corvo. Dê meia-volta e talvez encontre quem veio procurar.

Jon virou-se.

O cantor pôs-se em pé.

– Sou Mance Rayder – disse ele, enquanto colocava o alaúde de lado. – E você é o bastardo de Ned Stark, o Snow de Winterfell.

Aturdido, Jon ficou sem fala por um momento, antes de se recuperar o suficiente para dizer:

– Como… como pode saber…

– Isso é uma história para mais tarde – disse Mance Rayder. – O que achou da canção, moço?

– Gostei bastante. Já a tinha ouvido.

Mas que importa, não há homem que não tenha de morrer – disse alegremente o Rei-para-lá-da-Muralha –, e eu provei a mulher do dornês. Diga-me, o meu Senhor dos Ossos fala a verdade? Matou meu velho amigo, o Meia-Mão?

– Matei. – Embora tenha sido mais obra dele do que minha.

– A Torre Sombria nunca mais vai parecer tão temível – disse o rei, com tristeza na voz. – Qhorin era meu inimigo. Mas também foi meu irmão um dia. Por isso... devo agradecê-lo por tê-lo matado, Jon Snow? Ou amaldiçoá-lo? – dirigiu a Jon um sorriso zombeteiro.

O Rei-para-lá-da-Muralha não se parecia em nada com um rei, e tampouco se parecia com um selvagem. Era de média estatura, magro, com feições bem definidas, astutos olhos castanhos e longos cabelos castanhos já quase totalmente grisalhos. Não havia coroa em sua cabeça, nem presilhas de ouro nos braços, nem joias no pescoço, nem mesmo uma cintilação de prata. Usava lã e couro, e o único traje digno de nota que vestia era o esfarrapado manto de lã negra, cujos longos rasgões tinham sido cosidos com seda vermelha desbotada.