– Cobras? E o que é você, sor? – ocorreu-lhe algo indizível. – Contou-lhes que eu esperava o filho de Drogo...
– Khaleesi...
– Que nem pense em negá-lo, sor – disse em tom penetrante Sor Barristan. – Eu estava presente quando o eunuco contou isso ao conselho, e Robert decretou que Sua Graça e o seu filho tinham de morrer. Você foi a fonte, sor. Até se falou que poderia realizar o ato em troca de perdão.
– Mentira. – O rosto de Sor Jorah tornou-se sombrio. – Eu nunca... Daenerys, fui eu quem impediu que bebesse o vinho.
– Sim. E como foi que soube que o vinho estava envenenado?
– Eu... eu apenas suspeitava... a caravana tinha trazido uma carta de Varys, prevenindo-me de que haveria atentados. Ele a queria vigiada, é certo, mas não machucada. – Ajoelhou-se. – Se não lhes tivesse dito nada, alguém o teria feito. Sabe disso.
– O que eu sei é que me traiu. – Tocou a barriga, onde o filho Rhaego perecera. – O que sei é que um envenenador tentou matar o meu filho graças a você. É isso o que eu sei.
– Não... não. – Ele sacudiu a cabeça. – Eu nunca quis... perdoe-me. Tem de me perdoar.
– Tenho? – era tarde demais. Ele devia ter começado por suplicar perdão. Não podia perdoá-lo como tinha pretendido. Ela tinha arrastado o vendedor de vinhos preso ao cavalo até nada restar dele. Não mereceria o mesmo o homem que o trouxera? Este é Jorah, o meu urso feroz, o braço direito que nunca me falhou. Estaria morta sem ele, mas... – Não posso perdoá-lo – disse. – Não posso.
– Perdoou o velho...
– Ele mentiu para mim a respeito do nome. Você vendeu os meus segredos aos homens que mataram meu pai e roubaram o trono de meu irmão.
– Protegi-a. Lutei por você. Matei por você.
Beijou-me, pensou ela, traiu-me.
– Entrei nos esgotos como se fosse uma ratazana. Por você.
Poderia ter sido uma bondade se lá tivesse morrido. Dany nada disse. Nada havia a dizer.
– Daenerys – disse ele –, eu amei-a.
E aí estava. Três traições conhecerá. Uma vez por sangue, uma vez por ouro e uma vez por amor.
– Os deuses não fazem nada sem um objetivo, segundo dizem. Não morreu em batalha, portanto isso deve querer dizer que ainda tem uma utilidade qualquer para eles. Mas para mim, não. Não o quero perto de mim. Está banido, sor. Volte para junto dos seus chefes em Porto Real e receba o seu perdão, se puder. Ou vá para Astapor. O rei carniceiro irá sem dúvida precisar de cavaleiros.
– Não. – Ele estendeu a mão para ela. – Daenerys, por favor, escute-me...
Ela afastou a mão dele com um tapa.
– Nunca tenha a ousadia de voltar a tocar em mim ou proferir o meu nome. Tem até a alvorada para juntar as suas coisas e abandonar esta cidade. Se for encontrado em Meereen após o raiar do dia, ordenarei a Belwas, o Forte, que arranque sua cabeça. E farei isso. Acredite no que lhe digo. – Virou as costas para ele, fazendo rodopiar as saias. Não suporto ver o seu rosto. – Tirem este mentiroso da minha vista – ordenou. Não posso chorar. Não posso. Se chorar, vou perdoá-lo. Belwas, o Forte, pegou no braço de Sor Jorah e arrastou-o para fora da sala. Quando Dany deu um relance para trás, o cavaleiro caminhava como se estivesse bêbado, aos tropeções e lentamente. Afastou o olhar até ouvir o abrir e fechar das portas. Então afundou-se novamente no banco de ébano. Então ele partiu. O meu pai e a minha mãe, os meus irmãos, Sor Willem Darry, Drogo, que era o meu sol-e-estrelas, o filho dele que morreu dentro de mim e agora Sor Jorah...
– A rainha tem bom coração – ronronou Daario através de sua barba de um roxo profundo –, mas aquele homem é mais perigoso do que todos os Oznaks e Meros combinados num só. – As fortes mãos do mercenário acariciaram o cabo de suas armas idênticas, aquelas sensuais mulheres douradas. – Nem precisa dizer uma palavra, meu esplendor. Faça apenas o menor dos acenos, e o seu Daario trará à senhora a feia cabeça de Jorah.
– Deixe-o em paz. Os pratos da balança agora estão equilibrados. Deixe-o ir para casa. – Dany imaginou Jorah deslocando-se por entre velhos carvalhos nodosos e grandes pinheiros, passando por espinheiros em flor, pedras cinzentas barbadas de musgo e pequenos arroios correndo, gelados, por vertentes íngremes. Viu-o entrando num salão feito de enormes troncos de árvores, onde cães dormiam junto à lareira e o cheiro da carne e do hidromel pairava, pesado, no ar cheio de fumaça. – Por enquanto terminamos – disse aos seus capitães.
Foi com dificuldade que não subiu correndo as amplas escadas de mármore. Irri ajudou-a a despir o traje para audiências e a colocar vestes mais confortáveis; calções largos de lã, uma túnica solta de feltro, um colete pintado dothraki.
– Está tremendo, khaleesi – disse a garota ao ajoelhar-se para amarrar as sandálias de Dany.
– Tenho frio – mentiu Dany. – Traga-me o livro que eu estava lendo ontem à noite. – Desejava perder-se nas palavras, em outros tempos e outros lugares. O grosso volume encadernado em couro estava cheio de canções e histórias dos Sete Reinos. Histórias infantis, a bem da verdade; simples e fantasiosas demais para serem história verdadeira. Todos os heróis eram altos e bonitos, e podia-se identificar os traidores por seus olhos matreiros. Mas adorava-as mesmo assim. Na noite passada estivera lendo a história das três princesas na torre vermelha, trancadas pelo rei pelo crime de serem belas.
Quando a aia trouxe o livro, Dany não teve dificuldade em encontrar a página em que tinha parado, mas não valia a pena. Deu por si lendo a mesma passagem meia dúzia de vezes. Sor Jorah deu-me este livro como presente de casamento, no dia em que desposei Khal Drogo. Mas Daario tem razão, não o devia ter banido. Devia tê-lo conservado ao meu lado, ou matado. Representava o papel de rainha, mas às vezes sentia-se ainda como uma garotinha assustada. Viserys andava sempre dizendo como eu era tola. Seria realmente louco? Fechou o livro. Ainda podia chamar Sor Jorah, se quisesse. Ou mandar Daario matá-lo.
Dany fugiu da decisão para o terraço. Foi dar com Rhaegal adormecido junto à piscina, um novelo verde e brônzeo tostando ao sol. Drogon estava empoleirado no topo da pirâmide, no local onde a enorme harpia de bronze tinha estado antes de ela ordenar que fosse derrubada. Abriu as asas e rugiu quando a viu. Não se via sinal de Viserion, mas quando se dirigiu ao parapeito e perscrutou o horizonte, viu asas pálidas a distância, pairando sobre o rio. Está caçando. Tornam-se mais ousados a cada dia que passa. Mas ainda ficava ansiosa quando voavam até muito longe. Um dia, um deles pode não voltar, pensou.
– Vossa Graça?
Virou-se para deparar com Sor Barristan atrás de si.
– O que mais quer de mim, sor? Poupei-o, aceitei-o ao meu serviço, dê-me agora alguma paz.
– Perdoe-me, Vossa Graça. É que... agora que sabe quem eu sou... – O velho hesitou. – Um cavaleiro da Guarda Real está na presença do rei dia e noite. Por esse motivo, nossos votos exigem que protejamos seus segredos tal como protegeríamos sua vida. Mas os segredos de seu pai são agora por direito seus, bem como seu trono, e... pensei que talvez tivesse questões a me fazer.
Questões? Tinha uma centena de questões, um milhar, dez milhares. Por que não conseguia se lembrar de nenhuma?
– Meu pai era realmente louco? – perguntou antes de conseguir evitar. Por que é que eu perguntei isso? – Viserys dizia que essa conversa de loucura era uma manobra do Usurpador...
– Viserys era uma criança, e a rainha protegeu-o o máximo que pôde. Agora creio que o seu pai sempre teve em si um pouco de loucura. Mas era também encantador e generoso, de modo que suas pequenas falhas eram esquecidas. Seu reinado começou tão promissor... mas à medida que os anos iam passando, as falhas tornaram-se mais frequentes, até que...