Dany fê-lo parar.
– Será que eu quero ouvir isso agora?
Sor Barristan refletiu por um momento.
– Talvez não. Agora não.
– Agora não – concordou. – Um dia. Um dia deve me contar tudo. As coisas boas e ruins. Há algo de bom a ser contado a respeito de meu pai, certamente?
– Há, Vossa Graça. A respeito dele, e a respeito dos que vieram antes dele. Seu avô Jaehaerys e o irmão, o pai deles, Aegon, a sua mãe... e Rhaegar. Acima de tudo a respeito dele.
– Gostaria de ter podido conhecê-lo. – Sua voz estava melancólica.
– Gostaria que ele pudesse tê-la conhecido – disse o velho cavaleiro. – Quando estiver pronta, contarei tudo.
Dany deu um beijo no rosto de Sor Barristan e mandou-o embora.
Naquela noite, as aias trouxeram-lhe carneiro, com uma salada de passas e cenouras embebidas em vinho e um pão quente e farelento que pingava de mel. Não conseguiu comer nem uma migalha. Terá Rhaegar alguma vez se sentido tão exausto?, perguntou a si mesma. Ou Aegon, após a sua conquista?
Mais tarde, quando chegou o momento de dormir, Dany levou Irri consigo para a cama, pela primeira vez desde o navio. Mas mesmo enquanto estremecia de prazer e enredava os dedos nos espessos cabelos negros da aia, fazia de conta que era Drogo que tinha nos braços... porém, de algum modo, seu rosto não parava de se transformar no de Daario. Se desejar Daario, só tenho de dizer. Ficou deitada com as pernas de Irri entrelaçadas nas suas. Os olhos dele pareciam quase púrpura, hoje...
Os sonhos de Dany foram sombrios naquela noite, e ela acordou três vezes, por conta de pesadelos ainda meio frescos na memória. Na terceira vez estava muito inquieta para voltar a dormir. O luar se infiltrava pelas janelas oblíquas, cobrindo o piso de mármore de prateado. Uma brisa fresca soprava pelas portas abertas do terraço. Irri dormia sonoramente a seu lado, com os lábios levemente entreabertos, um mamilo surgindo por sobre as sedas de dormir. Por um momento, Dany sentiu-se tentada, mas era Drogo que queria, ou talvez Daario. Não Irri. A aia era doce e habilidosa, mas seus beijos tinham gosto de dever.
Levantou-se, deixando Irri adormecida ao luar. Jhiqui e Missandei estavam dormindo em suas camas. Dany enfiou-se numa túnica e atravessou descalça o chão de mármore, dirigindo-se ao terraço. O ar estava gelado, mas gostou da sensação da relva entre os dedos dos pés e do som das folhas sussurrando umas para as outras. Ondulações provocadas pelo vento perseguiam-se pela superfície da pequena piscina para banhos e faziam o reflexo da lua dançar e tremeluzir.
Encostou-se a um parapeito baixo de tijolo a fim de olhar para baixo, para a cidade. Meereen também dormia. Perdida em sonhos sobre dias melhores, talvez. A noite cobria as ruas como uma manta negra, escondendo os cadáveres e as ratazanas cinzentas que saíam dos esgotos para se banquetearem com eles, os enxames de moscas que picavam. Tochas distantes cintilavam, vermelhas e amarelas, no local onde as sentinelas faziam suas rondas, e aqui e ali viu o tênue clarão de lanternas oscilando ao longo de uma viela. Talvez uma delas fosse Sor Jorah, levando lentamente o cavalo pela arreata na direção do portão. Adeus, velho urso. Adeus, traidor.
Ela era Daenerys Filha da Tormenta, a Não Queimada, khaleesi e rainha, Mãe de Dragões, matadora de feiticeiros, quebradora de correntes, e não havia ninguém neste mundo em quem pudesse confiar.
– Vossa Graça? – Missandei estava a seu lado, enrolada num roupão, com sandálias de lã nos pés. – Acordei e vi que tinha saído. Dormiu bem? Para onde está olhando?
– Para a minha cidade – disse Dany. – Estava à procura de uma casa com uma porta vermelha, mas à noite todas as portas são negras.
– Uma porta vermelha? – Missandei estava confusa. – Que casa é essa?
– Não é casa nenhuma. Não importa. – Dany pegou na mão da garota mais nova. – Nunca minta para mim, Missandei. Nunca me traia.
– Nunca o farei – prometeu Missandei. – Veja, a alvorada chega.
O céu tinha se tornado azul-cobalto do horizonte ao zênite, e por trás da linha de colinas baixas, a leste, via-se um clarão, de ouro pálido e cor de ostra. Dany ficou vendo o sol subir ao céu, de mãos dadas com Missandei. Todos os tijolos cinza se tornaram vermelhos, amarelos, azuis, verdes e laranja. As areias escarlate das arenas de luta transformaram-se em chagas sangrando perante seus olhos. Em outro local, a cúpula dourada do Templo das Graças refulgia brilhantemente, e estrelas de bronze tremeluziam ao longo das muralhas nos locais onde a luz do sol nascente tocava os espigões dos capacetes dos Imaculados. No terraço, um punhado de moscas agitou-se indolentemente. Uma ave pôs-se a gorjear no caquizeiro, logo seguida por mais duas. Dany inclinou a cabeça para escutar sua canção, mas não demorou muito até que os ruídos da cidade que acordava a submergissem.
Os ruídos da minha cidade.
Naquela manhã convocou seus capitães e comandantes para o jardim, em vez de descer à sala de audiências.
– Aegon, o Conquistador, trouxe fogo e sangue a Westeros, mas depois deu-lhe paz, prosperidade e justiça. Mas tudo que eu trouxe à Baía dos Escravos foi morte e ruína. Fui mais khal do que rainha, esmagando e saqueando, e depois seguindo viagem.
– Não há nada por que valha a pena ficar – disse Ben Mulato Plumm.
– Vossa Graça, os senhores de escravos fizeram a perdição cair sobre si mesmos – disse Daario Naharis.
– Trouxe também a liberdade – fez notar Missandei.
– Liberdade para passar fome? – perguntou Dany em tom cortante. – Liberdade para morrer? Serei eu um dragão ou uma harpia? – Serei louca? Terei a mácula?
– Um dragão – disse Sor Barristan num tom que não admitia dúvida. – Meereen não é Westeros, Vossa Graça.
– Mas como serei eu capaz de governar sete reinos, se não conseguir governar uma única cidade? – ele não tinha resposta para aquela pergunta. Dany deu as costas a eles para voltar a olhar a cidade. – Meus filhos precisam de tempo para curar as feridas e aprender. Meus dragões precisam de tempo para crescer e testar as suas asas. E eu preciso das mesmas coisas. Não permitirei que esta cidade siga o caminho de Astapor. Não permitirei que a harpia de Yunkai volte a acorrentar aqueles que eu libertei. – Virou-se novamente para olhar o rosto deles. – Não me porei em marcha.
– Então o que fará, khaleesi? – perguntou Rakharo.
– Ficarei – disse ela. – Governarei. E serei uma rainha.
Jaime
O rei estava sentado à cabeceira da mesa, com uma pilha de almofadas debaixo do traseiro, assinando cada documento que lhe era apresentado.
– Só mais alguns, Vossa Graça – garantiu-lhe Sor Kevan Lannister. – Este é um decreto de confisco contra Lorde Edmure Tully, despojando-o de Correrrio e de todas as suas terras e rendimentos, por rebelião contra o seu legítimo rei. Este é um decreto semelhante, contra o tio, Sor Brynden Tully, o Peixe Negro. – Tommen assinou-os um após o outro, mergulhando cuidadosamente a pena na tinta e escrevendo o seu nome numa letra grande e infantil.
Jaime observava do fundo da mesa, pensando em todos aqueles senhores que aspiravam a um lugar no pequeno conselho do rei. Podem ficar com a porcaria do meu. Se aquilo era o poder, por que teria sabor de tédio? Não se sentia particularmente poderoso vendo Tommen mergulhar de novo a pena no tinteiro. Sentia-se entediado.
E dolorido. Cada músculo de seu corpo doía, e as costelas e os ombros estavam cheios de hematomas, das pancadas que tinham levado, cortesia de Sor Addam Marbrand. Estremecia só de pensar nisso. Só podia ter esperança de que o homem mantivesse a boca fechada. Jaime conhecia Marbrand desde que este era rapaz, quando serviu como pajem em Rochedo Casterly; confiava mais nele do que em qualquer outro. O suficiente para lhe pedir para pegar em escudos e espadas de torneio. Queria saber se seria capaz de lutar com a mão esquerda.