E agora sei. O conhecimento era mais doloroso do que a surra que Sor Addam lhe dera, e a surra fora tão bem dada que quase não tinha conseguido se vestir naquela manhã. Se tivessem lutado a sério, Jaime teria morrido duas dúzias de mortes. Trocar de mão parecia tão simples. Não era. Todos os seus instintos estavam errados. Tinha de pensar sobre tudo, quando antes bastava se mover. E enquanto estava pensando, Marbrand batia nele. A mão esquerda nem sequer parecia capaz de segurar uma espada longa da maneira certa; Sor Addam desarmara-o três vezes, fazendo sua arma rodopiar pelo ar.
– Este concede as ditas terras, rendimentos e castelo a Sor Emmon Frey e à senhora sua esposa, a Senhora Genna. – Sor Kevan apresentou ao rei outro maço de pergaminhos. Tommen mergulhou a pena no tinteiro e assinou. – Isto é um decreto de legitimação para um filho ilegítimo de Lorde Roose Bolton, do Forte do Pavor. E este nomeia Lorde Bolton como o seu Protetor do Norte. – Tommen punha tinta na pena e assinava, punha tinta na pena e assinava. – Este atribui a Sor Rolph Spicer direitos sobre o castelo de Castamere e eleva-o à categoria de lorde. – Tommen rabiscou seu nome.
Devia ter procurado Sor Ilyn Payne, refletiu Jaime. O Magistrado do Rei não era um amigo como Marbrand, e teria sido bem capaz de espancá-lo até tirar sangue... mas sem língua, não era provável que se vangloriasse disso depois. Não seria preciso mais do que um comentário casual de Sor Addam enquanto bebia, e o mundo inteiro logo saberia como ele se tornara inútil. Senhor Comandante da Guarda Real. Isso era uma piada cruel... embora não tanto quanto o presente que o pai tinha lhe enviado.
– Este é o seu real perdão para Lorde Gawen Westerling, a senhora sua esposa e a filha Jeyne, aceitando-os de volta à paz do rei – disse Sor Kevan. – Isto é um perdão para Lorde Jonos Bracken de Barreira de Pedra. Este é para Lorde Vance. Este é para Lorde Goodbrook. Este para Lorde Mooton, de Lagoa da Donzela.
Jaime pôs-se em pé.
– Parece ter esses assuntos bem controlados, tio. Deixarei Sua Graça com o senhor.
– Como quiser. – Sor Kevan também se levantou. – Jaime, devia ir encontrar o seu pai. Essa discórdia entre vocês...
– ... é obra dele. E não irá remediá-la enviando-me presentes debochados. Diga-lhe isso, se conseguir descolá-lo dos Tyrell durante tempo suficiente.
O tio fez uma expressão angustiada.
– O presente foi sincero. Achamos que poderia encorajá-lo...
– ... a fazer crescer uma mão nova? – Jaime virou-se para Tommen. Embora tivesse os caracóis dourados e os olhos verdes de Joffrey, o novo rei pouco mais tinha em comum com o seu falecido irmão. Tinha tendência a engordar, seu rosto era rosado e redondo, e até gostava de ler. Ainda não tem nove anos, este meu filho. O garoto não é o homem. Passariam sete anos até que Tommen governasse de seu pleno direito. Até lá, o reino permaneceria firmemente nas mãos do senhor seu avô. – Senhor – perguntou –, tenho a sua autorização para sair?
– Como quiser, sor tio. – Tommen voltou a olhar para Sor Kevan. – Posso selá-los agora, tio-avô? – pressionar o selo real contra a cera quente era a parte de ser rei que preferia até agora.
Jaime saiu a passos largos da sala do conselho. Do lado de fora, à porta, foi encontrar Sor Meryn Trant, rígido e de guarda, em sua armadura de escamas brancas e manto alvo como a neve. Se este aí ficar sabendo como eu sou fraco, ou o Kettleblack ou o Blount ouvirem alguma coisa sobre isso...
– Fique aqui até Sua Graça acabar – disse – e depois escolte-o de volta a Maegor.
Trant inclinou a cabeça.
– Às ordens, senhor.
Naquela manhã, o pátio exterior estava cheio de gente e ruídos. Jaime dirigiu-se aos estábulos, onde um grande grupo de homens selava os cavalos.
– Pernas-de-Aço! – chamou. – Vai embora?
– Assim que a senhora estiver montada – disse o Pernas-de-Aço Walton. – O senhor de Bolton espera-nos. Aí está ela.
Um palafreneiro conduzia uma bela égua cinza através da porta do estábulo. No dorso do animal vinha montada uma garota magricela de olhos encovados, envolta num manto pesado. Era cinza, tal como o vestido que usava por baixo, e debruado de cetim branco. O broche que o prendia ao peito era trabalhado na forma de uma cabeça de lobo com olhos fendidos de opala. Os longos cabelos castanhos da garota eram violentamente soprados pelo vento. Achou que ela tinha um rosto bonito, mas os olhos eram tristes e cautelosos.
Quando o viu, inclinou a cabeça.
– Sor Jaime – disse, numa voz fina e ansiosa. – Foi gentil em vir se despedir de mim.
Jaime estudou-a de perto.
– Ah, então me conhece?
Ela mordeu o lábio.
– Talvez não se recorde, senhor, pois eu era pequena naquela altura... mas tive a honra de conhecê-lo em Winterfell quando o Rei Robert veio visitar meu pai, Lorde Eddard. – Baixou seus grandes olhos castanhos e murmurou: – Sou Arya Stark.
Jaime nunca tinha prestado muita atenção em Arya Stark, mas parecia-lhe que aquela garota era mais velha.
– Segundo ouvi dizer, você irá se casar.
– Deverei me casar com o filho de Lorde Bolton, Ramsay. Ele era um Snow, mas Sua Graça fez dele um Bolton. Dizem que é muito corajoso. Estou muito feliz.
Então por que é que parece tão assustada?
– Desejo-lhe felicidades, senhora. – Jaime virou-se de volta para Pernas-de-Aço. – Tem o dinheiro que lhe foi prometido?
– Sim, e distribuímo-lo. Tem os meus agradecimentos. – O nortenho sorriu. – Um Lannister sempre paga as suas dívidas.
– Sempre – disse Jaime, lançando um último relance à menina. Perguntou a si mesmo se haveria muitas semelhanças. Não que isso importasse. A verdadeira Arya Stark estava, com toda a probabilidade, enterrada em alguma sepultura anônima na Baixada das Pulgas. Com os irmãos mortos, bem como ambos os pais, quem se atreveria a chamar aquela garota de fraude? – Boa viagem – disse a Pernas-de-Aço. Nage ergueu a sua bandeira de paz, e os nortenhos formaram uma coluna tão cheia de buracos quanto seus mantos de peles e trotaram através do portão do castelo. A menina magra montada na égua cinza parecia pequena e desamparada no meio deles.
Alguns dos cavalos ainda recuavam perante a mancha escura no chão de terra batida, no local onde a terra tinha bebido o sangue vital do cavalariço que Gregor Clegane matara tão desajeitadamente. Aquela visão deixou Jaime furioso de novo. Tinha dito à Guarda Real para manter a multidão afastada, mas aquele palerma do Sor Boros se distraiu com o duelo. O idiota do rapaz partilhava parte da culpa, com certeza; e o dornês morto também. E acima de todos Clegane. O golpe que cortou o braço do rapaz tinha sido um infortúnio, mas aquele segundo golpe...
Bem, Gregor está pagando por ele agora. O Grande Meistre Pycelle andava tratando os ferimentos do homem, mas os uivos que ressoavam nos aposentos do meistre sugeriam que a cura não estava correndo tão bem como poderia.
– A carne gangrena e as feridas soltam pus – disse Pycelle ao conselho. – Nem mesmo as larvas querem tocar naquela imundície. Suas convulsões são tão violentas que tive de amordaçá-lo para evitar que cortasse a língua com os dentes. Removi o máximo de tecido que me atrevi a cortar e tratei a putrefação com vinho fervente e bolor de pão, mas sem resultado. As veias de seu braço estão se tornando negras. Quando o sangrei, todas as sanguessugas morreram. Senhores, tenho de saber qual foi a maligna substância que o Príncipe Oberyn usou na lança. Detenhamos os outros dorneses até se tornarem mais cooperativos.