– Entregou-a a ele? – gritou ela, consternada. – Prestou um juramento à Senhora Catelyn...
– Com uma espada encostada na garganta, mas deixemos isso de lado. A Senhora Catelyn está morta. Não poderia devolver as filhas a ela mesmo se as tivesse em meu poder. E a garota que o meu pai mandou com Pernas-de-Aço não é Arya Stark.
– Não é Arya Stark?
– Você ouviu. O senhor meu pai encontrou uma nortenha magricela mais ou menos da mesma idade com mais ou menos as mesmas cores. Vestiu-a de branco e cinza, deu-lhe um lobo de prata para prender o manto e botou-a a caminho para se casar com o bastardo de Bolton. – Ergueu o coto para apontar para ela. – Quis dizer-lhe isso antes que partisse a galope para salvá-la e se fizesse matar inutilmente. Não é nada má com uma espada, mas não é suficientemente boa para derrotar sozinha duzentos homens.
Brienne sacudiu a cabeça.
– Quando Lorde Bolton souber que o seu pai lhe pagou com moeda falsa...
– Oh, ele sabe. Os Lannister mentem, lembra? Não importa, a garota serve ao seu propósito igualmente bem. Quem irá dizer que ela não é Arya Stark? Todo mundo de que a garota era próxima está morto, exceto a irmã, que desapareceu.
– Por que me contaria tudo isso se fosse verdade? Está traindo os segredos de seu pai.
Os segredos da Mão, pensou ele. Já não tenho pai.
– Eu pago as minhas dívidas, como todos os outros leõezinhos bons. Prometi as filhas à Senhora Stark... e uma delas continua viva. Meu irmão pode saber onde se encontra, mas se sabe, não o diz. Cersei está convencida de que Sansa o ajudou a assassinar Joffrey.
A boca da moça fez uma expressão obstinada.
– Não acreditarei que aquela garota gentil é uma envenenadora. A Senhora Catelyn disse que ela tinha um coração afetuoso. Foi o seu irmão. Houve um julgamento, disse Sor Loras.
– Na verdade, houve dois. Tanto as palavras como as espadas lhe falharam. Uma bagunça sangrenta. Assistiu da janela?
– Minha cela dá para o mar. Mas ouvi os gritos.
– O Príncipe Oberyn de Dorne está morto, Sor Gregor Clegane, moribundo, e Tyrion condenado perante os olhos dos deuses e dos homens. Ele será mantido numa cela negra até o matarem.
Brienne olhou-o.
– Não acredita que tenha sido ele.
Jaime concedeu-lhe um sorriso duro.
– Vê, garota? Conhecemo-nos bem demais. Tyrion deseja ser eu desde que deu o primeiro passo, mas nunca me seguiria no regicídio. Foi Sansa Stark quem matou Joffrey. Meu irmão manteve silêncio para protegê-la. Ele tem esses ataques de galanteria de vez em quando. O último custou-lhe um nariz. Dessa vez custará a cabeça.
– Não – disse Brienne. – Não foi a filha da minha senhora. Não pode ter sido ela.
– Aí está a garota teimosa e burra de que me lembro.
Ela enrubesceu.
– Meu nome é...
– Brienne de Tarth. – Jaime suspirou. – Tenho um presente para você. – Estendeu a mão por baixo da cadeira do Senhor Comandante e tirou-a para fora, envolta em dobras de veludo carmesim.
Brienne aproximou-se como se a trouxa pudesse mordê-la, estendeu uma enorme mão sardenta e afastou uma dobra de tecido. Rubis cintilaram à luz. Pegou cuidadosamente no tesouro, enrolou os dedos em volta do cabo de couro e libertou lentamente a espada de sua bainha. As ondulações brilharam de sangue e negrume. Um dedo de luz refletida correu, vermelho, ao longo do gume.
– Isto é aço valiriano? Nunca vi cores assim.
– Nem eu. Houve um tempo em que teria dado a mão direita para brandir uma espada como essa. Agora parece que o fiz, portanto a lâmina é desperdiçada em mim. Aceite-a. – Antes que ela pudesse pensar em recusar, prosseguiu. – Uma espada tão boa precisa de um nome. Ficaria feliz se chamasse esta de Cumpridora de Promessas. Mais uma coisa. A lâmina tem um preço.
O rosto dela tornou-se sombrio.
– Eu disse-lhe, nunca servirei...
– ... criaturas tão malvadas. Sim, eu me lembro. Ouça-me até o fim, Brienne. Ambos prestamos juramentos a propósito de Sansa Stark. Cersei pretende assegurar-se de que a garota seja encontrada e morta, não importa onde ela tenha se enfiado...
O rosto simples de Brienne torceu-se de fúria.
– Se acredita que eu faria mal à filha de minha senhora em troca de uma espada, você...
– Cale-se e ouça – exclamou ele, irritado pelas suposições dela. – Quero que encontre Sansa primeiro e que a leve para qualquer lugar seguro. De outro modo, como nós iremos cumprir os estúpidos juramentos que prestamos à sua preciosa e falecida Senhora Catelyn?
A moça pestanejou.
– Eu... eu pensei...
– Eu sei o que pensou. – De repente, Jaime ficou farto de olhar para ela. Bale como uma porcaria de uma ovelha. – Quando Ned Stark morreu, a espada dele foi oferecida ao Magistrado do Rei – disse-lhe. – Mas meu pai achou que uma lâmina tão boa era desperdiçada num mero carrasco. Deu uma nova espada a Sor Ilyn, e mandou fundir a Gelo e forjá-la novamente. Havia metal suficiente para duas lâminas novas. Tem uma delas na mão. Portanto, irá proteger a filha de Ned Stark com o aço do próprio Ned Stark, se é que isso faz alguma diferença para você.
– Sor, eu... eu devo-lhe um pedido de desc...
Jaime interrompeu-a.
– Pegue a porcaria da espada e vá embora, antes que eu mude de ideia. Há uma égua baia nos estábulos, tão feia quanto você, mas um pouco mais bem treinada. Vá em perseguição do Pernas-de-Aço, vá em busca de Sansa, ou vá para casa, para a sua ilha de safiras, não me interessa. Não quero olhar mais para você.
– Jaime...
– Regicida – relembrou-lhe. – É melhor que use essa espada para limpar a cera dos ouvidos, garota. Nossa conversa acabou.
Teimosamente, ela insistiu.
– Joffrey era seu...
– Meu rei. Deixe as coisas assim.
– Diz que Sansa o matou. Por que protegê-la?
Porque Joff não me era mais do que um esguicho de sêmen na boceta de Cersei. E porque merecia morrer.
– Fiz reis e desfi-los. Sansa Stark é minha última oportunidade de honra. – Jaime deu um ligeiro sorriso. – Além disso, os regicidas deviam se juntar. Nunca mais vai embora?
A grande mão de Brienne fechou-se com força em volta da Cumpridora de Promessas.
– Vou. E encontrarei a garota e a manterei a salvo. Pela senhora mãe dela. E por você. – Fez uma reverência rígida, virou-se e saiu.
Jaime ficou sentado à mesa, sozinho, enquanto as sombras iam enchendo a sala. Quando o ocaso começou a se instalar, acendeu uma vela e abriu o Livro Branco em sua página. Encontrou pena e tinta numa gaveta. Por baixo da última linha escrita por Sor Barristan, escreveu numa letra desajeitada que poderia ter sido elogiada numa criança de seis anos que estivesse aprendendo as primeiras letras com o meistre:
Derrotado no Bosque dos Murmúrios pelo Jovem Lobo Robb Stark durante a Guerra dos Cinco Reis. Mantido cativo em Correrrio e resgatado em troca de uma promessa não cumprida. Capturado de novo pelos Bravos Companheiros e mutilado por ordem de Vargo Hoat, o capitão deles, perdendo a mão da espada pela lâmina de Zollo, o Gordo. Devolvido em segurança a Porto Real por Brienne, a Donzela de Tarth.
Quando terminou, ainda restava encher mais de três quartos de sua página, entre o leão de ouro no escudo carmesim ao topo e o escudo branco e vazio no fundo. Sor Gerold Hightower tinha começado a sua história e Sor Barristan Selmy continuara-a, mas o resto teria de ser escrito pelo próprio Jaime Lannister. Dali em diante, poderia escrever o que quer que decidisse escrever.
O que quer que decidisse...
Jon
O vento soprava forte do leste, tão forte que a pesada gaiola balançava sempre que uma rajada a apanhava em seus dentes. Uivava ao longo da Muralha, tremendo pelo gelo, fazendo o manto de Jon esvoaçar de encontro às barras. O céu era um cinza de ardósia, o sol, nada mais do que uma tênue mancha brilhante por trás das nuvens. Para além do campo de morte, via a cintilação de mil fogueiras ardendo, mas suas luzes pareciam pequenas e impotentes contra tamanha escuridão e frio.