Выбрать главу

Um dia carregado. Jon Snow envolveu as barras com mãos enluvadas e segurou-se bem, enquanto o vento martelava a gaiola mais uma vez. Quando olhou para baixo, por entre os pés, viu o chão perdido em sombras, como se estivesse sendo baixado para um poço sem fundo. Bem, a morte é uma espécie de poço sem fundo, refletiu, e quando a obra deste dia estiver concluída, meu nome ficará para sempre envolto em sombras.

Os homens diziam que as crianças bastardas nasciam da luxúria e da mentira; a sua natureza era libertina e traiçoeira. Antes, Jon pretendia provar que isso era um erro, mostrar ao senhor seu pai que podia ser um filho tão bom e leal quanto Robb. Arruinei tudo isso. Robb tinha se transformado num rei herói; se Jon fosse por acaso recordado, seria como vira-casaca, perjuro e assassino. Estava feliz por Lorde Eddard não estar vivo para assistir à sua vergonha.

Devia ter ficado naquela gruta com Ygritte. Se houvesse uma vida para além daquela, esperava dizer-lhe isso. Ela vai arranhar meu rosto como a águia e amaldiçoar-me de ser covarde, mas direi mesmo assim. Flexionou a mão da espada, como Meistre Aemon lhe ensinara a fazer. O hábito tinha se tornado parte de si e precisaria dos dedos flexíveis para ter nem que fosse meia chance de assassinar Mance Rayder.

Tinham-no tirado para fora naquela manhã, depois de quatro dias passados no gelo, fechado numa cela de um metro e meio por um metro e meio por um metro e meio, baixa demais para se pôr em pé, apertada demais para se deitar de costas. Os intendentes tinham há muito descoberto que a comida e a carne duravam mais tempo nos armazéns de gelo esculpidos na base da Muralha... mas os prisioneiros não.

“Morrerá aqui, Lorde Snow”, disse Sor Alliser imediatamente antes de fechar a pesada porta de madeira, e Jon tinha acreditado nele. Mas naquela manhã tinham vindo tirá-lo de lá e tinham-no levado, cheio de cãibras e tremendo, à Torre do Rei, para comparecer uma vez mais perante o queixudo Janos Slynt.

– Aquele velho meistre diz que não posso enforcá-lo – declarou Slynt. – Escreveu a Cotter Pyke, e até teve o maldito descaramento de me mostrar a carta. Diz que não é nenhum vira-casaca.

– Aemon viveu tempo demais, senhor – garantiu-lhe Sor Alliser. – Seu discernimento tornou-se tão escuro como os olhos.

– Sim – disse Slynt. – Um cego com uma corrente em volta do pescoço, quem ele pensa que é?

Aemon Targaryen, pensou Jon, filho de um rei e irmão de um rei, e um rei que poderia ter sido. Mas nada disse.

– Mesmo assim – falou Slynt –, não quero que se diga que Janos Slynt enforcou um homem injustamente. Não quero. Decidi dar-lhe uma última chance de demonstrar que é tão leal como diz ser, Lorde Snow. Uma última chance de cumprir o seu dever, sim! – Levantou-se. – Mance Rayder quer parlamentar conosco. Sabe que não tem chances, agora que Janos Slynt chegou, portanto quer conversar, este Rei-para-lá-da-Muralha. Mas o homem é covarde, e não quer vir até nós. Sem dúvida que sabe que o penduraria na forca. Penduraria pelos pés do topo da Muralha, na ponta de uma corda com sessenta metros de comprimento! Mas ele não vem. Pede que lhe mandemos um enviado.

– Vamos mandá-lo, Jon Snow. – Sor Alliser sorriu.

– Eu. – A voz de Jon não tinha vida. – Por que eu?

– Acompanhou estes selvagens – disse Thorne. – Mance Rayder conhece você. Estará mais inclinado a confiar em você.

Aquilo era tão errado que Jon poderia ter rido.

– Entendeu as coisas ao contrário. Mance suspeitou de mim desde o início. Se aparecer em seu acampamento de novo com um manto negro e falando pela Patrulha da Noite, saberá que o traí.

– Ele pediu um enviado, e nós vamos enviar um – disse Slynt. – Se for covarde demais para enfrentar este rei vira-casaca, podemos devolvê-lo à sua cela de gelo. Dessa vez sem as peles, parece-me. Sim.

– Não há necessidade disso, senhor – disse Sor Alliser. – Lorde Snow fará o que pedimos. Ele quer nos mostrar que não é nenhum vira-casaca. Quer mostrar que é um membro leal da Patrulha da Noite.

Jon tinha notado que Thorne era, de longe, o mais inteligente dos dois; aquilo fedia a obra dele por todo o lado. Estava preso numa armadilha.

– Eu vou – disse, numa voz apertada e seca.

– Senhor – lembrou Janos Slynt. – Vai me tratar por...

– Eu vou, senhor. Mas está cometendo um erro, senhor. Está mandando o homem errado, senhor. Ver-me será o suficiente para enfurecer Mance. O senhor teria uma melhor possibilidade de conseguir um acordo se enviasse...

– Um acordo? – Sor Alliser soltou um risinho.

– Janos Slynt não faz acordos com selvagens sem lei, Lorde Snow. Não, não faz.

– Não o estamos enviando para falar com Mance Rayder – disse Sor Alliser. – Estamos enviando-o para matar Mance Rayder.

O vento assobiou por entre as barras, e Jon Snow estremeceu. Tinha a perna latejando e a cabeça também. Não tinha condições de matar um gatinho, mas ali estava. A armadilha tinha dentes. Com Meistre Aemon a insistir na inocência de Jon, Lorde Janos não se atrevera a deixá-lo no gelo para morrer. Aquilo era melhor.

“Nossa honra não significa mais do que nossas vidas, desde que o reino fique em segurança”, Qhorin Meia-Mão tinha dito nas Presas de Gelo. Precisava se lembrar daquilo. Quer matasse Mance, quer apenas tentasse e falhasse, o povo livre iria matá-lo. Até a deserção era impossível, se estivesse inclinado a tal coisa; para Mance, ele era um mentiroso e traidor comprovado.

Quando a gaiola parou com um solavanco, Jon saltou para o chão e sacudiu o cabo de Garralonga para que a lâmina bastarda ficasse solta dentro da bainha. O portão estava a alguns metros para a sua esquerda, ainda bloqueado pelos restos estilhaçados da tartaruga, com a carcaça de um mamute apodrecendo lá dentro. Havia também outros cadáveres, espalhados entre barris quebrados, piche endurecido e manchas de mato queimado, tudo sob a sombra da Muralha. Jon não tinha qualquer desejo de se demorar ali. Pôs-se a caminhar na direção do acampamento dos selvagens, passando pelo corpo de um gigante cuja cabeça havia sido esmagada por uma pedra. Um corvo estava arrancando pedaços de cérebro do crânio estilhaçado do gigante. Olhou para cima quando ele passou. “Snow”, gritou para ele. “Snow, snow.” Então abriu as asas e partiu voando.

Assim que começou a avançar, um cavaleiro solitário emergiu do acampamento dos selvagens e veio em sua direção. Perguntou a si mesmo se Mance viria parlamentar na terra de ninguém. Isso podia tornar as coisas mais fáceis, se bem que nada as tornará fáceis. Mas quando a distância entre ambos diminuiu, Jon viu que o homem era baixo e largo, com anéis de ouro cintilando em braços grossos e uma barba branca que se espalhava por seu peito maciço.

Ha! – trovejou Tormund quando se encontraram. – Jon Snow, o corvo. Tive receio de não o ver mais.

– Não sabia que tinha receio de alguma coisa, Tormund.

Aquilo fez o selvagem sorrir.

– Bem dito, moço. Tô vendo que seu manto é negro. O Mance não vai gostar disso. Se veio mudar de lado outra vez, é melhor subir de volta a sua Muralha ali.

– Enviaram-me para tratar com o Rei-para-lá-da-Muralha.

– Tratar? – Tormund riu. – Mas que palavra. Ha! Mance quer conversar, isso lá é verdade. Mas não sei lá muito bem se quer conversar com você.