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– Foi a mim que enviaram.

– Tô vendo isso. Então é melhor vir daí. Quer montar?

– Posso ir a pé.

– Deu-nos boa luta aqui. – Tormund virou o garrano para o acampamento dos selvagens. – Você e seus irmãos. Tenho de admitir. Duzentos mortos e uma dúzia de gigantes. O próprio Mag entrou naquele seu portão e não saiu mais.

– Ele morreu pela espada de um homem valente chamado Donal Noye.

– Ah sim? Era algum grande senhor, esse Donal Noye? Um de seus cavaleiros brilhantes com roupas de baixo em aço?

– Um ferreiro. Só tinha um braço.

– Um ferreiro maneta matou Mag, o Poderoso? Ha! Essa deve ter sido uma luta digna de ser vista. O Mance vai fazer dela uma canção, você vai ver. – Tormund desprendeu um odre da sela e tirou a rolha dele. – Isso vai nos aquecer um pouco. A Donal Noye e a Mag, o Poderoso. – Bebeu um trago e passou o odre para Jon.

– A Donal Noye e a Mag, o Poderoso. – O odre estava cheio de hidromel, mas um hidromel tão potente que encheu os olhos de Jon de água e mandou gavinhas de fogo serpenteando por todo o seu peito. Depois da cela de gelo e da fria descida na gaiola, o calor era bem-vindo.

Tormund recuperou o odre e emborcou mais um trago e depois limpou a boca.

– O Magnar de Thenn jurou à gente que ia ter o portão escancarado, pra que tudo que tivéssemos de fazer fosse passear por ele cantando. Que ia botar a Muralha inteira abaixo.

– Botou abaixo parte dela – disse Jon. – Em cima da própria cabeça.

– Ha! – disse Tormund. – Bem, nunca vi grande utilidade no Styr. Quando um homem não tem nem barba, nem cabelo, nem orelhas, não se pode pegar bem nele quando se luta. – Mantinha o cavalo a passo lento, para que Jon pudesse ir coxeando a seu lado. – O que é que houve com essa perna?

– Uma flecha. Uma das de Ygritte, acho eu.

– Isso é que é mulher. Um dia tá beijando você, no outro o enche de flechas.

– Está morta.

– Ah, é? – Tormund sacudiu tristemente a cabeça. – Uma pena. Se eu fosse dez anos mais novo, tinha raptado-a pra mim. Aqueles cabelos que ela tinha... Bem, as fogueiras mais quentes são as que ardem mais depressa. – Ergueu o odre de hidromel. – A Ygritte, beijada pelo fogo! – bebeu um longo trago.

– A Ygritte, beijada pelo fogo – repetiu Jon quando Tormund lhe entregou o odre. Bebeu um trago ainda mais longo.

– Foi você que a matou?

– Foi um irmão meu. – Jon nunca soube qual, e esperava nunca saber.

– Malditos corvos. – O tom de Tormund era duro, mas estranhamente gentil. – Aquele Lança-Longa roubou-me a filha. Munda, a minha maçãzinha de outono. Raptou-a bem da minha tenda, com os quatro irmãos dela por lá. Toregg passou o tempo todo dormindo, o grande palhaço, e Torwynd... bem, Torwynd, o Manso, isso diz tudo que é preciso dizer, não diz? Mas os mais novos deram luta ao moço.

– E Munda?

– Ela é do meu sangue – disse Tormund com orgulho. – Rasgou o lábio dele e arrancou-lhe metade de uma orelha com uma dentada, e ouvi dizer que ele tem tantos arranhões nas costas que não consegue pôr um manto. Mas gosta bastante dele. E por que não haveria de gostar? Ele não luta com lança, sabe? E nunca lutou. De onde acha que veio aquele nome dele então? Ha!

Jon teve de rir. Mesmo naquela hora, mesmo naquele local. Ygritte gostara do Lança-Longa Ryk. Jon esperava que ele tivesse encontrado alguma alegria com a Munda de Tormund. Alguém tinha de encontrar alegria em algum lugar.

“Você não sabe nada, Jon Snow”, teria dito Ygritte. Sei que vou morrer, pensou. Pelo menos isso sei. “Todos os homens morrem” quase conseguia ouvi-la dizer “e as mulheres também, e todos os animais que voam, nadam ou correm. Não é quando se morre que importa, é como, Jon Snow”. É fácil para você dizer isso, pensou em resposta. Morreu bravamente em batalha, assaltando o castelo de um inimigo. Eu vou morrer como vira-casaca e assassino. E a morte dele também não seria rápida, a menos que viesse na ponta da espada de Mance.

Logo estavam entre as tendas. Era o acampamento selvagem habitual; a vasta confusão de fogueiras e fossas, crianças e cabras vagueando livremente, ovelhas balindo entre as árvores, peles de cavalo penduradas para secar. Não tinha um plano, não tinha ordem, não tinha defesas. Mas havia homens, mulheres e animais por todo lado.

Muitos ignoraram-no, mas a cada um que prosseguia com a sua vida havia dez que paravam para encará-lo; crianças agachadas junto às fogueiras, velhas em carros de cães, habitantes de cavernas com o rosto pintado, corsários com garras, serpentes e cabeças cortadas pintadas em seus escudos, todos se viraram para ver. Jon também viu esposas de lanças, com longos cabelos soprados pelo vento que cheirava a pinheiro e suspirava por entre as árvores.

Ali não havia verdadeiras colinas, mas a tenda de peles brancas de Mance Rayder havia sido erguida num local de terreno elevado e pedregoso bem no limite das árvores. O Rei-para-lá-da-Muralha esperava à porta, com o esfarrapado manto vermelho e negro esvoaçando ao vento. Jon viu que Harma Cabeça de Cão se encontrava com ele, de volta dos ataques e simulações feitos ao longo da Muralha, e Varamyr Seis-Peles também, rodeado por seu gato-das-sombras e dois esguios lobos cinzentos.

Quando viram quem a Patrulha tinha enviado, Harma virou a cabeça e cuspiu, e um dos lobos de Varamyr mostrou os dentes e rosnou.

– Deve ser muito valente ou muito estúpido, Jon Snow – disse Mance Rayder – para voltar para junto de nós vestindo um manto negro.

– O que mais vestiria um homem da Patrulha da Noite?

– Mate-o – instou Harma. – Mande o corpo de volta naquela gaiola que eles têm e diga-lhes que nos mandem outro. Eu fico com a cabeça dele como estandarte. Um vira-casaca é pior que um cão.

– Eu preveni que ele era falso. – O tom de Varamyr era brando, mas seu gato-das-sombras estava fitando Jon com uma expressão faminta nas fendas cinza que eram seus olhos. – Nunca gostei do cheiro dele.

– Recolha as garras, animal. – Tormund Terror dos Gigantes saltou do cavalo. – O moço tá aqui pra ouvir. Se puser uma pata nele, pode ser que eu arranje esse manto de gato-das-sombras que tenho cobiçado.

– Tormund Ama-Corvos – escarneceu Harma. – É um grande saco de vento, velho.

O troca-peles tinha um rosto cinzento, ombros redondos e era calvo, um homem que mais parecia um rato com olhos de lobisomem.

– Depois de um cavalo se habituar à sela, qualquer homem pode montá-lo – disse ele em voz baixa. – Depois de um animal se juntar a um homem, qualquer troca-peles pode entrar nele e montá-lo. Orell estava definhando dentro de suas penas, por isso fiquei com a águia. Mas a junção funciona nos dois sentidos, warg. Orell agora vive dentro de mim, murmurando como o odeia. E eu posso pairar por cima da Muralha e ver com olhos de águia.

– É assim que sabemos – disse Mance. – Sabemos como vocês eram poucos quando detiveram a tartaruga. Sabemos quantos vieram de Atalaialeste. Sabemos como seus suprimentos minguaram. Piche, óleo, flechas, lanças. Até a escada desapareceu, e aquela gaiola só pode içar uns poucos. Nós sabemos. E agora você sabe que sabemos. – Abriu a aba da tenda. – Entre. O resto de vocês, esperem aqui.

– O que, até eu? – disse Tormund.

Especialmente você. Sempre.

Lá dentro fazia calor. Uma pequena fogueira ardia sob os buracos para a fumaça, e um braseiro incandescia junto da pilha de peles onde Dalla jazia, pálida e suando. A irmã estava segurando sua mão. Val, recordou Jon.

– Tive pena quando Jarl caiu – disse-lhe.

Val olhou-o com olhos cinza-claros.

– Ele sempre escalou depressa demais. – Era tão bonita quanto ele lembrava, esguia, com seios cheios, graciosa até em repouso, com malares altos e pronunciados e uma grossa trança de cabelos cor de mel que lhe caía até a cintura.