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– A hora de Dalla está chegando – explicou Mance. – Ela e Val ficarão. Elas sabem o que eu quero dizer.

Jon manteve o rosto imóvel como gelo. Já é suficientemente ruim matar um homem em sua própria tenda sob uma trégua. Terei também de assassiná-lo diante de sua mulher enquanto nasce seu filho? Fechou os dedos da mão da espada. Mance não vestia armadura, mas tinha a espada embainhada junto à anca esquerda. E havia outras armas na tenda, punhais e adagas, um arco e uma aljava cheia de flechas, uma lança de ponta de bronze no chão, ao lado do grande e negro...

... berrante.

Jon prendeu a respiração.

Um berrante de guerra, um berrante de guerra grande como o diabo.

– Sim – disse Mance. – O Berrante do Inverno, que Joramun soprou um dia para despertar os gigantes da terra.

O berrante era enorme, com dois metros e quarenta ao longo da curvatura e tão largo na boca que podia ter enfiado o braço lá dentro até o cotovelo. Se isto veio de um auroque, era o maior que já existiu. A princípio, pensou que as tiras de metal em volta dele eram de bronze, mas quando se aproximou percebeu que eram de ouro. Ouro velho, mais castanho do que amarelo, e gravado com runas.

– Ygritte disse que não chegou a encontrar o berrante.

– Pensa que só os corvos sabem mentir? Eu gostei bastante de você, para um bastardo... mas nunca confiei em você. Um homem tem de ganhar a minha confiança.

Jon encarou-o.

– Se tinha o Berrante de Joramun desde o início, por que não o usou? Para que se incomodar com a construção de tartarugas e com o envio de Thenns para nos matar enquanto dormíamos? Se esse berrante for tudo que as canções dizem que é, por que não simplesmente soprá-lo e pronto?

Foi Dalla quem lhe respondeu, a Dalla da enorme barriga, deitada em sua pilha de peles ao lado do braseiro.

– Nós, o povo livre, sabemos coisas que vocês, os que ajoelham, já esqueceram. Às vezes, a estrada mais curta não é a mais segura, Jon Snow. O Senhor Chifrudo disse um dia que a feitiçaria é uma espada sem cabo. Não há maneira segura de pegar nela.

Mance percorreu com uma mão a curvatura do grande berrante.

– Ninguém vai à caça só com uma flecha na aljava – disse. – Tive a esperança de que Styr e Jarl pegassem seus irmãos desprevenidos e nos abrissem o portão. Afastei a sua guarnição com simulações, incursões e ataques secundários. Bowen Marsh engoliu essa isca, como eu sabia que engoliria, mas seu bando de órfãos e aleijados mostrou-se mais teimoso do que eu esperava. Mas não pense que nos deteve. A verdade é que vocês são poucos demais e nós, muitos. Podia continuar com o ataque aqui e ainda mandar dez mil homens atravessar a Baía das Focas em jangadas e tomar Atalaialeste pela retaguarda. Também podia assaltar a Torre Sombria, conheço tão bem os acessos como qualquer outro homem vivo. Podia mandar homens e mamutes escavar os portões dos castelos que abandonaram, todos ao mesmo tempo.

– Então por que não faz isso? – Jon podia ter puxado Garralonga naquele momento, mas queria ouvir o que o selvagem tinha a dizer.

– Sangue – disse Mance Rayder. – No fim venceria, sim, mas vocês iriam me sangrar, e o meu povo já sangrou o suficiente.

– Suas perdas não foram assim tão pesadas.

– Pelas suas mãos, não. – Mance estudou o rosto de Jon. – Viu o Punho dos Primeiros Homens. Sabe o que aconteceu ali. Sabe o que enfrentamos.

– Os Outros...

– Eles ficam mais fortes à medida que os dias se tornam mais curtos e as noites mais frias. Primeiro matam-no, depois mandam seus mortos contra você. Os gigantes não foram capazes de lhes resistir, nem os Thenns, os clãs do rio de gelo ou os Cornopés.

– Nem você?

– Nem eu. – Havia ira naquela admissão, e uma amargura profunda demais para ser expressa por palavras. – Raymun Barba-Vermelha, Bael, o Bardo, Gendel e Gorne, o Senhor Chifrudo, todos eles vieram para o sul para conquistar, mas eu vim com o rabo entre as pernas para me esconder atrás da sua Muralha. – Voltou a encostar no berrante. – Se fizer soar o Berrante do Inverno, a Muralha cairá. Pelo menos é o que as canções me querem fazer crer. Há alguns entre o meu povo que não desejam nada com mais força...

– Mas depois que a Muralha cair – disse Dalla –, o que irá parar os Outros?

Mance concedeu-lhe um sorriso afetuoso.

– É uma mulher sensata, esta que encontrei. Uma verdadeira rainha. – Voltou-se de novo para Jon. – Volte e diga-lhes para abrirem o portão e deixarem-nos passar. Se o fizerem, darei o berrante, e a Muralha ficará em pé até o fim dos tempos.

Abrir o portão e deixá-los passar. Fácil de dizer, mas o que se seguiria? Gigantes acampados nas ruínas de Winterfell? Canibais na mata de lobos, bigas varrendo as terras acidentadas, povo livre raptando as filhas de construtores navais e ourives em Porto Branco e peixeiras ao largo da Costa Pedregosa?

– É um verdadeiro rei? – perguntou Jon subitamente.

– Nunca tive uma coroa na cabeça nem sentei o traseiro na porcaria de um trono, se é isso o que está perguntando – respondeu Mance. – Meu nascimento é tão baixo quanto poderia ser, nenhum septão me besuntou a cabeça com óleos, não sou dono de castelos, e a minha rainha usa peles e âmbar, e não seda e safiras. Sou o meu próprio campeão, o meu próprio bobo e o meu próprio harpista. Não se torna Rei-para-lá-da-Muralha por causa de quem foi o seu pai. O povo livre não seguirá um nome e não se importa com qual dos irmãos nasceu primeiro. Segue lutadores. Quando abandonei a Torre Sombria, havia cinco homens fazendo barulho a respeito de como eles mesmos podiam ser do material de que são feitos os reis. Tormund era um, o Magnar, outro. Matei os outros três, quando deixaram claro que preferiam lutar a me seguir.

– Pode matar seus inimigos – disse Jon sem rodeios –, mas será capaz de governar seus amigos? Se deixarmos seu povo passar, é suficientemente forte para fazê-los manter a paz do rei e obedecer às leis?

– Às leis de quem? Às leis de Winterfell e de Porto Real? – Mance soltou uma gargalhada. – Quando quisermos leis, faremos as nossas. Pode ficar também com a sua real justiça e os seus reais impostos. Estou oferecendo-lhe o berrante, não a nossa liberdade. Não nos ajoelharemos perante vocês.

– E se recusarmos a proposta? – Jon não tinha dúvida de que recusariam. O Velho Urso poderia pelo menos ter escutado, embora recusasse diante da ideia de deixar trinta ou quarenta mil selvagens à solta nos Sete Reinos. Mas Alliser Thorne e Janos Slynt descartariam a ideia logo de cara.

– Se recusarem – disse Mance Rayder –, Tormund Terror dos Gigantes fará soar o Berrante do Inverno dentro de três dias, ao nascer do dia.

Levaria a mensagem para Castelo Negro e contaria a eles sobre o berrante, mas se deixasse Mance vivo, Lorde Janos e Sor Alliser usariam isso como prova de que era um vira-casaca. Mil pensamentos passaram pela cabeça de Jon. Se puder destruir o berrante, esmagá-lo aqui e agora... mas antes de poder começar a pensar bem nisso, ouviu o gemido grave de outro berrante qualquer, atenuado pelas paredes de peles da tenda. Mance também ouviu. Franzindo a testa, dirigiu-se para a porta. Jon seguiu-o.

O berrante de guerra era mais sonoro lá fora. Seu chamado tinha agitado o acampamento dos selvagens. Cavalos relinchavam e resfolegavam, gigantes rugiam no Idioma Antigo e até os mamutes estavam inquietos.

– Berrante de batedor – disse Tormund a Mance.

– Alguma coisa vem aí. – Varamyr estava sentado de pernas cruzadas no chão meio congelado, com os lobos descrevendo círculos agitadamente em volta dele. Uma sombra pairou por cima dele, e Jon ergueu o olhar para ver as asas azul-acinzentadas de uma águia. – Vem do leste.