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“Quando os mortos caminham, muralhas, estacas e espadas não significam nada, recordou. Não pode lutar com os mortos, Jon Snow.” Ninguém sabe disso tão bem quanto eu.

Harma franziu as sobrancelhas.

– Do leste? As criaturas deviam estar atrás de nós.

– Do leste – repetiu o troca-peles. – Alguma coisa vem aí.

– Os Outros? – perguntou Jon.

Mance sacudiu a cabeça.

– Os Outros nunca vêm quando o sol está no céu. – Bigas chocalhavam através do campo de morte, transbordando de guerreiros que brandiam lanças de osso afiado. O rei gemeu. – Onde eles pensam que vão, porra? Quenn, leve aqueles idiotas de volta às suas posições. Alguém me traga o cavalo. A égua, não o garanhão. Também vou querer a minha armadura. – Mance deu um relance desconfiado à Muralha. No topo das ameias geladas, os soldados de palha mantinham-se em pé, colecionando flechas, mas não havia sinal de mais nenhuma atividade. – Harma, ponha em campo os seus batedores. Tormund, vá à procura de seus filhos e arranje uma linha tripla de lanças.

– Sim – disse Tormund, afastando-se a passos largos.

O pequeno troca-peles com ar de rato fechou os olhos e disse:

– Estou vendo-os. Aproximam-se ao longo dos riachos e das trilhas de caça...

Quem?

– Homens. Homens a cavalo. Homens vestidos de aço e homens vestidos de negro.

– Corvos. – Mance transformou a palavra numa praga. Virou-se para Jon. – Será que os meus antigos irmãos pensaram que me apanhariam de calças arriadas se atacassem enquanto estivéssemos conversando?

– Se planejaram um ataque, não me falaram dele. – Jon não acreditava. Lorde Janos não tinha homens suficientes para atacar o campo dos selvagens. Além disso, encontrava-se do lado errado da Muralha, e o portão estava selado com entulho. Ele tinha um tipo diferente de traição em mente, isso não pode ser obra sua.

– Se está outra vez mentindo para mim, não sai vivo daqui – preveniu Mance. Os guardas trouxeram-lhe o cavalo e a armadura. Em outros pontos do acampamento, Jon viu gente correndo desordenadamente, com alguns homens se posicionando como se fossem assaltar a Muralha, enquanto outros se esgueiravam para a floresta, mulheres conduzindo carros de cães para leste, mamutes vagueando para oeste. Estendeu a mão por sobre o ombro e puxou a Garralonga, exatamente no momento em que uma fina linha de patrulheiros emergia do limite da floresta a trezentos metros de distância. Usavam cota de malha negra, meios-elmos negros e mantos negros. Com a armadura meio posta, Mance puxou a espada. – Então você não sabia de nada disto? – disse friamente a Jon.

Lentos como mel numa manhã fria, os patrulheiros caíram sobre o acampamento dos selvagens, abrindo caminho por entre maciços de giestas e pequenos bosques, por sobre raízes e pedras. Selvagens voaram ao seu encontro, berrando gritos de guerra e brandindo tacapes, espadas de bronze e machados de pederneira, galopando temerariamente contra seus velhos inimigos. Um grito, um golpe e uma boa morte valente, era como Jon ouvira os irmãos referindo-se à maneira de lutar do povo livre.

– Acredite no que quiser – disse Jon ao Rei-para-lá-da-Muralha –, mas nada sabia de ataque algum.

Harma passou por eles trovejando antes de Mance poder responder, à frente de trinta corsários. Seu estandarte seguia à sua frente; um cão morto empalado numa lança, fazendo chover sangue a cada passo. Mance observou enquanto ela se esmagava contra os patrulheiros.

– Pode ser que esteja dizendo a verdade – disse. – Estes parecem homens de Atalaialeste. Marinheiros a cavalo. Cotter Pyke sempre teve mais coragem do que juízo. Capturou o Senhor dos Ossos em Monte Longo, pode ter pensado em fazer o mesmo comigo. Se sim, é um idiota. Não tem homens suficientes, ele...

Mance! – soou o grito. Era um batedor, irrompendo de entre as árvores num cavalo coberto de espuma. – Mance, há mais, estão por toda a nossa volta, homens de ferro, ferro, uma tropa de homens de ferro.

Praguejando, Mance saltou para a sela.

– Varamyr, fique e trate de que nenhum mal aconteça a Dalla. – O Rei-para-lá-da-Muralha apontou a espada a Jon. – E mantenha olhos extras neste corvo. Se ele fugir, corte-lhe a goela.

– Sim, eu trato disso. – O troca-peles era uma cabeça mais baixo do que Jon, baixo e mole, mas aquele gato-das-sombras era capaz de estripá-lo com uma pata. – Também estão vindo do norte – disse Varamyr a Mance. – É melhor ir.

Mance colocou o elmo com as suas asas de gralha. Seus homens também tinham montado.

– Ponta de lança – gritou Mance –, a mim, formar em cunha. – Mas quando deu com os calcanhares na égua e voou campo afora ao encontro dos patrulheiros, os homens que correram para acompanhá-lo perderam qualquer semelhança com uma formação.

Jon deu um passo em direção à tenda, pensando no Berrante do Inverno, mas o gato-das-sombras bloqueou-o, com a cauda balançando. As narinas da fera dilataram-se e escorreu saliva de seus dentes curvos da frente. Ele cheira o meu medo. Sentiu então mais do que nunca a falta de Fantasma. Os dois lobos estavam atrás dele, rosnando.

– Estandartes – ouviu Varamyr murmurar –, vejo estandartes dourados, oh... – Um mamute passou pesadamente por eles, bramindo, com meia dúzia de arqueiros na torre de madeira que levava sobre o dorso. – O rei... não...

Então o troca-peles jogou a cabeça para trás e berrou.

O som era chocante, ensurdecedor, pesado de agonia. Varamyr caiu, contorcendo-se, e o gato também estava gritando... e alto, alto no céu oriental, contra a muralha de nuvens, Jon viu a águia queimando. Durante um segundo brilhou mais do que uma estrela, engrinaldada de vermelho, dourado e laranja, batendo violentamente as asas como se fosse capaz de fugir da dor. E subiu, e subiu, e subiu ainda mais alto.

O grito fez Val sair da tenda, pálida.

– Que foi, o que aconteceu? – os lobos de Varamyr estavam lutando um contra o outro e o gato-das-sombras tinha fugido para o meio das árvores, mas o homem continuava se contorcendo no chão. – O que se passa com ele? – quis saber Val, horrorizada. – Onde está o Mance?

– Ali. – Jon apontou. – Foi lutar. – O rei levava a sua cunha esfarrapada na direção de um grupo de patrulheiros, fazendo a espada relampejar.

– Foi? Não pode ter ido, agora não. Começou.

– A batalha? – Jon viu os patrulheiros espalhando-se perante a sangrenta cabeça de cão de Harma. Os corsários gritaram, golpearam e perseguiram os homens de negro até as árvores. Mas havia mais homens saindo da floresta, uma coluna de cavalaria. Cavaleiros em cavalaria pesada, viu Jon. Harma teve de reagrupar e dar a volta para ir a seu encontro, mas metade de seus homens tinha se adiantado em excesso.

– O nascimento! – Val estava gritando-lhe.

Soavam trombetas por todo lado, sonoras e metálicas. Os selvagens não têm trombetas, têm apenas berrantes de guerra. E sabiam disso tão bem quanto ele; o som pôs o povo livre para correr numa confusão, alguns na direção da luta, outros para longe dela. Um mamute estava pisoteando um rebanho de ovelhas que três homens tentavam levar para oeste. Os tambores batiam enquanto os selvagens corriam para formar quadrados e linhas, mas tarde demais e com muita desorganização e lentidão. O inimigo emergia da floresta, de leste, de nordeste, do norte; três grandes colunas de cavalaria pesada, toda revestida de aço escuro e cintilante e sobretudos claros de lã. Não eram os homens de Atalaialeste, esses não tinham passado de uma linha de batedores. Um exército. O rei? Jon sentia-se tão confuso quanto os selvagens. Poderia Robb ter retornado? Teria o rapaz no Trono de Ferro finalmente se posto em movimento?