– Nós pagaremos quando acabarmos de beber – disse Polliver.
– Quando acabar de beber, vai fazer cócegas no estalajadeiro para saber onde ele guarda o ouro. Como faz sempre.
O estalajadeiro lembrou-se de repente de algo que tinha na cozinha. Os homens da terra também estavam saindo, e as garotas já tinham desaparecido. O único som que se ouvia na sala comum era o tênue crepitar do fogo na lareira. Também devíamos ir embora, compreendeu Arya.
– Se anda à procura do Sor, vem tarde demais – disse Polliver. – Ele esteve em Harrenhal, mas já não está. A rainha mandou buscá-lo. – Arya viu que o homem trazia três lâminas à cintura; uma espada longa na anca esquerda e na direita um punhal e uma lâmina mais esguia, longa demais para ser uma adaga e curta demais para ser uma espada. – O Rei Joffrey está morto, sabe? – acrescentou. – Envenenado durante o banquete do próprio casamento.
Arya penetrou um pouco mais na sala. Joffrey está morto. Quase conseguia vê-lo, com os caracóis louros, o sorriso maldoso e os lábios grossos e moles. Joffrey está morto! Sabia que aquilo devia deixá-la feliz, mas de algum modo ainda se sentia vazia por dentro. Joffrey estava morto, mas se Robb também estava, que importava?
– Lá se foram os meus bravos irmãos da Guarda Real. – Cão de Caça soltou uma fungada de desprezo. – Quem foi que o matou?
– O Duende, pensam. Ele e a mulherzinha.
– Que mulher?
– Esquecia-me de que tem estado escondido debaixo de uma pedra. A nortenha. A filha de Winterfell. Ouvimos dizer que ela matou o rei com um feitiço e que depois se transformou num lobo com grandes asas de couro, como as de um morcego, e voou por uma janela de torre. Mas deixou o anão para trás e Cersei quer cortar a cabeça dele.
Isso é estúpido, pensou Arya. Sansa só sabe canções, e não feitiços, e nunca casaria com o Duende.
Cão de Caça sentou-se no banco mais próximo da porta. Sua boca torceu-se, mas só do lado queimado.
– Ela devia mergulhá-lo em fogovivo e cozê-lo. Ou fazer-lhe cócegas até a lua ficar negra. – Ergueu a taça de vinho e esvaziou-a de uma só vez.
Ele é um deles, pensou Arya quando viu aquilo. Mordeu o lábio com tanta força que sentiu o gosto do sangue. É igualzinho a eles. Devia matá-lo quando dormisse.
– Então Gregor tomou Harrenhal? – disse Sandor.
– Não foi preciso tomar muito – disse Polliver. – Os mercenários fugiram assim que souberam que estávamos a caminho, todos menos uns poucos. Um dos cozinheiros abriu uma poterna para a gente entrar, para se vingar de Hoat por lhe ter cortado o pé. – Soltou um risinho. – Ficamos com ele para cozinhar para nós, umas meninas para aquecer nossas camas e passamos todos os outros pela espada.
– Todos os outros? – disse Arya antes de conseguir se segurar.
– Bem, o Sor ficou com Hoat como passatempo.
Sandor disse:
– O Peixe Negro ainda está em Correrrio?
– Não por muito tempo – disse Polliver. – Está cercado. O velho Frey vai enforcar Edmure Tully se ele não entregar o castelo. O único local onde se luta a sério é em volta de Corvarbor. Os Blackwood e os Bracken. Os Bracken agora são dos nossos.
Cão de Caça serviu uma taça de vinho a Arya e outra a si mesmo, e bebeu-a enquanto fitava o fogo na lareira.
– O passarinho voou, foi? Bem, ainda bem para ela. Cagou na cabeça do Duende e voou.
– Vão encontrá-la – disse Polliver. – Nem que seja preciso metade do ouro de Rochedo Casterly.
– Uma garota bonita, segundo ouvi dizer – disse o Cócegas. – Doce como o mel. – Estalou os lábios e sorriu.
– E cortês – concordou Cão de Caça. – Uma senhorinha como deve ser. Ao contrário da porcaria da irmã.
– Também a encontraram – disse Polliver. – A irmã. Ouvi dizer que é para o bastardo de Bolton.
Arya bebericou o vinho para que não vissem sua boca. Não compreendia o que Polliver estava dizendo. Sansa não tem nenhuma outra irmã. Sandor Clegane riu alto.
– O que é tão engraçado assim? – perguntou Polliver.
Cão de Caça não deu nem um relance a Arya.
– Se quisesse que você soubesse, teria dito. Há navios em Salinas?
– Salinas? Como é que eu vou saber? Os mercadores voltaram para a Lagoa da Donzela, segundo ouvi dizer. Randyll Tarly tomou o castelo e trancou Mooton numa cela de torre. Não ouvi porra nenhuma a respeito de Salinas.
Cócegas inclinou-se para a frente.
– Iria se lançar ao mar sem se despedir de seu irmão? – Arya sentiu arrepios ao ouvi-lo fazer uma pergunta. – Sor ia preferir que voltasse a Harrenhal com a gente, Sandor. Aposto que sim. Ou a Porto Real...
– Que isso se foda. Que ele se foda. Que você se foda.
Cócegas encolheu os ombros, endireitou-se e esticou uma mão para as costas, a fim de esfregar a parte de trás do pescoço. Então tudo pareceu acontecer ao mesmo tempo; Sandor pôs-se em pé, Polliver puxou a espada e a mão de Cócegas chicoteou num arco borrado para enviar qualquer coisa prateada relampejando pela sala comum. Se o Cão de Caça não estivesse em movimento, a faca podia ter arrancado o seu pomo de adão; em vez disso, apenas roçou suas costelas, e acabou espetada, tremendo, na parede perto da porta. Ele então riu, uma gargalhada tão fria e vazia como se tivesse saído do fundo de um poço profundo.
– Eu tinha esperança de que fizesse alguma coisa estúpida. – A espada deslizou para fora da bainha bem a tempo de desviar para o lado a primeira estocada de Polliver.
Arya deu um passo para trás quando a longa canção de aço se iniciou. Cócegas saltou do banco com uma espada curta numa mão e um punhal na outra. Até o atarracado escudeiro moreno se levantara, procurando o cabo da espada às apalpadelas. Arya pegou sua taça de vinho que estava sobre a mesa e atirou-a na cara dele. A pontaria foi melhor do que havia sido nas Gêmeas. A taça atingiu-o bem em cheio na grande espinha branca e ele estatelou-se sobre o traseiro.
Polliver era um lutador sombrio e metódico e empurrou firmemente Sandor para trás, movendo a sua pesada espada longa com brutal precisão. Os golpes do Cão de Caça eram mais desleixados, as paradas apressadas, os pés lentos e desajeitados. Ele está bêbado, compreendeu Arya com consternação. Bebeu demais, e depressa demais, sem comida na barriga. E Cócegas estava deslizando ao longo da parede para ficar atrás dele. Arya pegou a segunda taça de vinho e atirou-a nele, mas o homem foi mais rápido do que o escudeiro e desviou a cabeça a tempo. O olhar que lhe dirigiu foi frio e cheio de promessas. Há ouro escondido na aldeia?, conseguia ouvi-lo perguntar. O estúpido do escudeiro estava se agarrando à borda de uma mesa, apoiando-se nela para se pôr de joelhos. Arya sentiu o sabor do início do pânico no fundo da garganta. O medo golpeia mais profundamente do que as espadas. O medo golpeia mais profundamente...
Sandor soltou um grunhido de dor. O lado queimado de seu rosto escorria, vermelho, da têmpora à bochecha, e o coto de orelha desaparecera. Aquilo pareceu zangá-lo. Empurrou Polliver para trás com um ataque furioso, pressionando-o com a velha espada amassada que arranjara nas colinas. O homem barbudo cedeu terreno, mas nenhum dos golpes chegou sequer a tocá-lo. E então o Cócegas saltou sobre um banco, rápido como uma cobra, e golpeou a parte de trás do pescoço do Cão de Caça com a aresta de sua espada curta.
Estão matando-o. Arya não tinha mais taças, mas havia algo melhor para atirar. Puxou o punhal que tinham roubado do arqueiro moribundo e tentou arremessá-lo no Cócegas da mesma maneira que ele tinha feito. Não era o mesmo que atirar uma pedra ou uma maçã, porém. A faca balançou e atingiu-o no braço com o cabo. Ele nem sequer a sentiu. Estava concentrado demais em Clegane.