Foi através deles que ficou sabendo da batalha à sombra da Muralha.
– Stannis desembarcou os seus cavaleiros em Atalaialeste, e Cotter Pyke levou-os pelos caminhos dos patrulheiros, para apanhar os selvagens desprevenidos – contou-lhe o Gigante. – Esmagou-os. Mance Rayder foi capturado, mil de seus melhores guerreiros foram mortos, incluindo Harma Cabeça de Cão. O resto dispersou-se como folhas antes de uma tempestade, segundo ouvimos dizer. – Os deuses são bons, pensou Sam. Se não tivesse se perdido enquanto se dirigia para o sul vindo da Fortaleza de Craster, ele e Goiva podiam ter esbarrado com a batalha... ou com o acampamento de Mance Rayder, pelo menos. Isso poderia ter sido bom para Goiva e o menino, mas não para ele. Sam tinha ouvido todas as histórias sobre aquilo que os selvagens faziam com corvos capturados. Estremeceu.
Mas nada do que os irmãos lhe tinham dito o preparara para o que foi encontrar em Castelo Negro. A sala comum tinha queimado até o chão e a grande escada de madeira era um monte de gelo partido e vigas carbonizadas. Donal Noye estava morto, bem como Rast, Dick Surdo, Alyn Vermelho e tantos outros, e no entanto o castelo tinha mais gente do que Sam alguma vez vira; não eram irmãos negros, mas soldados do rei, mais de mil homens. Havia um rei na Torre do Rei pela primeira vez desde que havia memória, e flutuavam estandartes na Lança, na Torre de Hardin, na Fortaleza Cinzenta, no Salão dos Escudos e em outros edifícios que tinham se mantido vazios e abandonados durante longos anos.
– O grande, o dourado com o veado preto, é o estandarte real da Casa Baratheon – disse Sam para Goiva, que nunca antes tinha visto bandeiras. – A raposa com as flores são da Casa Florent. A tartaruga é de Estermont, o peixe-espada é de Bar Emmon e as trombetas cruzadas pertencem aos Wensington.
– São todos brilhantes como flores. – Goiva apontou. – Gosto daqueles amarelos, com o fogo. Olhe, e alguns dos guerreiros têm a mesma coisa nas blusas.
– Um coração flamejante. Não sei de quem é esse símbolo.
Descobriu bastante depressa.
– Homens da rainha – disse-lhe Pyp (depois de soltar um grito e berrar “Fujam e barrem as portas, rapazes, é Sam, o Matador, que voltou da sepultura”, enquanto Grenn abraçava Sam com tanta força que este achou que suas costelas iam quebrar) –, mas é melhor que não ande por aí perguntando onde está a rainha. Stannis deixou-a em Atalaialeste, com a filha e a frota. Não trouxe mulher nenhuma além da vermelha.
– A vermelha? – perguntou Sam, com incerteza.
– Melisandre de Asshai – disse Grenn. – A feiticeira do rei. Dizem que queimou um homem vivo em Pedra do Dragão para que Stannis tivesse ventos favoráveis para a sua viagem ao norte. E também cavalgou a seu lado na batalha e deu-lhe a espada mágica. Chamam de Luminífera. Espere até vê-la. Brilha como se tivesse um pedaço do sol lá dentro. – Voltou a olhar para Sam e deu um grande, desamparado e estúpido sorriso. – Ainda não consigo acreditar que está aqui.
Jon Snow também tinha sorrido ao vê-lo, mas foi um sorriso cansado, como aquele que mostrava agora.
– Afinal conseguiu voltar – disse. – E também trouxe Goiva. Bom trabalho, Sam.
O próprio Jon havia feito mais do que um bom trabalho, pelo que Grenn contara. Mas nem mesmo a captura do Berrante do Inverno e de um príncipe selvagem eram o bastante para Sor Alliser Thorne e os amigos, que continuavam a chamá-lo de vira-casaca. Embora Meistre Aemon dissesse que o seu ferimento estava sarando bem, Jon tinha outras cicatrizes, mais profundas do que aquelas que lhe rodeavam o olho. Ele chora por sua garota selvagem e pelos irmãos.
– É estranho – disse ele a Sam. – Craster não tinha nenhuma amizade por Mance, nem Mance por Craster, mas agora a filha de Craster está alimentando o filho de Mance.
– Eu tenho leite – disse Goiva, com uma voz suave e acanhada. – O meu só tira um pouco. Não é tão insaciável como este.
A selvagem chamada Val virou-se para eles.
– Ouvi os homens da rainha dizer que a mulher vermelha quer oferecer Mance ao fogo, assim que ele estiver suficientemente forte.
Jon lançou-lhe um olhar fatigado.
– Mance é um desertor da Patrulha da Noite. A pena por esse crime é a morte. Se tivesse sido a Patrulha a capturá-lo, já teria sido enforcado, mas é prisioneiro do rei, e ninguém além da mulher vermelha sabe o que o rei tem na cabeça.
– Quero vê-lo – disse Val. – Quero mostrar-lhe o filho. Ele merece isso antes que o matem.
Sam tentou explicar.
– Ninguém está autorizado a vê-lo exceto o Meistre Aemon, senhora.
– Se estivesse nas minhas mãos, Mance poderia pegar o filho no colo. – O sorriso de Jon desapareceu. – Lamento, Val. – Virou-lhe as costas. – Sam e eu temos que regressar aos deveres. Bem, Sam tem, pelo menos. Perguntaremos se pode visitar Mance. É tudo que posso prometer.
Sam ficou tempo suficiente para dar um apertão na mão de Goiva e prometer voltar depois do jantar. Depois correu atrás de Jon. Havia guardas à porta, homens da rainha com lanças. Jon já estava no meio da escada, mas esperou quando ouviu Sam bufando atrás de si.
– É mais do que amigo de Goiva, não é?
Sam enrubesceu.
– Goiva é boa. É boa e gentil. – Estava feliz por seu longo pesadelo ter terminado, feliz por estar de volta aos seus irmãos em Castelo Negro... mas certas noites, sozinho na cela, pensava no calor de Goiva quando se enrolavam sob as peles com o bebê entre ambos. – Ela... ela tornou-me mais corajoso, Jon. Não corajoso, mas... mais corajoso.
– Sabe que não pode ficar com ela – disse Jon com gentileza –, assim como eu não podia ficar com Ygritte. Proferiu as palavras, Sam, assim como eu. Assim como todos nós.
– Eu sei. Goiva disse que seria uma esposa para mim, mas... eu contei-lhe a respeito das palavras e do que elas significavam. Não sei se isso a deixou triste ou feliz, mas contei. – Engoliu nervosamente e disse: – Jon, pode haver honra numa mentira, se for dita com... boa intenção?
– Suponho que isso dependa da mentira e da intenção. – Jon olhou para Sam. – Eu não o aconselharia. Não foi feito para mentir, Sam. Você cora, guincha e gagueja.
– É verdade – disse Sam –, mas podia mentir numa carta. Sou melhor com uma pena na mão. Tive uma... uma ideia. Quando as coisas estiverem mais estabelecidas por aqui, pensei que talvez a melhor coisa para Goiva... pensei que podia enviá-la para Monte Chifre. Para junto de minha mãe e irmãs e... e p-p-pai. Se a Goiva dissesse que o bebê era m-meu... – Estava de novo corando. – A minha mãe quereria ficar com ele, eu sei. Arranjaria algum lugar para Goiva, alguma espécie de serviço, não seria tão duro como servir Craster. E Lorde R-Randyll, ele... ele nunca diria isso, mas poderia ficar satisfeito se acreditasse que eu tinha feito um bastardo numa garota selvagem qualquer. Pelo menos provaria que sou homem suficiente para dormir com uma mulher e gerar um filho. Ele disse-me uma vez que eu iria morrer virgem, que nenhuma mulher jamais... você sabe... Jon, se eu fizesse isso, se escrevesse essa mentira... isso seria uma coisa boa? A vida que o garoto teria...
– Crescendo como bastardo no castelo do avô? – Jon encolheu os ombros. – Isso depende em grande medida de seu pai, e do tipo de garoto que este é. Se for como você...
– Não será. Seu verdadeiro pai é Craster. Você o viu, ele era duro como um velho toco de árvore, e Goiva é mais forte do que parece.
– Se o rapaz mostrar alguma habilidade com a espada ou a lança, deve ter pelo menos um lugar na guarda doméstica de seu pai – disse Jon. – Não é inédito que bastardos sejam treinados como escudeiros e elevados à condição de cavaleiros. Mas é melhor que tenha certeza de que Goiva consegue jogar esse jogo de forma convincente. Por aquilo que me disse de Lorde Randyll, duvido que aceite bem ser enganado.