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Quando se virou, ela estava em pé atrás dele, rodeada de meia dúzia de homens da rainha. Pouco admira que o pátio tenha ficado tão silencioso. Tinha visto Melisandre nas fogueiras noturnas, e nas idas e vindas pelo castelo, mas nunca tão de perto. É bela, pensou... mas havia algo mais do que um pouco perturbador em seus olhos vermelhos.

– Senhora.

– O rei deseja falar com você, Jon Snow.

Jon espetou a espada de treino no solo.

– Talvez me possa ser permitido que troque de roupa? Não estou em estado digno de comparecer perante um rei.

– Esperaremos no topo da Muralha – disse Melisandre. Nós, ouviu Jon, e não ele. É como dizem. Esta é que é a sua verdadeira rainha, e não aquela que deixou em Atalaialeste.

Pendurou a cota de malha e a armadura no arsenal, regressou à sua cela, livrou-se das roupas manchadas de suor e vestiu um conjunto limpo de vestes negras. Sabia que faria frio e ventaria na gaiola, e seria ainda mais frio e ventaria mais no topo do gelo, por isso escolheu um pesado manto com capuz. Por último recolheu a Garralonga e atou a espada bastarda às costas.

Melisandre esperava-o na base da Muralha. Mandara embora os homens da rainha.

– O que Sua Graça quer de mim? – perguntou-lhe quando entraram na gaiola.

– Tudo o que tiver para dar, Jon Snow. Ele é um rei.

Jon fechou a porta e puxou a corda do sino. O guincho começou a girar. Subiram. O dia estava luminoso e a Muralha chorava, com longos dedos de água escorrendo por sua superfície e cintilando ao sol. No apertado confinamento da gaiola de ferro, sentia-se vivamente consciente da presença da mulher vermelha. Até cheira a vermelho. O odor lembrou-lhe a forja de Mikken, o modo como o ferro cheirava quando incandescente; o odor era fumaça e sangue. Beijada pelo fogo, pensou, recordando Ygritte. O vento penetrou no interior das longas vestes vermelhas de Melisandre e fez com que batessem contra as pernas de Jon, a seu lado.

– Não sente frio, senhora? – perguntou-lhe.

Ela riu.

– Nunca. – O rubi na garganta parecia pulsar, em uníssono com o bater de seu coração. – O fogo do Senhor vive dentro de mim, Jon Snow. Sinta-o. – Pôs a mão no rosto dele, e manteve-a ali enquanto ele sentia como ela estava quente. – É esta a sensação que a vida deve ter – disse-lhe ela. – Só a morte é fria.

Foram encontrar Stannis Baratheon em pé, sozinho, na borda da Muralha, pensativo, virado para o campo onde tinha vencido a sua batalha e a grande floresta verde que se estendia à frente. Estava vestido com os mesmos calções, túnica e botas negras que um homem da Patrulha da Noite usaria. Só o seu manto o distinguia: um pesado manto dourado forrado de peles negras, e preso com um broche com a forma de um coração flamejante.

– Trouxe-lhe o Bastardo de Winterfell, Vossa Graça – disse Melisandre.

Stannis virou-se para estudá-lo. Sob a sua pesada testa havia olhos que eram como lagoas azuis sem fundo. Seu rosto encovado e o forte maxilar estavam cobertos com uma barba negro-azulada cortada curta e que pouco fazia para esconder a magreza de seu rosto, e o maxilar estava tenso. O pescoço e os ombros também estavam tensos, assim como a mão direita. Jon deu por si lembrando-se de uma coisa que Donal Noye havia dito um dia sobre os irmãos Baratheon. Robert era o verdadeiro aço. Stannis é puro ferro, negro, duro e forte, mas quebradiço, como o ferro se torna. Quebrará antes de se dobrar. Inquieto, ajoelhou, perguntando a si mesmo por que teria aquele rei quebradiço necessidade de si.

– Levante-se. Ouvi muitas coisas e mais ainda acerca de você, Lorde Snow.

– Não sou um lorde, senhor. – Jon levantou-se. – Sei o que ouviu dizer. Que sou um vira-casaca e um covarde. Que matei o meu irmão Qhorin Meia-Mão para que os selvagens me poupassem a vida. Que acompanhei Mance Rayder e tomei uma selvagem como esposa.

– Sim. Tudo isso e mais. Também é um warg, dizem eles, um troca-peles que de noite caminha como lobo. – O Rei Stannis tinha um sorriso duro. – Quanto disso é verdade?

– Eu tinha um lobo gigante, o Fantasma. Abandonei-o quando escalei a Muralha perto de Guardagris, e não voltei a vê-lo desde então. Qhorin Meia-Mão ordenou-me que me juntasse aos selvagens. Ele sabia que me obrigariam a matá-lo para provar a minha deserção, e disse-me para fazer tudo o que me pedissem. A mulher chamava-se Ygritte. Quebrei os votos com ela, mas juro em nome de meu pai que nunca virei a casaca.

– Acredito em você – disse o rei.

Aquilo surpreendeu-o.

– Por quê?

Stannis fungou.

– Conheço Janos Slynt. E também conheci Ned Stark. Seu pai não era meu amigo, mas só um idiota duvidaria de sua honradez ou de sua honestidade. É parecido com ele. – Um homem grande, Stannis Baratheon erguia-se bem mais alto do que Jon, mas tão magro que parecia dez anos mais velho do que era. – Sei mais do que pode pensar, Jon Snow. Sei que foi você quem encontrou o punhal de vidro de dragão que o filho de Randyll Tarly usou para matar o Outro.

– Foi o Fantasma que o encontrou. A lâmina estava enrolada no manto de um patrulheiro e enterrada no sopé do Punho dos Primeiros Homens. Havia também outras lâminas... pontas de lança, pontas de flecha, tudo de vidro de dragão.

– Sei que defendeu o portão aqui – disse o Rei Stannis. – Se não tivesse feito isso, eu teria chegado tarde demais.

– Foi Donal Noye quem defendeu o portão. Morreu lá embaixo no túnel, lutando contra o rei dos gigantes.

Stannis fez uma careta.

– Noye fez a minha primeira espada e também o martelo de guerra de Robert. Se deus tivesse achado por bem poupá-lo, ele daria um Senhor Comandante melhor para a sua ordem do que qualquer um daqueles idiotas que andam disputando o cargo.

– Cotter Pyke e Sor Denys Mallister não são idiotas, senhor – disse Jon. – São homens bons e capazes. Othell Yarwyck também, à sua maneira. Lorde Mormont confiava em todos eles.

– Seu Lorde Mormont confiava com demasiada facilidade. Se não fosse assim, não teria morrido da forma como morreu. Mas estávamos falando de você. Não esqueci que foi você quem nos trouxe este berrante mágico e quem capturou a esposa e o filho de Mance Rayder.

– Dalla morreu. – Aquilo ainda entristecia Jon. – Val é a irmã dela. Ela e o bebê não exigiram grande captura, Vossa Graça. Havia posto os selvagens em debandada, e o troca-peles que Mance deixara guardando a sua rainha enlouqueceu quando a águia queimou. – Jon olhou para Melisandre. – Há quem diga que foi obra sua.

Ela sorriu, com os longos cabelos de cobre caindo sobre o rosto.

– O Senhor da Luz tem garras flamejantes, Jon Snow.

Jon acenou com a cabeça e voltou-se de novo para o rei.

– Vossa Graça, falou de Val. Ela pediu para ver Mance Rayder, para lhe levar o filho. Seria uma... uma gentileza.

– O homem é um desertor de sua ordem. Seus irmãos estão todos insistindo na morte dele. Por que eu lhe faria uma gentileza?

Jon não tinha resposta para aquilo.

– Se não por ele, então por Val. Em nome da irmã, a mãe da criança.

– Gosta dessa Val?

– Mal a conheço.

– Dizem-me que é atraente.

– Muito – admitiu Jon.

– A beleza pode ser traiçoeira. Meu irmão aprendeu essa lição com Cersei Lannister. Ela assassinou-o, não duvide. E também ao seu pai e a Jon Arryn. – Franziu a testa. – Você acompanhou estes selvagens. Acha que há alguma honra neles?

– Sim – disse Jon –, mas o seu próprio tipo de honra.

– E em Mance Rayder?

– Sim. Penso que sim.

– No Senhor dos Ossos?

Jon hesitou.

– Nós o chamávamos de Camisa de Chocalho. Traiçoeiro e sedento de sangue. Se há honra nele, esconde-a por baixo de sua armadura de ossos.

– E naquele outro homem, aquele Tormund de muitos nomes que escapou de nós após a batalha? Responda-me com a verdade.