– Meu pai sonhava em repovoar a Dádiva – admitiu Jon. – Ele e o meu tio Benjen costumavam conversar sobre isso. – Nunca pensou em povoá-la com selvagens, porém... mas também nunca viveu com selvagens. Não se iludia, o povo livre daria súditos insubmissos e vizinhos perigosos. Mas quando punha num prato da balança os cabelos ruivos de Ygritte e no outro os frios olhos azuis das criaturas, a escolha era fácil. – Concordo.
– Ótimo – disse o Rei Stannis –, pois a maneira mais segura de selar uma nova aliança é através de um casamento. Pretendo casar o meu Senhor de Winterfell com esta princesa selvagem.
Jon talvez tivesse vivido tempo demais com o povo livre; não conseguiu impedir-se de rir.
– Vossa Graça – disse –, cativa ou não, se pensa que pode simplesmente me dar Val, temo que tenha bastante a aprender sobre as mulheres selvagens. Quem quer que se case com ela é bom que esteja preparado para escalar até a sua janela de torre e levá-la na ponta da espada...
– Quem quer que case? – Stannis lançou-lhe um olhar avaliador. – Isso significa que não quer casar com a moça? Previno-o de que ela faz parte do preço que tem de pagar, se quiser o nome e o castelo de seu pai. Essa união é necessária, para ajudar a garantir a lealdade de meus novos súditos. Está me recusando, Jon Snow?
– Não – disse Jon, rápido demais. Era de Winterfell que o rei estava falando, e Winterfell não era algo que se pudesse recusar com ligeireza. – Isto é... tudo isso surgiu muito de repente, Vossa Graça. Posso suplicar-lhe algum tempo para pensar?
– Como quiser. Mas pense depressa. Não sou um homem paciente, como os seus irmãos negros estão prestes a descobrir. – Stannis apoiou uma mão magra e descarnada no ombro de Jon. – Não diga nada sobre o que falamos aqui hoje. A ninguém. Mas quando regressar, necessitará apenas dobrar o joelho, depositar a sua espada aos meus pés e colocar-se ao meu serviço, e voltará a se erguer como Jon Stark, o Senhor de Winterfell.
Tyrion
Quando ouviu ruídos através da espessa porta de madeira de sua cela, Tyrion Lannister preparou-se para morrer.
Já é mais que tempo, pensou. Vá lá, vá lá, deem um fim a isto. Pôs-se em pé com dificuldade. Suas pernas estavam adormecidas de estarem dobradas por baixo do corpo. Curvou-se e esfregou-as, aliviando a sensação de facas o pinicando. Não irei para o cepo aos tropeções e bamboleios.
Perguntou a si mesmo se o matariam ali no escuro ou se o arrastariam pela cidade para que Sor Ilyn Payne pudesse cortar-lhe a cabeça. Após a farsa que tinha sido o seu julgamento, sua querida irmã e seu dedicado pai podiam preferir ver-se livres dele discretamente, em vez de se arriscarem a uma execução pública. Eu podia dizer ao populacho umas coisinhas bem escolhidas se me deixarem falar. Mas seriam eles tão tolos assim?
Quando as chaves tilintaram e a porta da cela se abriu, rangendo, Tyrion encostou-se à umidade da parede, desejando ter uma arma. Ainda posso morder e chutar. Morrerei com o sabor do sangue na boca, isso é sempre alguma coisa. Desejou ter sido capaz de arranjar umas últimas palavras que fossem vibrantes. “Vão todos se foder” não era coisa que servisse para conquistar lugar de relevo nas histórias.
Luz de archote caiu sobre seu rosto. Protegeu os olhos com uma mão.
– Ora, tem medo de um anão? Trate disso, seu filho de uma puta bexiguenta. – Sua voz tinha se tornado roufenha com a falta de uso.
– Isso é maneira de falar da senhora nossa mãe? – o homem avançou, com uma tocha na mão esquerda. – Isto ainda é mais pavoroso do que a minha cela em Correrrio, embora não tão úmido.
Por um momento, Tyrion não conseguiu respirar.
– Você?
– Bem, a maior parte de mim. – Jaime estava magro e tinha os cabelos cortados curtos. – Deixei uma mão em Harrenhal. Trazer os Bravos Companheiros do outro lado do mar estreito não foi uma das melhores ideias do pai. – Ergueu o braço e Tyrion viu o coto.
Uma gargalhada histérica saltou de seus lábios.
– Oh, deuses – disse. – Jaime, desculpe, mas... pela bondade dos deuses, olhe para nós dois. Maneta e Narigueta, os rapazes Lannister.
– Houve dias em que a minha mão cheirava tão mal que desejei não ter nariz. – Jaime baixou a tocha, para que a luz banhasse o rosto do irmão. – Uma cicatriz impressionante.
Tyrion afastou-se do clarão.
– Obrigaram-me a travar uma batalha sem o meu irmão mais velho para me proteger.
– Ouvi dizer que quase queimou a cidade.
– Uma mentira imunda. Só queimei o rio. – Abruptamente, Tyrion lembrou-se de onde estava e por quê. – Está aqui para me matar?
– Isso já é ingratidão. Talvez devesse deixá-lo aqui apodrecendo, se vai ser assim tão descortês.
– Apodrecer não é o destino que Cersei tem em mente para mim.
– Bem, não, para falar a verdade. Deverá ser decapitado amanhã de manhã, no antigo terreiro de torneios.
Tyrion voltou a gargalhar.
– Haverá comida? Vai ter de me ajudar com as últimas palavras, meus miolos têm andado aos círculos, como uma ratazana numa despensa.
– Não vai precisar de últimas palavras. Estou salvando você. – A voz de Jaime estava estranhamente solene.
– Quem disse que eu precisava ser salvo?
– Sabe, quase tinha me esquecido do homenzinho irritante que você é. Agora que me lembrou disso, acho que vou deixar que Cersei corte sua cabeça afinal.
– Ah, não vai, não. – Bamboleou-se para fora da cela. – É dia ou noite lá em cima? Perdi toda a noção do tempo.
– Passam três horas da meia-noite. A cidade dorme. – Jaime voltou a enfiar o archote na arandela, na parede entre as celas.
O corredor estava tão mal iluminado que Tyrion quase tropeçou no carcereiro, estatelado no frio chão de pedra. Empurrou-o com a ponta do pé.
– Está morto?
– Dormindo. Os outros três também. O eunuco misturou sonodoce no vinho deles, mas não o suficiente para matá-los. Pelo menos foi o que me jurou. Está esperando na escada, vestido com uma túnica de septão. Vai descer aos esgotos, e dali vai para o rio. Uma galé está esperando na baía. Varys tem agentes nas Cidades Livres que se assegurarão de que não lhe faltem fundos... mas tente não se fazer notar. Cersei mandará homens em seu encalço, não duvido. Pode ser boa ideia adotar outro nome.
– Outro nome? Oh, certamente. E quando os Homens Sem Rosto vierem me matar, direi: “Não, enganou-se de homem, eu sou outro anão com uma hedionda cicatriz na cara.” – Ambos os Lannister riram do absurdo de tudo aquilo. Então Jaime ajoelhou-se e deu-lhe um rápido par de beijos nas bochechas, roçando os lábios na fita pregueada de tecido cicatricial.
– Obrigado, irmão – disse Tyrion. – Pela minha vida.
– Era... uma dívida que tinha para com você. – A voz de Jaime soava estranha.
– Uma dívida? – inclinou a cabeça. – Não compreendo.
– Ainda bem. Há portas que é melhor que fiquem fechadas.
– Ora, ora – disse Tyrion. – Haverá algo de sinistro e feio atrás disso? Será possível que alguém um dia tenha dito algo cruel a meu respeito? Tentarei não chorar. Conte-me.
– Tyrion...
Jaime está com medo.
– Conte-me – repetiu Tyrion.
O irmão afastou o olhar.
– Tysha – disse em voz baixa.
– Tysha? – seu estômago apertou-se. – O que tem ela?
– Não era uma prostituta. Não fui eu que a trouxe para você. Aquilo foi uma mentira que o pai me ordenou que dissesse. Tysha era... era o que parecia ser. Filha de um caseiro, encontrada por acaso na estrada.
Tyrion conseguia ouvir o tênue som da própria respiração assobiando através da cicatriz do nariz. Jaime não era capaz de encará-lo. Tysha. Tentou lembrar-se do aspecto dela. Uma garota, era apenas uma garota, não era mais velha do que Sansa.