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– A minha esposa – crocitou. – Ela casou comigo.

– Pelo seu ouro, disse o pai. Era malnascida, e você, um Lannister de Rochedo Casterly. Tudo que ela queria era o ouro, o que fazia com que não fosse diferente de uma prostituta, portanto... portanto não seria uma mentira, não por completo, e... ele disse que você precisava de uma dura lição. Que aprenderia com ela e me agradeceria mais tarde...

Agradecê-lo? – a voz de Tyrion estava estrangulada. – Ele deu-a aos guardas. Uma caserna cheia de guardas. E obrigou-me... a ver. – Sim, e a mais do que ver. Também a possuí... minha esposa...

– Eu não sabia que ele ia fazer isso. Tem de acreditar em mim.

– Ah, tenho, é? – rosnou Tyrion. – Por que devo acreditar em você sobre seja o que for, seja quando for? Ela era minha esposa!

– Tyrion...

Tyrion bateu nele. Foi um tabefe, dado com as costas da mão, mas colocou nele todas as suas forças, todo o seu medo, toda a sua raiva, toda a sua dor. Jaime estava acocorado, desequilibrado. O golpe fez com que tropeçasse e caísse de costas.

– Eu... suponho que mereci isso.

– Oh, você mereceu mais do que isso, Jaime. Você e a minha querida irmã e o nosso dedicado pai, sim. Nem consigo começar a dizer o que mereceram. Mas terão o que merecem, isso posso jurar para você. Um Lannister sempre paga as suas dívidas. – Tyrion afastou-se, bamboleando, quase voltando a tropeçar no carcereiro com a pressa. Antes de percorrer uma dúzia de metros deu um encontrão num portão de ferro que fechava a passagem. Oh, deuses. Por pouco não gritou.

Jaime surgiu atrás dele.

– Eu tenho as chaves do carcereiro.

– Então use-as. – Tyrion abriu-lhe passagem.

Jaime destrancou o portão, abriu-o e atravessou-o. Olhou para trás por sobre o ombro.

– Você vem?

– Não com você. – Tyrion atravessou o portão. – Dê-me as chaves e vá embora. Eu encontro Varys sozinho. – Inclinou a cabeça e fitou o irmão com seus olhos desiguais. – Jaime, consegue lutar com a mão esquerda?

– Bastante pior do que você – disse amargamente Jaime.

– Ótimo. Nesse caso estaremos bem equilibrados se alguma vez voltarmos a nos encontrar. O aleijado e o anão.

Jaime entregou-lhe a argola cheia de chaves.

– Ofereci a verdade a você. Deve-me o mesmo. Foi você? Matou-o?

A pergunta era outra faca, torcendo-se em suas tripas.

– Tem certeza de que quer saber? – perguntou Tyrion. – Joffrey teria sido um rei pior do que Aerys alguma vez foi. Ele roubou o punhal do pai e deu-o a um salteador para que cortasse a goela de Brandon Stark, sabia disso?

– Eu... achei que pudesse ter feito isso.

– Bem, um filho sai ao pai. Joff teria me matado também, uma vez que estivesse na posse de todos os seus poderes. Pelo crime de ser baixo e feio, do qual sou tão obviamente culpado.

– Não respondeu à minha pergunta.

– Meu pobre, estúpido, cego, mutilado idiota. Terei de soletrar tudo para que entenda? Muito bem. Cersei é uma puta mentirosa, e tem andado fodendo Lancel e Osmund Kettleblack e provavelmente até o Rapaz Lua, pelo que sei. E eu sou o monstro que todos dizem que sou. Sim, matei o seu abjeto filho. – Obrigou-se a sorrir. Devia ter sido uma visão hedionda, ali na escuridão iluminada pelo archote.

Jaime virou-se sem uma palavra e afastou-se.

Tyrion ficou vendo-o partir, com passos largos de suas pernas fortes, e parte de si desejou chamá-lo, dizer-lhe que não era verdade, implorar-lhe perdão. Mas então pensou em Tysha, e manteve o silêncio. Ficou à escuta dos passos que se afastavam até já não conseguir ouvi-los, e depois foi à procura de Varys, bamboleando-se.

O eunuco estava escondido na escuridão de uma escada em espiral, vestido com uma túnica marrom e comida pelas traças, com um capuz que escondia a palidez de seu rosto.

– Demorou tanto que temi que algo tivesse dado errado – disse ele quando viu Tyrion.

– Oh, não – sossegou-o Tyrion com veneno na voz. – O que poderia ter dado errado? – torceu a cabeça para trás, a fim de olhar para cima. – Mandei buscá-lo durante o julgamento.

– Não pude vir. A rainha tinha-me sob vigilância, noite e dia. Não me atrevi a ajudá-lo.

– Mas agora está me ajudando.

– Ah, estou? Ah. – Varys soltou um risinho. O som parecia estranhamente deslocado naquele lugar de pedra fria e escuridão cheia de ecos. – Seu irmão consegue ser muito persuasivo.

– Varys, você é tão frio e viscoso como uma lesma, alguém já lhe disse? Fez o melhor que pôde para me matar. Talvez eu devesse devolver o favor.

O eunuco suspirou.

– O cão fiel é chutado, e não importa o modo como a aranha tece a teia, nunca ninguém gosta dela. Mas se me matar aqui, temo por você, senhor. Pode nunca encontrar o caminho de volta à luz do dia. – Os olhos cintilaram à oscilante luz da tocha, escuros e úmidos. – Estes túneis estão cheios de armadilhas para os confiantes.

Tyrion fungou.

– Confiante? Sou o homem mais desconfiado dos Sete Reinos, você ajudou a garantir que assim fosse. – Esfregou o nariz. – Portanto diga-me, feiticeiro, onde está a minha inocente e donzela esposa?

– Não encontrei sinal da Senhora Sansa em Porto Real, lamento dizê-lo. Nem de Sor Dontos Hollard, o qual normalmente já teria aparecido bêbado em algum lugar, a essa altura. Foram vistos juntos na escada em espiral na noite em que ela desapareceu. Depois disso, nada. Houve muita confusão naquela noite. Meus passarinhos estão em silêncio. – Varys deu um leve puxão na manga do anão e puxou-o para a escada. – Senhor, temos de ir andando. Seu caminho é para baixo.

Ao menos isso não é mentira nenhuma. Tyrion bamboleou-se na pegada do eunuco, raspando com os calcanhares na pedra áspera à medida que iam descendo. Fazia muito frio na escadaria, um frio úmido de gelar os ossos que fez Tyrion começar a tremer imediatamente.

– Que parte das masmorras é esta? – perguntou.

– Maegor, o Cruel, decretou a construção de quatro pisos de masmorras para o seu castelo – respondeu Varys. – No piso superior, há celas grandes onde os criminosos comuns podem ser confinados juntos. Têm janelas estreitas, abertas no topo das paredes. O segundo piso tem as celas menores onde os cativos de nascimento elevado são mantidos. Não têm janelas, mas archotes nos corredores enviam luz suficiente através das barras. No terceiro piso as celas são menores e as portas são de madeira. São chamadas de celas negras. Foi em uma delas que foi mantido, bem como Eddard Stark antes de você. Mas há um piso ainda mais profundo. Uma vez que um homem seja levado para o quarto piso, não volta a ver o sol nem a ouvir vozes humanas nem a respirar sem estar sujeito a uma dor agonizante. Maegor mandou construir as celas do quarto piso para a tortura. – Tinham chegado ao fundo dos degraus. Uma porta não iluminada abria-se na sua frente. – Este é o quarto piso. Dê-me a mão, senhor. Aqui é mais seguro caminhar na escuridão. Há coisas que não desejaria ver.

Tyrion hesitou por um momento. Varys já o traíra uma vez. Quem saberia que tipo de jogo o eunuco estava jogando? E que local melhor para assassinar um homem do que no meio das trevas, num lugar que ninguém sabia que existia? Seu corpo podia nunca ser encontrado.

Por outro lado, que alternativa tinha? Subir as escadas e sair pelo portão principal? Não, isso não serviria.

Jaime não teria medo, pensou, antes de se lembrar do que o irmão lhe fizera. Deu a mão ao eunuco e deixou-se conduzir através do negrume, seguindo o suave raspar do couro na pedra. Varys caminhava depressa, sussurrando de vez em quando, “Cuidado, aqui há três degraus”, ou, “O túnel inclina-se para baixo aqui, senhor”. Cheguei aqui como Mão do Rei, atravessando os portões a cavalo, à frente dos meus próprios homens, refletiu Tyrion, e saio como uma ratazana, correndo na escuridão, de mãos dadas a uma aranha.