– Porque mãos de ouro são sempre frias, mas há calor em mãos de mulher – disse.
Deu às mãos frias outra torção enquanto as quentes batiam nele, limpando-lhe as lágrimas.
Depois, encontrou o punhal de Lorde Tywin na mesa de cabeceira e enfiou-o no cinto. Uma maça com cabeça de leão, uma alabarda e uma besta tinham sido penduradas nas paredes. A alabarda seria uma arma incômoda de usar dentro de um castelo, e a maça pendurada em um lugar alto demais para que ele a alcançasse, mas um grande baú de madeira e ferro tinha sido encostado à parede logo abaixo da besta. Subiu no baú, pegou a besta e uma aljava de couro repleta de dardos, enfiou um pé no estribo e puxou-o para baixo até que a corda do arco engatilhou. Então enfiou um dardo na ranhura.
Jaime tinha lhe dado mais do que um sermão acerca das desvantagens das bestas. Se Lum e Lester surgissem de onde quer que estivessem conversando, nunca teria tempo de recarregar, mas pelo menos levaria um para o inferno consigo. Lum, se pudesse escolher. Vai ter de limpar você mesmo a cota de malha, Lum. Perdeu.
Bamboleando-se até a porta, escutou por um momento, após o que a abriu lentamente. Uma lâmpada ardia num nicho de pedra, lançando uma pálida luz amarela sobre o corredor. Só a chama se movia. Tyrion deslizou para fora do quarto, mantendo a besta abaixada, encostada à perna.
Foi encontrar o pai onde sabia que o encontraria, sentado nas sombras do poço das latrinas, com o roupão enrolado em volta dos quadris. Ao ouvir o som de passos, Lorde Tywin ergueu os olhos.
Tyrion concedeu-lhe uma meia reverência trocista.
– Senhor.
– Tyrion. – Se estava assustado, Tywin Lannister não mostrou qualquer sinal. – Quem o libertou de sua cela?
– Adoraria dizer, mas prestei um juramento sagrado.
– O eunuco – decidiu o pai. – Isto vai custar a cabeça dele. Essa é a minha besta? Aponte-a para baixo.
– Vai me punir se eu me recusar, pai?
– Esta fuga é uma loucura. Não vai ser morto, se é isso que teme. Ainda é minha intenção enviá-lo para a Muralha, mas não podia fazer isso sem o consentimento de Lorde Tyrell. Abaixe a besta, e vamos até os meus aposentos conversar.
– Podemos perfeitamente conversar aqui. Talvez eu não queira ir para a Muralha, pai. Faz um frio dos diabos lá em cima, e creio que já aguentei frio suficiente vindo do senhor. Por isso, diga-me uma coisa, e eu vou embora. Uma simples pergunta, deve-me isso.
– Não lhe devo nada.
– Deu-me menos do que isso, toda a minha vida, mas isso vai me dar. O que fez com Tysha?
– Tysha?
Ele nem sequer se lembra do nome dela.
– A garota com quem me casei.
– Ah, sim. A sua primeira puta.
Tyrion apontou para o peito do pai.
– Da próxima vez que disser essa palavra, mato-o.
– Não tem coragem suficiente.
– Vamos descobrir? É uma palavra curta, e parece vir tão facilmente aos seus lábios. – Tyrion fez um gesto impaciente com a besta. – Tysha. O que fez com ela, depois de minha liçãozinha?
– Não me lembro.
– Tente com mais força. Mandou matá-la?
O pai franziu os lábios.
– Não havia motivo para isso, ela já tinha aprendido qual era o lugar dela... e foi bem paga pelo trabalho do dia, se bem me lembro. Suponho que o intendente a tenha mandado embora. Nunca pensei em perguntar.
– Mandado embora para onde?
– Para onde quer que as putas vão.
O dedo de Tyrion apertou-se. A besta soltou um uang exatamente no momento em que Lorde Tywin começava a se levantar. O dardo atingiu-o acima da virilha e ele voltou a se sentar com um gemido. O dardo penetrou profundamente, bem até as penas, Sangue jorrou ao redor da haste, pingando sobre os pelos púbicos e as coxas nuas de Lorde Tywin.
– Atirou em mim – disse ele, incrédulo, com os olhos vidrados, em choque.
– Sempre foi rápido em compreender as situações, senhor – disse Tyrion. – Deve ser por isso que é Mão do Rei.
– Você... não é... não é meu filho.
– É justamente aí que se engana, pai. Ora, eu creio que sou você em letra pequena. E agora faça-me a bondade de morrer depressa. Tenho um navio para alcançar.
Por uma vez, o pai fez o que Tyrion lhe pediu. A prova foi o súbito fedor, quando suas tripas se soltaram no momento da morte. Bem, estava no lugar certo para isso, pensou Tyrion. Mas o fedor que encheu a latrina forneceu ampla evidência de que a frequentemente repetida piada a respeito de seu pai era apenas mais uma mentira.
No fim das contas, Lorde Tywin Lannister não cagava ouro.
Samwell
O rei estava zangado. Sam viu-o de imediato. Enquanto os irmãos negros entravam, um a um, e ajoelhavam na sua frente, Stannis afastou o café da manhã de pão duro, charque e ovos cozidos, e olhou-os friamente. A seu lado, a mulher vermelha, Melisandre, parecia achar a cena divertida.
Não tenho lugar aqui, pensou Sam com ansiedade, quando os olhos vermelhos dela caíram sobre si. Alguém tinha de ajudar Meistre Aemon a subir os degraus. Não olhe para mim, sou só o intendente do meistre. Os outros eram candidatos ao posto do Velho Urso, todos menos Bowen Marsh, que se retirara da eleição, mas continuava a ser castelão e Senhor Intendente. Sam não compreendia por que Melisandre havia de parecer tão interessada nele.
O Rei Stannis manteve os irmãos negros de joelhos durante um tempo extraordinariamente longo.
– Levantem-se – disse por fim. Sam ofereceu o ombro ao Meistre Aemon para ajudá-lo a ficar em pé novamente.
O som de Lorde Janos Slynt limpando a garganta quebrou o tenso silêncio.
– Vossa Graça, permita-me que exprima o nosso agrado por sermos aqui convocados. Quando vislumbrei seus estandartes a partir da Muralha, soube que o reino estava salvo. “Aí vem um homem que nunca esquece o seu dever”, disse eu ao bom Sor Alliser. “Um homem forte, e um verdadeiro rei.” Posso felicitá-lo por sua vitória sobre os selvagens? Os cantores farão grandes coisas dela, eu sei...
– Os cantores podem fazer o que bem entenderem – interrompeu Stannis. – Poupe-me de sua bajulação, Janos, que não lhe servirá de nada. – Ficou em pé e mostrou a todos o cenho carregado. – A Senhora Melisandre disse-me que ainda não escolheram um Senhor Comandante. Estou descontente. Quando tempo mais esta loucura vai durar?
– Senhor – disse Bowen Marsh em tom defensivo –, ninguém conquistou ainda dois terços dos votos. Só se passaram dez dias.
– Nove dias a mais. Tenho cativos cujo destino deve ser decidido, um reino que precisa ser posto em ordem, uma guerra a travar. Escolhas têm de ser feitas, decisões que envolverão a Muralha e a Patrulha da Noite. Por direito, o seu Senhor Comandante deveria ter algo a dizer nessas decisões.
– Deveria, sim – falou Janos Slynt. – Mas há que dizê-lo. Nós, os irmãos, somos simples soldados. Soldados, sim! E Vossa Graça saberá que os soldados se sentem mais confortáveis obedecendo a ordens. Eles se beneficiariam de sua real orientação, parece-me. Para o bem do reino. Para ajudá-los a escolher sabiamente.
A sugestão indignou alguns dos outros.
– Também quer que o rei limpe nosso cu? – disse irritadamente Cotter Pyke.
– A escolha de um Senhor Comandante cabe aos Irmãos Juramentados, e apenas a eles – insistiu Sor Denys Mallister.
– Se escolherem sabiamente, não me escolherão – gemeu Edd Doloroso.
Meistre Aemon, calmo como sempre, disse:
– Sua Graça, a Patrulha da Noite escolhe seu próprio líder desde que Brandon, o Construtor, ergueu a Muralha. Até Jeor Mormont tivemos novecentos e noventa e sete Senhores Comandantes em sucessão ininterrupta, todos eles escolhidos pelos homens de quem seriam líderes, uma antiga tradição de muitos milhares de anos.
Stannis rangeu os dentes.