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– Só preciso de mais um momento – prometeu Sam. – Disse que não se retiraria por Sor Denys, mas poderia se retirar por outro homem.

– Quem é dessa vez, Matador? Você?

– Não. Um lutador. Donal Noye entregou-lhe a Muralha quando os selvagens chegaram e era escudeiro do Velho Urso. O único problema é que é bastardo.

Cotter Pyke soltou uma gargalhada.

– Oh, inferno. Isso ia enfiar uma lança no cu do Mallister, não ia? Pode valer a pena só por isso. O rapaz talvez não seja tão ruim, não é? – fungou. – Mas eu seria melhor. Eu sou o líder de quem precisamos, qualquer idiota consegue ver isso.

– Qualquer idiota – concordou Sam –, até eu. Mas... bem, eu não devia lhe contar, mas... o Rei Stannis pretende nos obrigar a aceitar Sor Denys, se não escolhermos um homem esta noite. Ouvi-o dizendo isso ao Meistre Aemon, depois do resto de vocês ter sido mandado embora.

Jon

Emmett de Ferro era um jovem patrulheiro alto e magricela cuja resistência, força e habilidade com a espada eram o orgulho de Atalaialeste. Jon saía sempre de suas sessões hirto e dolorido, e no dia seguinte acordava coberto de hematomas, o que era exatamente o que queria. Nunca conseguiria se aperfeiçoar defrontando gente como Cetim, Cavalo ou mesmo Grenn.

Jon gostava de pensar que na maior parte dos dias batia tanto quanto apanhava, mas não naquele. Quase não tinha dormido na noite anterior, e após passar uma hora virando-se na cama, num desassossego, desistiu até de tentar, vestiu-se e percorreu o topo da Muralha até o sol nascer, lutando com a oferta de Stannis Baratheon. A falta de sono estava agora se fazendo sentir, e Emmett malhava nele sem misericórdia pátio afora, mantendo-o sobre os calcanhares com um longo golpe em arco após outro, e batendo nele de tempos em tempos com o escudo, para variar. O braço de Jon ficou dormente com os impactos, e a espada de treino sem gume parecia tornar-se mais pesada a cada momento.

Estava prestes a baixar a lâmina e pedir para pararem quando Emmett fez uma finta baixa e arremeteu por cima de seu escudo com um violento golpe direto que atingiu Jon num lado da cabeça. Cambaleou, com o elmo e a cabeça ressoando com a força do ataque. Durante meio segundo o mundo para lá de sua viseira foi uma mancha indistinta.

E então os anos desapareceram, e ele estava uma vez mais de volta a Winterfell, usando um casaco de couro almofadado em vez de cota de malha e placa de aço. Sua espada era feita de madeira, e era Robb quem o defrontava, e não Emmett de Ferro.

Tinham treinado juntos todas as manhãs, desde que tiveram idade suficiente para andar; Snow e Stark, rodopiando e golpeando-se pelos pátios de Winterfell, gritando e rindo, e às vezes chorando quando ninguém estava vendo. Quando lutavam não eram garotinhos, e sim cavaleiros e poderosos heróis. “Eu sou o Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão”, gritava Jon, e Robb gritava em resposta: “Bem, eu sou Florian, o Bobo”. Ou então Robb dizia: “Eu sou o Jovem Dragão”, e Jon respondia: “Eu sou Sor Ryam Redwyne”.

Naquela manhã tinha sido ele quem gritou primeiro.

– Eu sou o Senhor de Winterfell – gritou, como gritara cem vezes antes. Mas daquela vez, daquela vez, Robb respondeu:

– Você não pode ser Senhor de Winterfell, é um bastardo. A senhora minha mãe diz que nunca poderá ser Senhor de Winterfell.

Achava que tinha esquecido isso. Jon sentia sangue na boca, do golpe que sofrera.

No fim, Halder e Cavalo tiveram de afastá-lo de Emmett de Ferro, cada um dos homens segurando um de seus braços. O patrulheiro estava sentado no chão, atordoado, com o escudo meio feito em lascas, a viseira do elmo torta, e a espada a seis metros de distância.

– Jon, basta – Halder estava gritando –, ele caiu, você desarmou-o. Basta!

Não. Não basta. Nunca basta. Jon largou a espada.

– Desculpe – murmurou. – Emmett, está ferido?

Emmett de Ferro tirou seu elmo amassado.

– Houve alguma parte de rendo-me que não conseguiu entender, Lorde Snow? – Mas aquilo foi dito de forma amigável. Emmett era um homem amigável e adorava a canção das espadas. – Que o Guerreiro me proteja – gemeu –, agora sei o que Qhorin Meia-Mão deve ter sentido.

Aquilo foi demais. Jon libertou-se dos amigos e se retirou para o arsenal, sozinho. Ainda tinha os ouvidos ressoando do golpe que Emmett lhe dera. Sentou-se no banco e afundou a cabeça nas mãos. Por que estou tão zangado?, perguntou a si mesmo, mas era uma pergunta estúpida. Senhor de Winterfell. Poderia ser Senhor de Winterfell. Herdeiro de meu pai.

Mas não foi o rosto de Lorde Eddard que viu flutuando na sua frente; foi o da Senhora Catelyn. Com os seus profundos olhos azuis e a boca dura e fria, parecia-se um pouco com Stannis. Ferro, pensou, mas quebradiço. Ela o olhava daquela maneira como costumava olhá-lo em Winterfell, sempre que ele se sobrepunha a Robb nas espadas, nas somas, ou em qualquer outra coisa. Quem é você?, sempre lhe parecia que aquele olhar dizia. Este não é o seu lugar. Por que está aqui?

Os amigos ainda estavam no pátio de treinos, mas Jon não se encontrava em estado de encará-los. Saiu do arsenal pelos fundos, descendo uma íngreme escada de pedra até os caminhos de minhoca, os túneis subterrâneos que ligavam as fortalezas e as torres do castelo. Foi uma caminhada curta até a casa de banhos, onde deu um mergulho frio para lavar o suor do corpo e depois se enfiou numa quente banheira de pedra. O calor levou um pouco da dor dos músculos e fez Jon pensar nas lagoas lamacentas de Winterfell, que fumegavam e borbulhavam no bosque sagrado. Winterfell, pensou. Theon deixou-o queimado e quebrado, mas eu poderia restaurá-lo. Certamente o pai teria desejado isso, e Robb também. Nunca teriam desejado que o castelo fosse abandonado à ruína.

“Você não pode ser Senhor de Winterfell, é um bastardo”, ouviu de novo Robb dizer. E os reis de pedra rosnavam para ele com línguas de granito. “Não pertence a Winterfell. Este não é o seu lugar.” Quando Jon fechou os olhos, viu a árvore-coração, com seus ramos claros, folhas vermelhas e rosto solene. Lorde Eddard sempre dizia que o represeiro era o coração de Winterfell... mas para salvar o castelo, Jon teria de arrancar esse coração até suas antigas raízes e entregá-lo ao faminto deus de fogo da mulher vermelha. Não tenho o direito, pensou. Winterfell pertence aos deuses antigos.

O som de vozes ecoando no teto abobadado trouxe-o de volta a Castelo Negro.

– Não sei – um homem estava dizendo, numa voz pesada de dúvidas. – Talvez se conhecesse melhor o homem... Lorde Stannis não tinha nada de muito bom a dizer dele, digo-lhe isso.

– Quando Stannis Baratheon teve muitas coisas boas a dizer de alguém? – voz pétrea de Sor Alliser era inconfundível. – Se permitirmos que Stannis escolha nosso Senhor Comandante, transformamo-nos em seus vassalos em tudo menos no nome. Não é provável que Tywin Lannister se esqueça disso, e você sabe que será Lorde Tywin quem vai ganhar no fim. Já derrotou Stannis uma vez, na Água Negra.

– Lorde Tywin é favorável a Slynt – disse Bowen Marsh, numa voz inquieta e ansiosa. – Posso lhe mostrar a carta dele, Othell. Chamou Slynt de “o nosso fiel amigo e servidor”.

Jon Snow ergueu-se de repente, e os três homens imobilizaram-se ao ouvir o som da água escorrendo.

– Senhores – disse, com fria cortesia.

– O que está fazendo aqui, bastardo? – perguntou Thorne.

– Tomando banho. Mas não deixem que eu estrague as suas maquinações. – Jon saiu de dentro da banheira, secou-se, vestiu-se e deixou-os conspirando. Lá fora, descobriu que não fazia nenhuma ideia de onde ir. Passou pelo esqueleto da Torre do Senhor Comandante, onde um dia tinha salvado o Velho Urso de um morto; passou pelo local onde Ygritte morreu com aquele sorriso triste no rosto; passou pela Torre do Rei, onde ele, Cetim e Dick Surdo Follard tinham esperado pelo Magnar e os seus Thenns; passou pelos restos empilhados e carbonizados da grande escada de madeira. O portão interior estava aberto, então Jon penetrou no túnel e começou a atravessar a Muralha. Sentia o frio à sua volta, o peso de todo o gelo por cima de sua cabeça. Passou pelo local onde Donal Noye e Mag, o Poderoso, tinham lutado e morrido juntos, atravessou o novo portão exterior, e saiu para a luz pálida e fria do sol.