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O mar estreito era frequentemente tempestuoso, e Dany atravessara-o meia centena de vezes quando menina, correndo de uma Cidade Livre para a seguinte, meio passo à frente dos assassinos contratados pelo Usurpador. Adorava o mar. Gostava do intenso cheiro salgado do ar e da vastidão do horizonte, limitado apenas por uma abóbada de céu azul-celeste. Fazia-a sentir-se pequena, mas também livre. Gostava dos golfinhos que às vezes nadavam ao lado do Balerion, cortando as ondas como lanças prateadas, e dos peixes-voadores que podiam ser vislumbrados de vez em quando. Até gostava dos marinheiros, com todas as suas canções e histórias. Certa vez, em uma viagem para Bravos, enquanto observava a tripulação que lutava para arriar uma grande vela verde no meio de uma crescente ventania, até tinha pensado em como seria bom ser um marinheiro. Mas, quando disse isso ao irmão, Viserys torcera seus cabelos até fazê-la gritar.

– Você é do sangue do dragão – ele berrou. – Um dragão, não um peixe fedorento qualquer.

Foi um tolo com isso, como com tantas outras coisas, pensou Dany. Se tivesse sido mais sensato e mais paciente, seria ele quem viajaria para oeste a fim de tomar o trono que era dele por direito. Havia chegado à conclusão de que Viserys era burro e mau, mesmo assim às vezes sentia sua falta. Não do homem fraco e cruel em que se transformara por fim, mas do irmão que às vezes a deixava se deitar na cama dele, do garoto que lhe contava histórias sobre os Sete Reinos e falava de como a vida de ambos seria melhor depois de reclamar a sua coroa.

O capitão surgiu junto a ela.

– Seria bom que este Balerion pudesse voar como o seu homônimo, Vossa Graça – disse num valiriano baixo, fortemente temperado pelo sotaque de Pentos. – Então não precisaríamos remar, nem rebocar, nem rezar por vento.

– É verdade, capitão – respondeu ela com um sorriso, satisfeita por ter conquistado o homem. O capitão Groleo era um velho pentoshi como o seu patrão, Illyrio Mopatis, e tinha se mostrado nervoso como uma donzela com a ideia de transportar três dragões em seu navio. Meia centena de baldes de água do mar ainda pendiam da amurada, para o caso de incêndio. A princípio, Groleo quis os dragões engaiolados e Dany consentiu para sossegá-lo, mas a infelicidade dos animais era tão palpável que rapidamente mudou de ideia e insistiu para que fossem libertados.

Agora até o capitão Groleo estava contente com isso. Ocorrera um pequeno incêndio, extinto com facilidade; em compensação, agora o Balerion parecia ter menos ratazanas do que antes, quando velejara com o nome de Saduleon. E a tripulação, antes tão temerosa quanto curiosa, começou a ganhar um estranho orgulho feroz de “seus” dragões. Todos os homens do navio, do capitão ao ajudante de cozinha, gostavam de ver os três voando... embora nenhum gostasse tanto como Dany.

São meus filhos, disse a si mesma, e se a maegi falou a verdade, são os únicos filhos que alguma vez terei.

As escamas de Viserion eram da cor de creme fresco e seus chifres, os ossos das asas e a crista dorsal, de um dourado escuro que relampejava ao sol, brilhante como metal. Rhaegal era feito do verde do verão e do bronze do outono. Voavam por cima dos navios em largos círculos, cada vez mais alto, ambos tentando subir acima do outro.

Dany tinha aprendido que os dragões preferiam sempre atacar de cima. Se algum deles conseguisse se colocar entre o outro e o sol, dobrava as asas e mergulhava, gritando, e caíam ambos do céu, presos numa emaranhada bola escamosa, com as mandíbulas atacando e as caudas chicoteando. Da primeira vez que tinham feito isso, Dany temeu que quisessem matar um ao outro, mas era só brincadeira. Assim que caíam no mar, espirrando água, largavam-se e voltavam a levantar voo, guinchando e silvando, com a água salgada evaporando de sua pele, em nuvens de vapor, enquanto as asas rasgavam o ar. Drogon também andava pelas alturas, mas não se encontrava à vista; devia estar muito à frente ou atrás, caçando.

Seu Drogon andava sempre com fome. Com fome e crescendo depressa. Mais um ano, ou talvez dois, e estará suficientemente grande para montar. Então não terei necessidade de navios para atravessar o grande mar salgado.

Mas esse tempo ainda não tinha chegado. Rhaegal e Viserion eram do tamanho de cães pequenos, Drogon, só um pouco maior, e qualquer cão seria mais pesado do que eles; os dragões eram todos asas, pescoço e cauda, mais leves do que pareciam. E assim Daenerys Targaryen dependia de madeira, vento e vela para levá-la para casa.

A madeira e a vela tinham-na servido bastante bem até agora, mas o inconstante vento tornara-se traidor. Havia seis dias e seis noites que estavam presos numa calmaria, e agora o sétimo dia chegara, e ainda não havia um sopro de ar que enchesse suas velas. Felizmente, dois dos navios que o Magíster Illyrio tinha mandado à sua procura eram galés mercantes, com duzentos remos cada uma e tripulação de remadores de braços fortes para manuseá-los. Mas a grande coca Balerion tocava por outra partitura; um navio imponentemente largo que mais parecia uma imensa porca, com porões gigantescos e enormes velas, mas que era impotente numa calmaria. A Vhagar e a Meraxes tinham-lhe atirado cabos para rebocá-la, mas o avanço era dolorosamente lento. Os três navios estavam repletos de gente e iam muito carregados.

– Não vejo o Drogon – disse Sor Jorah Mormont quando se juntou a ela no castelo de proa. – Perdeu-se outra vez?

– Somos nós que estamos perdidos, sor. Drogon não gosta mais do que eu deste rastejar molhado. – Mais ousado do que os outros dois, seu dragão negro tinha sido o primeiro a experimentar as asas por cima da água, o primeiro a pairar de navio em navio, o primeiro a se perder numa nuvem passageira... e o primeiro a matar. Assim que os peixes-voadores rompiam a superfície da água, eram envolvidos numa lança de chamas, apanhados e engolidos. – Ele crescerá até que tamanho? – perguntou Dany com curiosidade. – Você sabe?

– Nos Sete Reinos contam-se histórias de dragões que cresceram tanto que conseguiam arrancar lulas gigantes do mar.

Dany soltou uma gargalhada.

– Isso seria uma visão maravilhosa.

– É só uma história, Khaleesi – disse seu cavaleiro exilado. – Também falam de velhos e sábios dragões que viveram mil anos.

– Bom, e quanto tempo vive mesmo um dragão? – olhou para cima quando Viserion passou em voo rasante por cima do navio, batendo lentamente as asas e agitando as velas murchas.

Sor Jorah encolheu os ombros.

– A vida natural de um dragão é muito mais longa do que a de um homem, ou pelo menos é isso que as canções nos querem levar a crer... mas os dragões que os Sete Reinos conheceram melhor foram aqueles da Casa Targaryen. Eram criados para a guerra, e na guerra morriam. Matar um dragão não é coisa fácil, mas é possível.

O escudeiro Barba-Branca, em pé junto da figura de proa, com uma mão esguia segurando seu rijo bastão de madeira, virou-se para eles e disse:

– Balerion, o Terror Negro, tinha duzentos anos de idade quando morreu durante o reinado de Jaehaerys, o Conciliador. Era tão grande que podia engolir um auroque inteiro. Um dragão nunca para de crescer, Vossa Graça, desde que tenha comida e liberdade. – O nome do homem era Arstan, mas Belwas, o Forte, apelidara-o de Barba-Branca devido à cor dos pelos que cresciam em seu rosto, e agora quase todos o chamavam assim. Era mais alto do que Sor Jorah, embora não fosse tão musculoso; seus olhos eram azul-claros, e sua longa barba era branca como neve e fina como seda.

– Liberdade? – perguntou Dany, curiosa. –O que quer dizer?